DESGRAÇADOS

DESGRAÇADOS ¹

 

The tragedy in life doesn’t lie in not reaching your goal. The tragedy lies in having no goal to reach. Benjamin Mays [2]

 

 

A religião católica estabeleceu alguns dogmas que são interessantes para a análise que pretendo fazer. Um dos mais simbólicos deles, é a graça. A graça é algo que obtemos sem merecer. Você a recebe independente de sua vontade. A desgraça é o estado em que se encontram aqueles que perderam a graça por vontade própria, desejo ou ação.[3]

É nesta situação em que se encontram muitas salas de aula que observo quando dou aulas.

Ser professor hoje em dia é enfrentar um mundo em desgraça, movido a falta de educação, tédio e desinformação. Os alunos de hoje, são uma espécie de “ofendidinhos [4]” aos quais não se pode desagradar. São crianças mimadas, que não estão preparados para enfrentar as agruras da vida. Ao saírem enfrentarão desemprego, competição brutal e falta de oportunidades. Em quase sua totalidade são imaturos e o que é o pior, talvez para sempre.

Enquanto pais e professores estamos mal acostumando nossos filhos e alunos, protegendo-os dos males do mundo. Não é assim que a coisa funciona. Os alunos e alunas devem estar submetidos desde o primeiro dia de aula a as dificuldades da profissão, os desafios do conhecimento e a exploração da inovação.

Não que professores estejam isentos. grande parte deles não se atualizam, não investem em novidades e não estão sintonizados com o que acontece no mundo.  Parte deles sequer atuam como arquitetos, o que não é necessariamente um mal. Mas a experiencia do dia a dia de profissionais que atuam, é fundamental para o estabelecimento de uma harmonia entre teoria e prática.

Poucos trabalham em escritórios e já se sentem arquitetos ou arquitetas.

Tenho defendido o certificado de “inconclusão” aos alunos em vez de diploma, para que a noção de aprendizado continuado se estabeleça. Nunca, nunca estaremos totalmente formados. O arquiteto ou arquiteta que achar que sabe tudo, está morto e não sabe!

Os métodos, na universidade e escolas, sabidamente, estão ultrapassados, e novas metodologias de ensino estão sendo desenvolvidas de forma a captar a atenção e participação dos alunos.

No seio destas novas formas, está a produção de conhecimento, onde não há uma distinção entre professores e alunos, e em conjunto produzem o saber que é necessário ao aprendizado dos alunos.

Entretanto, esta novidade (não é tão nova assim) não chegou à faculdade de arquitetura, onde uma parte de professores, ainda precisam proferir uma aula. A razão disto? Conhecimentos básicos e fundamentais não foram absorvidos pelos alunos, nos estágios anteriores da educação.

A função precípua da universidade é formar pessoas aptas a desenvolver sua profissão. Outras funções são acessórias a isto, formar cidadão, mão de obra e técnicos, além de possibilitar um contingente de pessoas com saberes para fazer avançar o país. Gerar riquezas pessoais (sim é disto que se trata também a formação) e gerar também as riquezas do país, pois são elas que farão avançar as condições intelectuais, materiais e tecnológicas de toda uma geração.

O quadro de salas de aula é desanimador, ao se dar uma aula 95% (sim noventa é cindo por cento, dos alunos estão olhando celulares, notebooks ou conversando. É desanimador olhar de pé, o que eles fazem sentados. Eles não têm repertório capaz de possibilitar um discurso sobre o trabalho que tem a profissão que terão que exercer.

Num mundo terceirizado, o Balconismo e a Uberização das profissões, serão o destino de 99% deles ou delas, o que é lamentável de qualquer ponto de vista que se olhe.

Do ponto de vista pessoal, 12 semestres perdidos, a um custo altíssimo (como não existe almoço grátis, também não existe escola gratuita, todas as escolas são pagas de uma forma ou de outra). O custo de um aluno numa escola privada custa em torno de 160.000 R$, fora os custos de manutenção, alimentação e vestimenta.

As aulas noturnas são um teste a resistência dos alunos, que após uma jornada diária tem que enfrentar aulas num período que vai do começo da noite até as 22 horas. Para jovens pode não ser a atividade mais interessante a se fazer. Mas é um sacrifício que tem que realizar a fim de obter o tão almejado diploma.

Há uma culpa enorme de todo o sistema educacional, que precisa ser reformado (não pelo imbecil de plantão!!!) da raiz para seus galhos mais altos. tudo, literalmente tudo precisa ser alterado, para que haja uma real modificação do sistema de aprendizado no Brasil.

A academia não tem se esforçado muito, e as direções colocadas em muitas escolas estão ultrapassadas. A luta, fraticida ,pelo poder entre acadêmicos inviabiliza uma visão de longo prazo, dificulta o planejamento, e não atende as demandas por inovações que temos adiante.

Estamos em pleno século XXI, a 4ª Revolução Industria em curso e não há nas faculdades de arquiteturas, uma mínima visão dos impactos que esta revolução pode trazer para a profissão. tenho dito que o Brasil precisa de 3 revoluções: educação, educação e educação.

Sem isto o que nos reserva o futuro não é bom!

 

 

 

REFERÊNCIA:

[1] Não se deve extrair desta expressão aquilo que ela não contém. O termo é utilizado na sua acepção religiosa!

 

[2] A tragédia na vida não repousa em não alcançar o seu objetivo, mas em não ter objetivo para alcançar. Benjamin Elijah Mays era um ministro batista americano e líder de direitos civis que é creditado por lançar as bases intelectuais do Movimento dos Direitos Civis.

 

[3] É uma metáfora, este autor não possui nem religião nem alma para que possa receber graça ou desgraça. O termo aqui é utilizado para reforçar a ideia de que nossa situação decorre de nossas decisões, e não por condições dadas. Devemos sempre nos opor e confrontar as condições para a obtenção daquilo que desejamos ou almejamos.

 

[4] Expressão utilizada pelo filosofo Luiz Filipe Pondé, para designar a juventude cujos pais não preparam os filhos para o enfrentamento das dificuldades da vida.


8ª MARAVILHA, O ESCAMBAU!

8ª MARAVILHA, O ESCAMBAU!

 

 

Each new situation requires a new architecture. – Jean Nouvel

 

Todo mundo sabe que houve maravilhas arquitetônicas construídas na antiguidade. Quem não conhece a frase as 7 maravilhas do mundo?

A grande pirâmide de Giza, Colosso de Rodes, Jardins Suspensos, Farol de Alexandria, O mausoléu de Halicarnasso, a Estátua de Zeus e O templo de Diana. Se não são efetivamente conhecidos são lembrados pela expressão maravilhas do mundo.

Entretanto, Hemon, Chares de Lindos, Nabucodonosor II, Sostratus de Cnidus, Satyros e Pythius, Phidias e Chersiphron, são muito menos conhecidos, mas estão registrados. São eles os autores das maravilhas!

Em Campinas há, por escolha popular, 7 maravilhas. Todas sem exceção, se sabe, quem são seus autores.

Quando uma empresa lança um empreendimento em Campinas e o chama de 8ª maravilha é preciso um senso largo de compreensão arquitetônica e uma falta de humildade exponencial.

O que mais choca é o fato de em seu anúncio de 8ª maravilha, não conste o nome de quem criou a maravilha!

É notória a falta de consideração das construtoras com a Resolução CAU/BR Nº 67/2013: “Art. 15. “Em documentos, peças publicitárias, placas ou outro elemento de comunicação dirigido a cliente, ao público em geral e ao CAU/UF, sempre que for utilizado qualquer projeto ou outro trabalho técnico de criação no âmbito da Arquitetura e Urbanismo, devem ser indicados: nome do autor; registro no CAU; atividade técnica desenvolvida.”

A profissão de arquitetura é uma atividade reservada aos arquitetos e, portanto, merecem crédito por suas criações. Não é uma questão de vaidade é apenas uma questão de reconhecimento. Mas vamos lá ao anúncio da oitava. O que contém a obra em si que mereça a epitome de maravilha? Nada!

Chamo a atenção que isto não é uma crítica a quem fez o projeto, é uma crítica a se chamar de maravilha algo absolutamente convencional em termos de planta arquitetônica, onde talvez a única novidade seja o” quintal técnico”.

A planta de 3 suítes não possuiu nada que possa considerá-la excepcional diante de outros lançamentos. Há uma série de penduricalhos que fazem parte de qualquer arquitetura contemporânea: lâmpadas LED em áreas comuns, aquecedores entregues (eles são pagos!), porcelanato de primeira, ligação da cozinha e área gourmet? É uma ligação convencional, presente em inúmeros projetos.

A culpa desta arrogância pode não estar na construtora, mas na agência de publicidade, contratada, que desenvolve ideias mirabolantes, que em nada correspondem a realidade. A arte da publicidade é vender sonhos, que, entretanto, se desmancham no ar. A quantidade de elementos nas áreas comuns implicará em substancial custo aos seus moradores. Se é um empreendimento de luxo eles poderão arcar com isto.

Vamos ao que falta para que ele pudesse ser considerado maravilha, se é que isto é possível: área de tratamento de lixo nos apartamentos (cada pessoa gera por dia 1 quilo de refugos e material que pode ser reciclável, isto estaria sintonizado com o futuro. É melhor cuidar do lixo, do que da roupa suja, que muito mais fácil de se resolver.

Os apartamentos continuam sendo projetados para famílias mononucleares formados de papai, mamãe e filhinhos. A sociedade se modificou e as construtoras ainda não notaram isto. Continuamos a projetar para o passado e não para o futuro.

Não há um pio sobre consumo de energia, um dos grandes problemas do futuro e que um condomínio deste porte já deveria estar se preocupando.

As persianas com blecaute e automatizadas são ótimas, mas serão um verdadeiro inferno no futuro, com manutenção. Este tipo de mecanismo é um convite a problemas. Prefiro que não automatizemos e automatizemos aquilo que de fato precise ser.

O futuro que pode maravilhar tem que ser na forma de ajustar o apartamento as nossas necessidades presentes. Modificações possíveis são necessárias, mexer em paredes é ótimo, mas não podendo mexer no banheiro, as opções são restritas. O futuro não passa por aí.

Tenho tentado discutir, na verdade, o que o futuro pode significar para a arquitetura. As construtoras perderam a vontade da inovação e se concentram em anglicismo estéreis (pet place, pizza place, beauty center, dog wash, car wash, beach tennis, pista kid, coworking, fitness ah! Give me break!!!!!). nada disto é inovação e nem maravilha. Isto é apenas serviços e espaços a serem pagos pelos condôminos. Que valha a pena aí, talvez o espaço de coworking, que aproxima a moradia ao trabalho.

Para inovar é preciso investir, arriscar e olhar o que está sendo feito efetivamente de melhor no mundo. Mas infelizmente não tenho visto nem encontrado interlocutores com quem discutir o que realmente pode ser o futuro da moradia.

Elas continuam presas ao paradoxo do Tostines, vende mais porque é fresquinho ou porque é fresquinho vende mais. Os corretores são os maiores influenciadores da tipologia de edificações que devem ser feitas. Não que não devam ser consultados, mas é a mesma coisa que perguntar que tipo de chave que o galinheiro deve ter para a raposa. Ela vai dizer a chave que abra o galinheiro. Portanto eles escolhem o tamanho do anzol para o tamanho do peixe.

O Brasil não é comum pesquisas serias para saber exatamente o que as pessoas querem. O erro está na tipologia de perguntas feitas. Assim a verdadeira escolha fica escondida.

Somente quando os construtores, arquitetos e corretores estiverem sintonizados com o desejo real das pessoas que a oitava maravilha do mundo vai surgir.

 

 

 


ABAIXO O DIPLOMA!!!!

ABAIXO O DIPLOMA!

 

A vida de arquitetos e arquitetas[1] não é fácil. São 4210 horas de ensino e treino, com um período chamado de “integral”. A proposta é de formar profissionais capazes de resolver problemas de ordem espacial.

“O curso de Arquitetura e Urbanismo objetiva a formação de profissionais generalistas(grifo nosso), capazes de compreender e traduzir as necessidades de indivíduos, grupos sociais e comunidades, com relação à concepção, organização e a construção do espaço interior e exterior, abrangendo o urbanismo, a edificação e o paisagismo, bem como a conservação e a valorização do patrimônio construído, a proteção do equilíbrio do ambiente natural e a utilização racional dos recursos disponíveis.”[2]

 

Intenções nem sempre se tornam realizações.

Os cursos de arquitetura, os quais eu tive algum acesso (já fui desconvidado, pelo caráter alarmante e pessimista de minhas aulas sobre a profissão) tem formado raros e poucos bons profissionais[3]. A maioria não tem condições, ao sair, de enfrentar um projeto real. É, em certa medida, que isso seja um pouco natural, pois na verdade na escola os projetos são irreais, sem vínculo efetivo com as condições encontradas na realidade.

A expressão generalista, é uma denominação de muito apreço, para mim. Acho que o generalista tem uma visão mais ampla do que o especialista, tratamos com inúmeros ramos do conhecimento[4], e devemos ter um conhecimento mediano a respeito dos vários assuntos que envolvem não so a arquitetura bem como a vida em geral. É a velha história de que é melhor conhecer o elefante inteiro do que profundamente a unha do elefante.

Não aprendemos a negociar, não aprendemos como estabelecer nosso relacionamento com o mercado e os clientes. Não sabemos e nem sempre fazemos contratos. Temos aversão ao negócio.

Nos Estados Unidos crianças vendem laranjada na frente de casa, é o preparo para a vida de negócios, no futuro. Aqui é exploração infantil!

Eu costumava dar exemplo de dentistas, que ao se formarem, tinham todo equipamento comprado e aptos a abrir seus consultórios. Nós viramos estagiários.

Estagiário, aqui sem nenhum viés denotativo, é uma parte importante do aprendizado, mas são transformados em apenas em um desenhista mais qualificado (?).

São as malditas 4210 horas e mais um apartamento, o custo[5] (põe mais um pouquinho aí) para formar um arquiteto.

Vale?

Considero a última das grandes profissões humanistas que há, cujas preocupações com o outro ainda tem lugar no rol das preocupações dos seus profissionais.

Entretanto é desprezada e desvalorizado por todos, inclusive, por nós mesmos.

Considero uma estupidez, uma construtora, ou um empreendedor, que paga menos de 1% do valor dos custos de obra como remuneração por um projeto.

Não é só mesquinharia, muquiranice e pão-durismo, é sobretudo burrice. Um projeto representa economia, eficiência e melhores condições para um produto habitacional.

Um vendedor ou corretor, recebe até 6% do valor do imóvel em suas negociações, nada contra, mas o arquiteto que possibilitou a existência do objeto que ele comercializa, receber uma quantia ínfima, soa ofensivo.

Não é à toa que o que se vê no mercado, é um aglomerado de porcarias, repetições e variações sobre o mesmo assunto. Se recebe pelo que se paga!

Arquitetos e arquitetas tem, em sua maioria, projetado para famílias que não existem mais, projetos para condições inexistentes, sem visualizar as tremendas alterações que a vida contemporânea tem imposto a todos nos.

Os impactos da modernidade são maltratados por empresários que também são malformados, isto significa que eles não compreendem como um bom projeto pode mudar não só a vida daqueles que moram, mas da cidade como um todo.

Nossas cidades têm se transformado num entulho de entulhos arquitetônicos.

Nos enquanto arquitetos deveríamos receber, ao fim dos 5 anos, um certificado de “INCONCLUSÃO”, uma garantia de que não havíamos nos formados, de que nossa incompletude arquitetônica deveria ser motivo de continuado aprendizado.

Quantos de nós continuam a estudar? Quantos de nós buscam informações a respeito de novas técnicas e tecnologias? quantos de nós estudam as interações de novas mídias e a arquitetura? Quantos de nós buscam novas relações dentro da casa, para propor modificações e avanços?[6]

É isso que chamo de “deformação”, deixamos de nos formar continuadamente para enfrentar os desafios de um mundo em constante transformação.

[1] Em 1986, ou seja, a 33 anos atrás, o cartão de visita de qualquer arquiteta, ostentava a denominação “arquiteto” Fulana de Tal. A arquiteta Heloisa Moretzsohn foi a primeira mulher em Campinas a ter a denominação, arquiteta, em um cartão.

 

[2] Definição dos objetivos do curso, veja mais aqui: https://www.puc-campinas.edu.br/graduacao/arquitetura-e-urbanismo/

 

[3] Será motivo de outro post esses profissionais que dão esperança a profissão.

 

[4] Ao menos 13 atividades estão envolvidas em um processo arquitetônico. Topografia, terraplenagem, fundações, arquitetura, cálculo estrutural, hidráulica e elétrica, ar condicionado, iluminação, conforto, acústica, impermeabilização, interferências eletromagnéticas e decoração.(devem ter outros!)

 

[5] Durante as palestras que eu dava sobre a profissão, costumava exibir uma nota de 100 R$(falsa evidentemente!) e em um certo momento eu rasgava. Dizia aos alunos que era exatamente isto que eles faziam, ao ficar jogando conversa fora na cantina. É o custo/dia para uma família que paga as despesas do aluno (sem contar o custo mensal da faculdade).

 

[6] Temos evidentemente raros e poucos que continuadamente fazem isso, não cito, para não melindrar a “crasse”


"DUMB CITY"

“DUMB CITY” A CIDADE BURRA

 

A cidade vem se tornando apesar dos avanços das últimas décadas, num lugar insuportável de se viver.

Estamos vivendo a época de vigilância permanente, acompanhado por câmeras e radares, certificações biométricas e fornecimentos de CPFs.

Que tipo de cidade estamos criando?

A cidade, em muitos aspectos deixou de ser amigável, as administrações municipais, estaduais e federais, jogam o máximo que podem ao cidadão, deixando de cumprir suas tarefas constitucionais de fornecer serviços em troca de impostos. Os agentes alocados a cumprir a tarefa de vigilância, são em geral, intolerantes, mal-humorados e voluntariosos. Cumprem suas tarefas com evidente má vontade, contra o cidadão e pagador de seus salários.

Basta ir aos balcões de atendimento das prefeituras para enfrentar uma torrente de caras feias e má vontade em atender. O serviço público, no brasil, ainda não entendeu que seu trabalho é de prestação de serviços ao cidadão, que tem direitos a serem respeitados. Ressalte-se aqui o Poupa Tempo, já famoso por sua gentileza, rapidez e eficiência ao cidadão.

Um dos exemplos piores é o trânsito da cidade, aparentemente longe das nossas atividades de arquitetos, engano nosso. Toda a cidade, a urbe, é de nosso interesse e campo de estudo. A mobilidade na cidade, a face semanticamente, mais humana do trânsito, assim como no resto do país é violenta, mal-educada e irresponsável. As atitudes tomadas no sentido de coibir as infrações, não vão no sentido da educação, a única forma de se modificar os índices de letalidade da mobilidade nas cidades, em especial a nossa.

As autoescolas deveriam ser responsabilizadas, de alguma forma, pela atuação de nossos motoristas, assim como como advogados são instados a serem examinados e suas escolas, em alguma medida respondem por seu desempenho, estas escolas, cumprem um papel de significância, sem que o estado faça alguma coisa.

Os agentes de mobilidade atuam no sentido da punição e não da educação, investindo contra a população ao menor descuido e erro. Lombadas e radares são instalados sem que haja flagrantemente uma necessidade. São instalados sob a égide estatística, onde as probabilidades de um descuido do motorista sejam maiores. Os recursos impetrados são majoritariamente recusados impossibilitando a ampla defesa ao cidadão.

Enquanto isto a malha asfáltica da cidade se deteriora, forçando motoristas a se desviarem arriscadamente de buracos, impondo gastos a manutenção e deteriorando veículos. A existência das indefectíveis lombadas, é um recurso de nos lembrar insistentemente de que as autoescolas não funcionam. Uma vez que as velocidades das cidades deveriam ser obedecidas, em supremacia a toda forma de se dirigir.

Basta uma viagem ao exterior e verificar o índice de obediência as leis de trânsito. O Brasil mata por ano 37.000 pessoas, o equivalente a uma guerra. Mas as ações regulatórias, não estão fazendo um enfrentamento direto. Ainda que radares e lombadas possam atuar de forma a reduzir, seu aspecto arrecadatório ainda é mandatório. Por isto virou uma verdadeira indústria no Brasil. Lá fora há radares sim, mas não em números como há nas nossas cidades.

No caso de Campinas instalados a partir da década de 80 do século passado, inicialmente se expressaram na redução e na vacância de leitos nos hospitais. A aplicação de velocidades variadas, sem uma clara justificativa, somente serve para uma “pegadinha” no motorista. É óbvio que o estabelecimento de uma única velocidade 40 ou 50 Km/h seria suficiente para a redução de mortes no trânsito. A educação pela autoescola, obrigando seus alunos ao cumprimento de uma regra simples, levaria a uma redução brutal dos índices.

Fala-se muito em SMART CITIES (cidades inteligentes), mas somente haverá esta tipologia de cidade, se o poder público, se engajar na luta pelo cidadão e não pela arrecadação. É preciso arrecadar, sem a menor sombra de dúvida. A cidade não é um ente que possui recursos, eles advêm de seus cidadãos. E é em benefícios deles que estes recursos devem ser administrados.

O uso de tecnologia, já disponível, pode e deve ajudar de forma ativa a administração e uso da cidade. Mas o uso desta tecnologia, não se encontra visível ao cidadão. É lógico que há iniciativas em todos os setores, mas são tímidas diante das urgências que temos.

Aparentemente um dos personagens mais ativos na criação das cidades ainda não despertou ou foi chamado a participar das cidades inteligentes. os arquitetos!

A cidade inteligência, precisa ser não somente inteligente, ela deve ser útil, amigável e sobretudo voltado ao cidadão.

O autor deste artigo, sofre a acusação de se recusar a se submeter a exame de dosagem alcoólica, desde 2015, sem que se tenha obtido uma posição da justiça. A forma encontrada pelo Detran, flagrantemente inconstitucional, ao penalizar da mesma forma, a recusa a fornecer provas ao delito, não encontra sustentação jurídica. Na autuação, o agente não apontou provas ou suspeitas de que se dirigia sob o efeito de álcool ou outra substância. Tanto assim, que a legislação foi alterada em 2016 para evitar o recurso e a afronta a lei.


INUTILIDADES DOMÉSTICAS

INUTILIDADES DOMÉSTICAS


There is nothing so useless as doing efficiently that which should not be done at all
Peter Drucker

O Brasil tem coisas que até Deus, se existisse, duvidaria. Uma é a caixa d’água e a outra é o chuveiro elétrico.

A caixa d’agua é um típico indicador de subdesenvolvimento, pois ele mostra a insuficiência, intermitência ou mesmo a falta de fluxo de água para a moradia. Em países desenvolvidos, as empresas fornecedoras de serviços de água, garantem o fornecimento 24/7. Os casos de interrupção são raros e eventuais.

A água é um recurso escasso, por esta razão, sua guarda e utilização, obedeciam às regras de uso e parcimônia da utilização. Na antiguidade o uso compartilhado era através de cisternas. As primeiras têm sua origem, no Levante, Mesopotâmia. Seu uso estava ligado a utilização humana, animais e agricultura.

A cidade de Constantinopla, atual Istambul, construiu uma cisterna a partir do local de habitação dos construtores da Basílica de Santa Sofia, e como uma proteção para a cidade durante cerco de seus inimigos. Construída em 532, utilizando o mesmo sistema utilizado para a construção da basílica, ou seja, “pré-moldado” 366 colunas oriundas do desmonte de Templos pagãos. Tem capacidade para 30.000.000 de litros d’água, e se constituiu numa importante estratégia de guerra.

Até os anos 50-60 do século XX a água utilizada nas casas era oriunda de poços, riachos e fontes e eram acumuladas em caixas de alvenaria (sujeitas a uma serie enorme de problemas). moringas, filtros e cisternas ajudavam na guarda. A partir dos anos 60 foram implantadas as caixas de amianto. Problemas ambientais e de saúde acabaram por banir o asbesto, matéria prima do amianto, do mundo civilizado. Entretanto no Brasil sua utilização, ainda que restrita, continua em uso. Não em caixas d’água. A tecnologia modificou estas caixas para PVC e fibra de vidro. A preferência ao PVC, ou policloreto de polivinila (ou policloreto de vinil), se deu por seu baixo custo e sua leveza. Mas ele também não é isento de graves problemas.
Assim aquele elemento, aparentemente útil e inócuo colocado sob nossos telhados deveria ter um fim. E os serviços de água e esgoto garantissem o fornecimento contínuo e ininterrupto. É assim nos países desenvolvidos e deveria ser assim aqui.

Os chuveiros elétricos, são desses absurdos que só aqui podem existir. São uma invenção nacional dos anos 30 do século XX. Inicialmente feitos de metal, a partir dos anos 70 são produzidos com carcaça plástica, para maior segurança. Ainda que a indústria nacional tenha conseguido um produto de relativa segurança, informe que seu produto é produzido sob os maiores cuidados, o fato é que misturar eletricidade e água nem sempre é uma boa ideia.

Presentes em praticamente toda América Latina, faz parte da rotina de milhões. Com pouca presença em estatísticas fatais, mais provavelmente defina a falha de reporte, pois as vezes o acidente é anotado apenas como evento envolvendo eletricidade na residência sem especificar a localização.

Independente disto, a falta de mão de obra especializada e a proliferação de pessoas especializadas em bicos, só cresce. Estas pessoas, tem pouca noção dos riscos envolvidos, trabalham sem proteção e com pouca habilitação técnica. Alie-se a isto a falta de projetos específicos, no caso elétrico, para as residências. Os construtores e proprietários, muitas vezes, optam em função de preços por produtos inadequados (bitolas incorretas), que cedo ou tarde apresentarão problemas. Some-se ainda o fato de que a imensa maioria das construções utiliza “um especialista” em implantação da sua rede elétrica. A baixa utilização de DR’s que é um equipamento essencial em qualquer residência, serviria de proteção, em quase a totalidade dos acidentes elétricos nas moradias. Acontece que o equipamento não pode ser instalado se houver gambiarras, junções com fitas isolantes, falta de separação por circuitos (por exemplo, máquina de secar roupas ligadas em conjunto com outros equipamentos, freezer ou geladeiras) excesso de cargas por circuitos e etc.

Um outro problema que aflige a parte elétrica é a falta de aterramento nas residências. É obrigatório, e em parte, nem sempre corretamente, uma barra de ferro pintada de cobre, ou mesmo cobre de baixa qualidade que vai enfiada na terra e nunca mais se olha isto. O aterramento é um elemento fundamental na proteção do individuo dentro de sua residência (é uma das razões da famigerada tomada de três pinos). O pouco caso com a colocação da parte elétrica somente piora a qualidade das instalações. A fiação deve estar entubada e isolada. O aterramento feito junto a estrutura da casa, já é uma garantia de maior proteção.

Numa pesquisa rápida do Google a Inglaterra parece ser o único país da Europa a possuir o chuveiro elétrico. Sua utilização se deve ao fato da tipologia de energia fornecida, por vezes o gás ou de outras fontes é mais caro.

De qualquer forma, num país de características continentais, como o nosso, com pouca especialização, o chuveiro elétrico, continua um impávido colosso de utilização. Em alguns anos, talvez, apresente algum declínio em função da escalada de preços da energia. No Brasil, o gás devera se tornar mais barato a partir das descobertas de imensas reservas de gás natural.

Ainda assim, o chuveiro junto com a caixa d’água ainda se constituirão num exemplo de inutilidade doméstica!

 REFERÊNCIAS


[1] “Não existe nada mais inútil do que fazer eficientemente aquilo que nem deveria ter sido feito.”

[2] Peter Ferdinand Drucker (1909- 2005), austríaco de nascimento, viveu grande parte da vida nos Estados Unidos, é um dos mais importantes pensadores da administração moderna.

[3] Cisterna em português vem do latim “cisterna”, de cista, “caixa”, do grego κίστη kistê, “cesta” é um recipiente para reter líquidos em geral água.

[4] Pré-moldado significa aqui que estes pilares não foram construídos para o específico uso. No caso da Basílica, bem entendido, não havia a noção de pré fabricação na antiguidade, na escala que temos hoje em dia. Os pilares sempre tiveram a função estrutural. No caso de Santa Sofia eles foram usados como estruturas pré-moldadas, semelhantes ao utilizados hoje em dia. Eles foram utilizados em função da montagem de Santa Sofia. Eles foram utilizados em função da montagem de Santa Sofia. O médico Isidoro de Mileto e o matemático Antêmio de Trales escolhidos por Justiniano (482-565) como arquitetos da basílica. Para ser possível a construção nos incríveis 5 anos que o imperador queria, eles propuseram o desmonte de templos por todo o império de forma a agilizar sua construção. É possível que mais de 10.000 trabalhadores tenham sido empregados na sua construção. Para abrigar estas pessoas foi construído o abrigo que posteriormente se tornou a cisterna.

[5] Para ver mais aqui, neste importante artigo Avelino José Pereira Neto: http://www.artigos.com/artigos/19357-a-caixa-d-agua

[6] A indústria nacional, é preciso reconhecer avançou, em muito, no quesito segurança, nos últimos anos.
DR é um disjuntor com prevenção a surtos elétricos. DR entende-se como Diferencial Residual, o qual tem como finalidade proteger pessoas e os animais contra os efeitos do choque elétrico seja por contato direto como indireto. O dispositivo ao detectar uma fuga de corrente na instalação, ele desliga o circuito imediatamente. Aqui vai uma pequena história: a vários anos atrás, fiz um projeto para um grande amigo, o obriguei a instalar os DR. Anos depois ele ao vender a casa me disse, você me fez gastar um dinheirão nestes DR’s e nunca aconteceu nada, ao que eu respondi: e gostaria que tivesse acontecido? Uma segunda história, fizemos um terminal de ônibus, e no projeto pedi proteção máxima para os circuitos elétricos e aterramentos. O construtor me ligou perguntado se poderia substituir o equipamento, por um convencional, que não era o DR. Eu lhe respondi que sim. Mas o preveni, entretanto, que se no dia da inauguração, caísse um raio e fulminasse o prefeito e outras pessoas presente, quando viessem me prender, por irresponsabilidade e atuação criminosa, eu também trocaria meu nome pelo dele. Ele colocou o DR.

[7] Segundo o prof. Antônio Panicali, um especialista em proteção atmosférica, o aterramento, este feito com a barra de ‘cobre” pode ser substituído de maneira mais eficiente se aterrado a estrutura da residência, desde que obedecidas as normas, ele costuma exemplificar que o aterramento é algo que devemos entender com o devido cuidado, ele conta em suas palestras que os aviões, que são estruturas que recebem proporcionalmente uma quantidade grande de descargas elétricas, para se proteger, soltam um fiozinho, ao decolar, que garante o aterramento. Muita gente exclama-Verdade????. Não, claro que não, a proteção está em conectar todos os elementos a carcaça do avião e assim garantir proteção aos equipamentos e as pessoas. Panicali, com larga experiencia e referência internacional, tem alertado sobre problemas de igual gravidade, para a proteção atmosférica e interferências eletromagnéticas (volto a esta questão em outro post).

[8] Vale pena uma visita ao site do fabricante de chuveiros elétricos da Inglaterra. https://www.mirashowers.co.uk/blog/trends/revealed-what-brits-are-really-getting-up-to-in-the-bathroom-1/


MUROS E PAISAGISMO

MUROS E PAISAGISMO


“Even paradise could become a prison if one had enough time to take notice of the walls.1
Morgan Rhodes

Confesso que não sou muito apegado a nenhum dos dois. Apesar de ser arquiteto e de trabalhar num escritório que dividimos, com paisagistas de primeira, e somos amigos de grandes nomes do paisagismo da cidade (são na verdade, de nível internacional) não sou apaixonado por jardins privados (dão um trabalho danado para cuidar, e não sou chegado a este tipo de trabalho), mas reconheço sua importância fundamental na arquitetura.

Também não sou chegado a muros! Morei vários anos numa casa que não possuía muros e cuja porta para a rua ficava aberta a noite toda. A expressão do filosofo Thomas Hobbes 2, inglês do século XVII, vem bem a calhar: a trava na porta já foi um erro! Significando que a segurança deixou de ser função do estado, e passou a ser uma atitude de guerra e de desconfiança, a guerra de todos contra todos. Os muros representam uma separação incomoda entre o público e o privado, mas não é necessário um objeto físico para estabelecer esta relação.

Na recente viagem que fiz, a Portland 3 EUA, fiquei impressionado em ver uma cidade, que além de não ter muros, parece ser formada de jardineiros.
Todas as casas, com raríssimas exceções, possuem jardins muito bem cuidados e de uma beleza capaz de chamar a atenção de qualquer um, mesmo quem não goste de jardins. É a cidade mais arborizada dos Estados Unidos. E a função não é somente a beleza, mas fundamentalmente contribui para o silencio da cidade. Diferentemente da balburdia das nossas cidades, Portland se destaca pelo seu silencio incomum, ao menos para uma cidade de suas dimensões (ver post sobre o som do silêncio).

A palavra jardim, tem seu significado etimológico, de lugar cercado e guardado, muito provavelmente se refere a um local de plantas e legumes, separado para evitar acesso de animais ou pessoas. Assim jardins e muros, mantém uma irmandade semântica. Mas diferentemente dos jardins cercados que temos por aqui, em Portland eles chamam atenção por serem sem cercas. Nas ruas e avenidas se encontram casas sem muro algum, as vezes lateral, mais para demarcação e cerca de animais.

Em Campinas o primeiro condomínio 4 fechado data de final dos anos 60, feitos a partir das ideias do empreendedor Brás Soares, que lançou vários outros. Tendo recebido um folheto, numa viagem ao exterior, achou que seria uma boa ideia para Campinas. O primeiro foi aprovado em 1974, possuía apenas 74 lotes mas muito provavelmente seu projeto data de final dos anos 60. Ele se juntou a um grupo de médicos e empresários e lançou o Sítios de Recreio Gramado(conhecido mais como Chácaras Gramado) e posteriormente Alto da Nova Campinas entre outros. A ideia inicialmente do Chácaras Gramados era um local sem muros, a ideia funcionou durante os anos iniciais e acabou por se perder, hoje praticamente todo o condomínio é resguardado pelos muros que o cercam as residências e guardam seu jardim com um portentoso e por vezes intransponível muro.

O Brasil não é um país em que a tarefa de jardinagem seja ocupada pelo proprietário. Em geral, face a disponibilidade de mão de obra barata (nem tão barata assim, o trabalho de jardinagem de um terreno de 350 m², incluindo a residência, pode custar até 300 R$ por dia), o trabalho fica a cargo de jardineiros, cujo desconhecimento, em muitas das vezes, se resumem a cortar a grama e aparar as folhagem.

Diferentemente de Portland parece que a cidade inteira é constituída por habilidosos jardineiros, ciente e conhecedores de cada planta e arbusto. A ausência do muro possibilita ao compartilhamento de cada jardim, contribuindo para a sensação de beleza da cidade.

residência Juliana e James Peterman

A ideia de muro, ou de demarcação de propriedade data da introdução da agricultura, 10.000 anos atrás, e visava a demarcação de propriedade e áreas de cultivo e pastoreio. É a instituição da propriedade privada. Nos estados Unidos é fácil encontrar a placa “Não transpasse, propriedade privada”, com a anuência da lei violações desta regra permitem ao proprietário atirar em quem ultrapasse. Um infeliz presidente parece crer nisto e tenta transplantar esta nefasta ideia.
Os muros impedem a visão dos jardins, assim a beleza destes não é vista. Existem estudos que comprovam que casas com muros são mais sujeitas a assalto do que as que não tem contrariando o senso comum. Inclusive há um estudo 6 indicando que locais onde o porte de arma é livre, há uma chance maior de roubos:

“Owning one or more firearms may make you feel secure against a burglary threat, but the reality is very different.
A study published by the National Bureau of Economic Research has shown that burglary rates tend to increase when more homeowners in a particular community own guns.”7

Assim como alerta vale lembrar que armas não garantem um segurança maior. Bom, a bem da verdade nem muros nem condomínios fechados. Nos últimos anos vimos uma serie de assaltos, contrariando a pretensa segurança. Isso somente fez uma indústria de segurança ganhar mais, sem que seus resultados sejam uma garantia de uma vida melhor. Em princípio, condomínios deveriam ser locais mais calmos para se viver. A busca não seria só por segurança, mas uma maior tranquilidade e a possibilidade das crianças voltarem as ruas.

Em Portland é interessante ver um grande número de condomínios e existem até com muros, mais na sua grande maioria estão abertos junto ao estacionamento. Projetos semelhantes aos de Pequenas Vilas, aqui em Campinas, vê-se aos montes. Diferentes formatos de habitação são encontrados, como estúdios, 1, 2 e dormitórios em configurações um pouco diferentes da nossa, que em geral estão em um mesmo edifício. E não segregados como os nossos, onde cada edifício possuiu quase que sempre uma mesma configuração.

É provável que a partir de agora possamos ver estas novas configurações 8 em edifícios que estejam surgindo.

Mas é interessante observar que fora dos condomínios nossas residências tenham pouco cuidados ao jardim. Eu mesmo, morei numa casa, onde o proprietário retirou o jardim, e cimentou a área – só dava trabalho. Foi a sua justificativa.

Os jardins sem sombra de dúvida humanizam e embelezam o espaço público e melhoram nossas residências. A retirada dos muros melhoraria a segurança e o convívio com as pessoas.


REFERÊNCIAS

1. “Até o paraíso pode se tornar uma prisão se alguém tiver tempo suficiente para notar os muros.” Morgan Rhodes escritora de livros de fantasia.

2. Thomas Hobbes filosofo inglês autor de “O Leviatã” obra que fala sobre a relação dos cidadãos, seus contratos sociais e o estado.

3. A cidade de Portland, capital do Estado de Oregon, noroeste dos EUA, tem 639.000 habitantes, a zona metropolitana por volta de 2.000.000 de habitantes

4. Ver aqui: http://www.campinas.sp.gov.br/governo/seplama/planos-locais-de-gestao/doc/cadmz8.pdf

5. Sítios de Recreio Gramado, a denominação se deve a dois fatores, o primeiro é que não havia uma legislação específica para condomínios, a segunda é que o parcelamento de solo em áreas de 5.000 metros quadrados era para chácaras.

6. Veja aqui: https://www.creditdonkey.com/why-burglars.html

7. “Possuir uma ou mais armas pode fazer você se sentir mais segura diante as ameaças de roubo, mas a realidade é ao contrário.
Um estudo publicado pelo Escritório Nacional de Pesquisa Econômica mostrou que os índices de roubos tendem a ser mais altos quando proprietários de uma comunidade possuem armas. Ver item 6, razão 19.

8. Posso estar errado, mas creio que o primeiro edifício com diferentes configurações, só surgiu em 2018, com o edifício da MaxHaus, que combina uma planta básica de 70 m² com diversas possibilidades de 1 a 4 dormitórios.


SOM DO SILÊNCIO

O SOM DO SILÊNCIO


“When I pronounce the word Future,

the first syllable already belongs to the past.

When I pronounce the word Silence,

I destroy it.”1

Wisława Szymborska

Uma coisa fácil de se notar e que vivemos numa sociedade extremamente barulhenta; carros, cães, ônibus, vento, chuva, pessoas falando e ruídos de fundo. Tudo isto faz da cidade um inferno sonoro.

Mas em primeiro lugar uma coisa precisa ficar clara, não existe silencio!

Nossa condição humana não permite que fiquemos sem ouvir sons (excluindo os casos de surdez). Nossa constituição mantem a audição sempre em alerta. Se você entrar numa câmara anecoica , você começará ouvir seus ruídos, coração, pulsação, movimentos peristálticos enfim todos os ruídos que fazemos, mas nosso seletivo ouvido não retém.

Em geral consideramos que o nível de 40-50 decibéis como silencioso, mas efetivamente não e, ouve-se sussurros e baixos ruídos. Isso se deve a uma labilidade moderna, considerando que não podemos viver sem um nível de barulho.

Sussurro 20 dB
Conversa normal 50 dB
Liquidificador 85 dB
Ipod 115 dB
Avião durante a decolagem ou um trio elétrico 130-140 dB
Importante: O limiar da dor está em 120 decibéis.

Nosso ouvido ouve dentro de um limite de 20 a 20.000 Hz. Que é uma faixa pequena se compararmos com os cães, que em geral ouvem até os 40.000 Hz. Ouvem o que nós não podemos ouvir. Aqueles apitos silenciosos que treinadores usam, por exemplo.

Mas as arquitetas(os) dão pouco valor ao silencio!
O uso de proteção adequada nas casas, ambientes de trabalho e principalmente em bares e restaurantes e quase inexistente. Não é raro o proprietário de um bar ou restaurante gastar um milhão na feitura de bar e se recusar a gastar 10 ou 20 mil na proteção acústica.

Níveis de ruído acima do indicado, reduzem a capacidade de trabalho a razão de 20%, por hora!!! Ou seja, 5 horas de exposição ao ruído a produtividade tende a cair a zero! Como os departamentos de recursos humanos tratam isso ou não e se tratam não se sabe.

Estudos mostram que pessoas sujeitas a exposição de ruídos altos e contínuos e perda de audição tem mais chances de sofrer ataques cardíacos do que as outras pessoas. Nos ambientes de trabalho os efeitos são mais dramáticos pois nem sempre a solução está ao alcance. Ar condicionado, impressoras, pessoas falando, ruídos externos e de fundo e soluções inadequadas de acústica pioram em muito as condições de produtividade. Mas o ruído muitas das vezes e visto como uma coisa natural advinda da neutralidade do edifício. O ambiente nunca é neutro e sempre há consequências para as pessoas. Nós arquitetas(os) deveríamos dar uma atenção muito maior a fim de garantir um ambiente menos ruidoso e mais saudável.

Nossas casas e apartamentos não possuem proteção adequada ao avanço dos ruídos, cada vez maiores nas nossas cidades. Enquanto na Europa e EUA, se utilizam isoladores e vidros até quádruplos no Brasil nenhum investidor ou construtor está muito preocupado com isto. Nossas residências e nossa qualidade de vida ganhariam muito e numa situação em que projetássemos com maior rigor estas questões.

Uma das prováveis razoes para a rejeição ao dry-wall pode estar na falha de não termos paredes que sejam acusticamente eficientes. Isto não se deve a defeitos de material, mas sim a nossa incompetência em providenciar as devidas proteções. Som é como água penetra por todos locais possíveis. Quando olhamos o que é feito no exterior podemos ver que todos os fechamentos estão vedados, portanto, o som não escapa. No caso do Brasil se deve a desconhecimento e uma certa laxidão com os detalhes.

Uma coisa notável, nos EUA, pelo menos aqui em Portland, onde estou em visita, é o silencio nos locais públicos e no trânsito. Ao entrar num restaurante, grandes lojas em shopping uma coisa chama a atenção é a falta de barulho. Você caminha entre as diferentes áreas do supermercado, mesmo com música ambiente, o ambiente e silencioso.

Eventualmente o de ser também um aspecto cultural, sempre que você ouve pessoas falando um pouco mais alto são ou brasileiros ou latinos (mexicanos, colombianos, equatorianos etc.). Nós falamos mais alto e somos mais agitados.
Nas ruas e outro aspecto digno de nota, o quão silencioso é. Não se ouvem buzinas, brecadas ou arrancadas. Raro alguém brigar no trânsito, mas acima de tudo chama a atenção o silencio. Carros silenciosos, caminhões que deslizam sem o menos ruído, motos de grande potência que passam ronronando ao seu lado, e capaz de chamar a atenção de qualquer.

Uma coisa que deveríamos ter no asfalto(voltaremos a este assunto num post futuro) e a adição de borracha de pneus, o que representaria uma solução para montanha de pneus descartados a cada ano e ainda diminuiriam em muito o ruído da estrada, seja para os motoristas seja para quem vive nas cercanias das autoestradas. Em reportagem no site G1 informa que no “sistema Anchieta-Imigrantes, 88 km já estão cobertos com o asfalto borracha, e 360 mil pneus velhos foram reaproveitados desse jeito. O asfalto borracha é 30% mais caro que o comum, mas as vantagens compensam”. A viagem se torna mais silenciosa, mais segura, uma vez que o spray de água dos pneus e reduzido. Isto produziria não só uma rodovia mais silenciosa, mas uma cidade mais silenciosa.


REFERÊNCIAS

1 Brincadeira com a placa, colocou um adesivo no local de perigo e a leitura ficou assim:Não buzine, a não ser com raiva.

2 Uma câmara anecoica (sem eco) é uma sala projetada para conter reflexões, tanto de ondas sonoras quanto eletromagnéticas. Elas também são isoladas de fontes externas de ruído.


VIAGENS

VIAGEM


“The real voyage of discovery consists not in seeking new landscapes, but in having new eyes.”1

Marcel Proust

“A verdadeira viagem de descobertas não consiste em buscar novas paisagens, mas em ter novos olhos”. Escritor francês, século início século XX, autor do livro “Em busca do tempo perdido”

Viajar é uma palavra cuja origem do latim significa via, caminho e estrada. É uma coisa da qual só temos uma certeza: quem vai não é o mesmo que volta.

Estes próximos post serão em função da viagem que fiz a Portland, onde vive minha filha Juliana, casada com James, americano.

A ideia é contar a partir da experiencia de olhar esta cidade tão longe da minha cidade, Campinas e comparar (como se fosse possível!) as duas cidades em buscas de não novos lugares, como diz Proust, mas um novo olhar sobre a cidade. Um olhar não de um turista normal, pois vivi como minha filha vive, ou seja, durante 15 dias pude ser um pouco local, e ver com um olhar um pouco mais acurado a cidade em que ela vive e trabalha e ver as diferenças com as quais convivo diariamente.

Não é um trabalho comparativo, não se comparam cidades que vivem sob condições absolutamente diferentes. É mais a tentativa de olhar aquilo que é bom lá, e que poderia acrescentar algo aqui. Se é que isto é possível.

Serão mais coisas de arquiteto(a) do que propriamente turistas, ou melhor de um turista arquiteto, trazendo olhares sobre as coisas que dizem respeito a nossa profissão.

Na foto abaixo podemos ver área central da cidade e ao fundo o monte Hood, que moldura a cidade. Esta área possuiu edifício de grande altura, com até 30 pavimentos, mas não são muitos e estão concentrados aqui. É possível notar o cinturão de verde que cerca o centro e deste local é possível uma vista de praticamente 360º da cidade.


É isto uma das razões que faz de Portland a cidade silenciosa que é. Uma solução simples e agradável, produz o silencio tão importante e ainda faz o sombreamento da cidade tornando-a mais confortável ainda.

Viajar é, portanto, mais que conhecer, é experenciar o lugar e ter novos olhos para o que a cidade, local ou país possam oferecer.

Transformar uma viagem de férias em uma outra viagem é aquilo que Proust parece nos dizer é abrir os olhos para o novo, o diferente e para aquilo que possa se tornar útil.

Espero que este post, agrade aqueles que por aqui passem!


REFERÊNCIAS

1 “A verdadeira viagem de descobertas não consiste em buscar novas paisagens, mas em ter novos olhos”. Escritor francês, século início século XX, autor do livro “Em busca do tempo perdido”


"POBREMA"

“POBREMA”

“O tempo para reparar o telhado é quando o sol está brilhando.”
John f. Kennedy

Quem começa assim, tem no mínimo dois. Em arquitetura também é assim, raramente temos “um” problema, em geral ele é a decorrência de tantos outros. Como a queda de avião, ele não cai por um erro, mas por uma sequência deles.

A frase do finado presidente americano, apesar da obviedade é exemplar no sentido da prevenção. Algo que não temos e nem fazemos, principalmente em relação aos telhados!

Goteiras são exatamente este caso. Aparentemente é” um” único problema do telhado. Olhado mais de perto veremos que é na verdade a soma de falhas que produzem o evento.
Temos em primeiro lugar o telhado, cujo aprendizado tem sido negligenciado pelas escolas de arquitetura. Em geral só se vê telhados planos, que são o convite ao problema.

O arquiteto1 tem se esquecido de que sua profissão significa, a palavra arquiteto ou arquiteta, é simplesmente o mestre de obra, derivado do grego. Mas não passa disso, alguém que conhece e domina a obra. Os estudantes têm pouquíssimo ou nenhum contato com a construção, não conhecendo os meandros da obra, não consegue antecipar problemas, através da recursividade2, que é uma das etapas do projeto.

O telhado tem como principal função a proteção das intempéries e as variações do tempo e do clima. Ele deve obedecer a inclinações especificas, que não devem ser as mesmas para todas as regiões climáticas do país. Locais com índices pluviométricos maiores devem ter inclinações maiores. Regiões sujeitas a ventos mais fortes devem ter inclinações e amarrações adequadas.

Vale registrar que os índices pluviométricos têm tido uma alteração, não propriamente na sua quantidade mensal, mas uma variação na intensidade. Assim o mês de junho, em Campinas, onde normalmente chove, em média 40 mm, pode chover num dia o total para um mês. Quando isto ocorre os problemas aparecem! O primeiro deles são as evitáveis goteiras, uma vez que são previsíveis e que ocorram, dado aos defeitos de nascença dos telhados.

As calhas representam aqui um outro aspecto. Dimensionadas a coletar a média de água por mês, são incapazes de dar vazão quando se ultrapassa a média e dai para o forro é um pulo. Normalmente solicitamos um aumento nas dimensões das calhas e invariavelmente ouvimos dos senhores calheiros: Doutor não precisa, é muito. Olha que eu faço isso a 40 anos! Pois é, pode ser que estejam fazendo errado a 40 anos. Temos quase que dobrado as dimensões tanto de calhas quanto de dutos.

As variações de temperatura durante o dia também não facilitam a proteção. É possível que as 6:00 h da manhã tenhamos uma temperatura de 10° graus e as 15:00 h(em geral o pico de temperatura) 34°~38° graus. Como diz o matuto da obra: aí não tem tatu que aguente!

Essas variações em larga escala produzem variações nos materiais do telhado facilitando a abertura de fendas e falhas por onde a água penetra.

O emboçamento do telhado sempre recomendado poucas vezes executado. Reduziria em muito a ação deletéria dos ventos e águas pluviais.

Os telhados planos que aparecem de forma quase totalitária nos estudantes de arquitetura tampouco representam uma solução adequada. Meu amigo, o arquiteto Otto Felix, um exímio executor de telhados plano, decerto vai me contradizer. Mas não tenho muitas esperanças que seja uma solução. Evidentemente que em alguns casos ele (o telhado) surge como a solução mais adequada e bela. Mas a minha dúvida recai sobre os impermeabilizantes. O Brasil, como já se disse, não é para amadores, as variações de temperatura aliada a altíssimos índices de UV (ultravioleta) reduzem a vida útil e tornam os impermeabilizantes quebradiços e ,portanto, sujeitos a falhas.

Todas estas patologias têm suas descrições e soluções descritas por diversos institutos3, o ruim é que acabamos por transferir o problema  aos proprietários , que passados alguns anos sem ter como resolver buscam as soluções mais a mão, o especialista em goteiras!!!

REFERÊNCIAS:


 

[1] Do grego   ἀρχι- (arkhi-, “chefe”) +‎ τέκτων (téktōn, “construtor”), na acepção correta seria o marceneiro, uma vez que grande parte da obra envolvia o domínio das estruturas em madeira. Nos dias de hoje o mestre de obra.

 

[2] Capacidade da mente humana de prever, antever e desenhar soluções mentais para o problema.

 

[3] Ver este interessante documento: http://repositorio.roca.utfpr.edu.br/jspui/bitstream/1/1873/1/CM_COECI_2012_2_03.pdf


BAÚS, ARMÁRIOS, CLOSETS E QUARTOS

BAÚS, ARMÁRIOS, CLOSETS E QUARTOS

Se você dorme num quarto, razoavelmente confortável, você tem uma dívida com a senhorinha acima, Catherine de Vivone de Savelli, uma marquesa do século XVII, que por razões especificas, inventou e criou aquilo que chamamos de quarto. Essa história do quarto vale a pena ser contada.

Aparentemente os quatro elementos, da chamada, têm pouco a ver um com o outro.

Ainda que estejam ligados pelo uso, mas ao analisarmos, com um pouco maior de profundidade, veremos uma linha evolutiva entre eles, e em certa medida os baús e armários são os avós do quarto.

Baús e armários servem para a guarda de roupas, louças e armas. E eles tiveram uma importância grande na antiguidade. Eles eram os bens móveis, ou seja, os que podiam ser movidos conforme a necessidade. No caso dos nobres eram transportados de casa para casa. Não havia roupas sobressalentes. Closet deriva do francês antigo e significa local fechado, em geral para estudo ou prece, pode ter tido origem em “cubiculum”, local de reclusão. Ele é atestado a partir do século XVII, exatamente quando surge o quarto de dormir, separado de outros cômodos.

Armários acabaram por se tornar também guarda-roupas, substituindo com vantagens o baú que guardava a roupa e as de cama também, quando estes acessórios se tornaram mais baratos e acessíveis.

A introdução de tecidos de algodão, a partir do século XVII, de origem indiana, trouxeram um conforto maior, barateamento de preços e consequentemente permitiu um acesso maior ao bem. A corte francesa em parte foi responsável pelo processo ao introduzir seu uso, a despeito do rígido ritual das vestimentas e da proibição real. Seu uso foi de roupas a estofamento, passando pelo revestimento de paredes dos quartos.

O armário era o móvel mais importante na casa burguesa, século XVII, conforme descreve o arquiteto Witold Rybczynski, em seu livro sobre a casa.

O armário servia não somente como acessório de guarda, mas também como uma exibição publica de poder e riqueza. A guarda de porcelana e sua mostra identificava a opulência de seu proprietário.

O que nós chamamos de closet eram os garde-roube, ou guarda roupa. Na França os nobres eram obrigados a um rígido cerimonial, que envolvia a utilização de roupas especificas diante do rei. Era necessário um espaço para a guarda destas vestimentas. Hoje em certa medida temos um problema desta natureza, a quantidade de roupas que possuímos extrapola em muito a capacidade dos armários que temos em casas e apartamentos. Poucos, talvez, se lembrem como eram os armários nos quartos, não faz muito tempo, como da Fig.1.

Fig.1 Antigo Guarda Roupa. Foto do autor.

A noção moderna de um quarto privado e distinto de outras partes da casa é um conceito bastante recente na história da arquitetura, algo como 370 anos, somente a partir do século XVII é que a separação compartimentada da moradia surgiu. Começou nos palácios e casa de nobres e depois se espalhou, levando lentamente a outros segmentos da população. A casa simples não possuía compartimentos era um ambiente único. E mesmo, os mais ricos os quartos eram ligados uns aos outros, assim para se atingir um determinado cômodo deveria se passar por todos outros.

Fig.2. Abraham Bosse 1633. O casamento na cidade: A visita à criança

Olhando a fig.2 podemos considerar como um quarto perfeitamente normal aos nossos olhos: mulheres visitando sua amiga com as crianças. O quarto nos parece comum com luxo evidentemente, a lareira no quarto, uma grande cama, o ambiente bem decorado, cadeiras para todas (não era comum, a não ser em casas de pessoas de posse). Mas o que vemos aí, não era comum, são as primeiras imagens de quartos que começaram a surgir a partir do século XVII, não é possível saber ali, dado o ponto de vista da perspectiva, se o quarto se abre a outros espaços, a porta entreaberta parece indicar a um corredor ou galeria, as dimensões do quarto parecem ser reduzidas, face ao que era usual nas grandes casas.

O quarto era até o século XVII um ambiente público, não tinha a característica privada que possui hoje. Era local de visitação, conversa e refeições (a sala de jantar não estava ainda estabelecida claramente). Em 1630 uma mulher chamada Catherine de Vivone de Savelli, a Marquesa de Rambouillet, que sofrendo as agruras de um frio congelante na sua “chambre”, enorme e mal aquecida, transformou seu “garde-roube” (um closet, em termos modernos) num quarto privado, o que era incomum. Portanto aí se encontra a origem do nosso quarto de dormir e de outros pequenos afazeres.

 

REFERÊNCIAS:

[1] A etimologia pode nos levar a lugares errados, entretanto a base de armário, contém arma e é um derivado correto, podendo ser local de guarda de armas ou de roupas de guerra. Sua utilização se consolidou como guarda de louça e roupas.

 

[2] A filha de Luís XIV, Louise-Françoise de Bourbon, mais conhecida como Madame la Duchesse era uma apaixonada pela modernidade e a despeito da proibição de seu pai, ao algodão, utilizou e divulgou este tecido pela corte francesa.

 

[3] A expressão robe de chambre, em português roupão e que seria simplesmente roupa para se usar no quarto, passou a ser utilizando em todos os ambientes quando o algodão se tornou acessível. Os vestidos e roupas de algodão, eram usadas inicialmente somente no ambiente íntimo.

 

[4] Para um aprofundamento: DEJEAN, Joan. O século do Conforto quando os franceses descobriram o casual e criam o lar moderno. Civilização Brasileira. Rio de Janeiro. 2012.

 

[5] No filme Vatel: Um banquete para o Rei, de Ronald Jeffé. É possível ver como eram esses cômodos, antes da introdução das galerias que permitiam o acesso a quartos específicos sem se passar por todos os outros. É uma criação francesa e a palavra “galeria” como local de exposição de arte, é muito pertinente, pois seu criador o fez com duplo intuito expor sua grande coleção e possibilitar a circulação em separado.

 

[6] RYBCZYNSKI Witold. Pronuncia-se “Vitold Rubchesqui”. Arquiteto e escritor inglês. Escreveu inúmeras obras importantes, destacando-se “Casa: História de uma pequena ideia”, obra essencial a quem se interessa pela história da arquitetura e deveria ser obrigatória nas faculdades de Arquitetura.

 

[7] A porcelana até o século XVIII era importada da china e tinha altíssimos valores. A partir do trabalho de Johann Frederick Böttger, que descobriu o processo de fabricação foi possível sua fabricação na Europa, para mais ver o livro: GLEESON, Janet. O Arcano. Rocco Editora. Rio de Janeiro. 2012.

 

[8] É possível que este frio já fosse um sinal da pequena idade do gelo que atingiu a Europa no século XVII.