8ª MARAVILHA, O ESCAMBAU!

 

 

Each new situation requires a new architecture. – Jean Nouvel

 

Todo mundo sabe que houve maravilhas arquitetônicas construídas na antiguidade. Quem não conhece a frase as 7 maravilhas do mundo?

A grande pirâmide de Giza, Colosso de Rodes, Jardins Suspensos, Farol de Alexandria, O mausoléu de Halicarnasso, a Estátua de Zeus e O templo de Diana. Se não são efetivamente conhecidos são lembrados pela expressão maravilhas do mundo.

Entretanto, Hemon, Chares de Lindos, Nabucodonosor II, Sostratus de Cnidus, Satyros e Pythius, Phidias e Chersiphron, são muito menos conhecidos, mas estão registrados. São eles os autores das maravilhas!

Em Campinas há, por escolha popular, 7 maravilhas. Todas sem exceção, se sabe, quem são seus autores.

Quando uma empresa lança um empreendimento em Campinas e o chama de 8ª maravilha é preciso um senso largo de compreensão arquitetônica e uma falta de humildade exponencial.

O que mais choca é o fato de em seu anúncio de 8ª maravilha, não conste o nome de quem criou a maravilha!

É notória a falta de consideração das construtoras com a Resolução CAU/BR Nº 67/2013: “Art. 15. “Em documentos, peças publicitárias, placas ou outro elemento de comunicação dirigido a cliente, ao público em geral e ao CAU/UF, sempre que for utilizado qualquer projeto ou outro trabalho técnico de criação no âmbito da Arquitetura e Urbanismo, devem ser indicados: nome do autor; registro no CAU; atividade técnica desenvolvida.”

A profissão de arquitetura é uma atividade reservada aos arquitetos e, portanto, merecem crédito por suas criações. Não é uma questão de vaidade é apenas uma questão de reconhecimento. Mas vamos lá ao anúncio da oitava. O que contém a obra em si que mereça a epitome de maravilha? Nada!

Chamo a atenção que isto não é uma crítica a quem fez o projeto, é uma crítica a se chamar de maravilha algo absolutamente convencional em termos de planta arquitetônica, onde talvez a única novidade seja o” quintal técnico”.

A planta de 3 suítes não possuiu nada que possa considerá-la excepcional diante de outros lançamentos. Há uma série de penduricalhos que fazem parte de qualquer arquitetura contemporânea: lâmpadas LED em áreas comuns, aquecedores entregues (eles são pagos!), porcelanato de primeira, ligação da cozinha e área gourmet? É uma ligação convencional, presente em inúmeros projetos.

A culpa desta arrogância pode não estar na construtora, mas na agência de publicidade, contratada, que desenvolve ideias mirabolantes, que em nada correspondem a realidade. A arte da publicidade é vender sonhos, que, entretanto, se desmancham no ar. A quantidade de elementos nas áreas comuns implicará em substancial custo aos seus moradores. Se é um empreendimento de luxo eles poderão arcar com isto.

Vamos ao que falta para que ele pudesse ser considerado maravilha, se é que isto é possível: área de tratamento de lixo nos apartamentos (cada pessoa gera por dia 1 quilo de refugos e material que pode ser reciclável, isto estaria sintonizado com o futuro. É melhor cuidar do lixo, do que da roupa suja, que muito mais fácil de se resolver.

Os apartamentos continuam sendo projetados para famílias mononucleares formados de papai, mamãe e filhinhos. A sociedade se modificou e as construtoras ainda não notaram isto. Continuamos a projetar para o passado e não para o futuro.

Não há um pio sobre consumo de energia, um dos grandes problemas do futuro e que um condomínio deste porte já deveria estar se preocupando.

As persianas com blecaute e automatizadas são ótimas, mas serão um verdadeiro inferno no futuro, com manutenção. Este tipo de mecanismo é um convite a problemas. Prefiro que não automatizemos e automatizemos aquilo que de fato precise ser.

O futuro que pode maravilhar tem que ser na forma de ajustar o apartamento as nossas necessidades presentes. Modificações possíveis são necessárias, mexer em paredes é ótimo, mas não podendo mexer no banheiro, as opções são restritas. O futuro não passa por aí.

Tenho tentado discutir, na verdade, o que o futuro pode significar para a arquitetura. As construtoras perderam a vontade da inovação e se concentram em anglicismo estéreis (pet place, pizza place, beauty center, dog wash, car wash, beach tennis, pista kid, coworking, fitness ah! Give me break!!!!!). nada disto é inovação e nem maravilha. Isto é apenas serviços e espaços a serem pagos pelos condôminos. Que valha a pena aí, talvez o espaço de coworking, que aproxima a moradia ao trabalho.

Para inovar é preciso investir, arriscar e olhar o que está sendo feito efetivamente de melhor no mundo. Mas infelizmente não tenho visto nem encontrado interlocutores com quem discutir o que realmente pode ser o futuro da moradia.

Elas continuam presas ao paradoxo do Tostines, vende mais porque é fresquinho ou porque é fresquinho vende mais. Os corretores são os maiores influenciadores da tipologia de edificações que devem ser feitas. Não que não devam ser consultados, mas é a mesma coisa que perguntar que tipo de chave que o galinheiro deve ter para a raposa. Ela vai dizer a chave que abra o galinheiro. Portanto eles escolhem o tamanho do anzol para o tamanho do peixe.

O Brasil não é comum pesquisas serias para saber exatamente o que as pessoas querem. O erro está na tipologia de perguntas feitas. Assim a verdadeira escolha fica escondida.

Somente quando os construtores, arquitetos e corretores estiverem sintonizados com o desejo real das pessoas que a oitava maravilha do mundo vai surgir.