ARROGÂNCIA E ARQUITETURA

A folha de hoje 18/02/2019 traz um artigo sobre a reforma da antiga loja de moveis, ícone dos anos 80 e 90, Forma, projeto de Paulo Mendes da Rocha, prêmio 2006 Pritzker de arquitetura.
Aldo Urbinati, conduziu não so o projeto, mas também a arrogância em tratar um projeto caro a memoria de qualquer arquiteto que tenha alguma paixão pelo mobiliário.
Quando eu dava aula, costumava alertar aos estudantes que sua primeira lição de arquitetura deveria ser a insignificância. Arquitetos, somente os famosos desfrutam da memória. O resto desaparece na poeira da história. Quantos prédios, quantas casas passamos ao largo sem saber quem projetou, quem construiu.
Qualquer obra de arquitetura esta sujeita as mãos de outros arquitetos ou de outras ações. O Parthenon resistiu por séculos, e grande parte dele veio abaixo não pela ação do tempo, mas por ter se tornado um deposito de munições que explodiu em 1687, quanto foi atingidos por tiros de canhões.
A obra de qualquer arquiteto, em certa medida, não é uma obra intocável, ainda que alguns queiram imagina-las assim.
O tempo é um corrosivo terrível para a obra arquitetônica, que por vezes tem que ser adaptadas ao momento.
O que mais incomoda na reportagem, é a arrogância do jovem arquiteto a querer disputar com o grande arquiteto. “Queria uma espécie de embate franco”, nas palavras dele. Bobagem de criança. A mão ao telefone resolveria a questão.
Há alguns anos atrás fomos chamados para complementar um setor num cemitério em campinas, obra do arquiteto Gilberto Paschoal, pouquíssimo valorizado, e de grande competência técnica. Passamos a mão ao telefone e solicitamos uma reunião. Explicamos que iriamos desenvolver uma nova área de velórios, e queríamos o projeto dele para dar sequência. O arquiteto nos perguntou por que? Respondemos que o projeto dele era muito bom, não havia necessidade de criar uma outra obra para competir com a dele. Ele ficou impressionado. Nunca esperou isto de jovens arquitetos (éramos jovens ainda).
Há participações de arquitetos que engradecem a obra, mesmo fazendo algo completamente fora do esperado. O próprio paulo mendes fez isto na pinacoteca do estado, onde sua intervenção conversa com a obra de outro arquiteto, Ramos de Azevedo (com quem obviamente ele não poderia ligar!!!). o arquiteto chino-americano Ieoh Ming Pei fez isto a frente do museu do Louvre, engrandecendo a obra do primeiro grande museu do mundo.
Assim não é a intervenção que destrói a obra arquitetônica, é a arrogância e falta de modéstia que invalida a intenção de um jovem arquiteto em busca da relevância. O tempo passará e Paulo Mendes da Rocha ficará, o rapaz, como é mesmo o nome dele?