ARQUITETA(O) ESTE DESCONHECIDO

ARQUITETA(O)¹ ESTE DESCONHECIDO

“A celebridade é uma contradição. Parecendo que dá valor e força às criaturas, apenas as desvaloriza e enfraquece.”
― Fernando Pessoa

Faça um pequeno exercício ao ler os jornais, tente encontrar o autor dos projetos apresentados como maravilhas do século XXI. Somente aqueles estrelados escritórios e profissionais terão gravados seus nomes nos jornais que amanhã embalarão os peixes na feira.
Ao olhar as páginas dos jornais e vendo centenas de anúncios (nos últimos anos tenho feito este exercício. Leio dois jornais por dia), em 99% dos casos estão citados empreendedores, corretores, investidores, construtores as vezes a paisagista(o) e ou a decoradora(o) mais raramente os arquitetos.
Não sou adepto do “celebrismo” que ataca, como praga, arquitetas(os) e decoradoras(es), mas também não vejo com bons olhos, esse desprezo de quem produz um bem importante para a cidade. A busca pelo reconhecimento se dá de forma inadequada e inconsequente.
Quando dou aulas, procuro alertar meus alunos da efemeridade da obra de arquitetura, quase sempre anônima, mas que sempre impõe efeitos (positivos e as vezes negativos) onde está implantada. Procuro dizer que poucos chegarão à fama, e que grande parte do nosso trabalho sequer é notado, ou valorizado.
A partir do renascimento, no século XV, quando a noção de autoria surgiu, arquitetos e artistas procuraram valorizar seu trabalho, impondo seu nome como uma marca de qualidade, distinção (no sentido de ser diferente de outros) e indicativo de que aquele trabalho lhe pertencia.
A autoria passou a ser um aspecto importante da profissão, tanto que existem leis que regem a autoria do projeto e conferem certos poderes aos seus detentores. Essa propriedade do projeto, é exclusiva dos profissionais de arquitetura. Mas nela não está embutida o reconhecimento social do seu trabalho. Indica quem quer. Ainda que, em Campinas e São Paulo, se não me falha a memória, haja uma lei obrigando a identificação dos autores do projeto, nas publicidades de jornal e revistas. Mais uma lei que não pegou!!!
O que acontece hoje, é que o trabalho do arquiteto, em geral, é menosprezado, desvalorizado e rebaixado. São vários os fatores para que isto aconteça, desde os próprios profissionais, que em desespero, se submetem a condições inadequadas e escorchantes, sejam as concorrências desleais, seja através dos construtores que veem nos profissionais apenas um meio para atingir seu objetivo maior, que é a venda. Não é por outra razão que os percentuais sobre a venda de imóveis são absolutamente superiores aos recebidos por arquitetas(os).
Isto tem provocado distorções no mercado imobiliário que consulta corretores² , onde eles passam a opinar sobre o que deve ser construído ou não. Não são as melhores fontes. É o paradoxo do Tostines: Vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais. Com isto temos uma “pasteurização” ou “homogeneização” dos produtos ofertados. Não que necessariamente seja o arquiteto a ser consultado. Na maioria dos casos ele também não vê corretamente a evolução do mercado. É preciso olhar com outros olhos. E isto significa um custo que empreendedores não gostam de pagar.
Investigar, conhecer, prever, antever são ferramentas para perscrutar o mercado. E quem é o mercado? Quem é o cliente? O que eles desejam? Três ou quatro, ou nenhum quarto? Precisa de vaga de garagem? Área de serviço? São perguntas que deveriam ser respondidas por quem estuda o mercado, e não somente por quem trabalha com o mercado.
As transformações tem sido aceleradas, vertiginosas e disruptivas, assim cada vez mais é preciso olhar com atenção a evolução da tecnologia, meios de trabalho as relações sociais e afetivas e como isto impacta a vida de cada um. Só assim será possível produzir melhor e adequadamente. E assim o autor poderá ser reconhecido pelo trabalho que faz.
A arquitetura é um bem social e poucos se dão conta disto. A cidade é em parte fruto do trabalho destes profissionais e de muitos profissionais que merecem o reconhecimento.

¹A questão de gênero tem se imposto de maneira bastante forte, inclusive em questões sérias. Particularmente, preferiria que houvesse o neutro na nossa língua. Mas não há. Normalmente o gênero masculino vem primeiro seguido do feminino. Acho que o correto deveria ser o contrário. As mulheres são exploradas, oprimidas e ganham diferencialmente. Em 1983, portanto a 36 anos, ao fazer o cartão de minha sócia, grafei arquiteta, não era utilizado, e provocou estranhamento. O usual era utilizar o masculino arquiteto para mulheres.

² Não tenho nada contra corretores, fazem parte da minha família. tenho orgulho de meu sogro ter sido um corretor visionário, que introduziu o conceito de condomínios em Campinas e meus cunhados que desempenharam e desempenham importantes atividades na área. Mas uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.


ARQUITETURA DE M*RDA PARTE 2

ARQUITETURA DE M*RDA PARTE 2

As cidades medievais eram imundas, sujas e fedorentas, e segundo a expressão de São Bernardo: onde todo mundo fede, ninguém cheira mal.

Toda espécie de imundices estava jogada nas ruas e vielas. Mesmo dentro das casas na sua maioria, não haviam pisos, portanto, escarros, cuspe e restos de comida, quando não o número 1 ficavam espalhados pelos cantos.
Lembrando aqui que os utensílios domésticos eram móveis, portanto camas e banheiros eram transportados nas viagens de reis e nobres.

Quando surge o quarto, por volta de 1660, ou seja, em pleno século XVII, um espaço privado (chamado de petit appartment) e o quarto de banho aparecem, como necessidade e intenção de restringir uma atividade que em geral era pública. É bom lembrar que Versalhes com seus 700 quartos não contava com um só banheiro, no sentido moderno (ressalte-se que havia salle de bain, mas não possuíam privadas nem esgoto).

Por volta do século XVII, surgem, para a alta classe e monarcas as primeiras privadas portáteis. Luís XIV possuía várias e sua utilização era pública e sinal de prestígios para aqueles que assistiam o rei fazer suas necessidades. Seu uso iria se multiplicar com os nobres e burgueses querendo este moderno equipamento.

Começa surgir na sociedade uma noção mais clara entre o público e o privado, fazendo com que certas atividades, antes públicas, passem a serem realizados no privado. No excepcional filme Vatel – Um Banquete para o Rei tem uma cena onde o rei é acompanhado por um séquito, fazendo suas necessidades.

O número 1 era feito em qualquer lugar, pelos cantos do palácio. O número 2 era feito em pinicos e jogados ao jardim. Por que vocês acham que Versalhes tinha e tem jardim fantásticos????

O avanço da ciência e novas descobertas eliminaram o conceito de miasma (de que as doenças vinham pelo ar) e se passou a enxergar de maneira cientifica e metodológica os problemas de higiene.
Os sanitários e banheiros ficavam normalmente separados, até hoje é possível ver esta separação em apartamentos franceses e americanos. No caso brasileiro, no início estavam separados, mas na sua inserção no interior das residências já se fez a unificação.

O século XIX verá surgir as novas atitudes higienistas, vindas a partir da Alemanha irá se estender por toda Europa e o mundo. A Inglaterra irá iniciar a instalação de esgotos em Londres depois do terrível ano 1858, quando a sessão do parlamento teve que se fechado, por conta do cheiro fétido do esgoto jogado no rio Tamisa.

Esta onda higienista fará diversos países investirem em redes de esgotos de grandes capacidades. Londres, Munique, Paris e Rio de Janeiro passam a contar com uma rede de escoamento de esgoto, o que rapidamente trará os sanitários para dar maior conforto, próximo ou mesmo dentro de casa.
Uma revolução sanitária coloca o mundo na trilha correta e milhões de mortes são evitadas, embora ainda que hoje, por falta de saneamento, continue a trazer a tragédia a diferentes países.

No século XXI, mudanças de grandes dimensões começam a ocorrer nos banheiros, é depois da cozinha a área da casa a receber maiores impactos tecnológicos e inovações.

O conceito meramente sanitário se expandiu e a noção de bem-estar é cada vez mais presente. O banheiro passa a ser um “spa” doméstico.
A palavra SPA, um topônimo, vem da cidade de Spa, próxima a Liége, Bélgica. É uma cidade conhecida desde a antiguidade por suas águas termais e curativas. Aquae Spadanae, denominação possivelmente relacionada com “spargere” (em latim, ‘lançar aqui e ali, espalhar’ (gotículas)Existe uma falsa etimologia, que sugere que Spa significaria Sanitas per Aquam, não existe fundamento etimológico para isto.
Existe na Inglaterra uma cidade com o nome de Bath, uma antiga dominação romana, famosa por suas construções de banhos públicos e águas termais também.

A vida moderna com suas inúmeras interações pede que haja um momento de repouso no retorno ao lar. Já há alguns anos que a casa vem se modificando e se fundindo. A cozinha se fundiu com a sala, desapareceu a sala de visitas, e o quarto, uma invenção recente (1660) se mesclou com o banheiro. O cômodo que até pouco ficava fora da casa, está ao lado da área de repouso.

Bacias com capacidade de análise médicas e com conexão com a internet lançam informações sob o estado de saúde seus usuários. Os chuveiros vêm dotados de diferentes pressões e chegam a ter iluminação de led para as terapias de cromoterapia. Sistemas de aquecimento, seja solar ou promovido por células fotovoltaicas (para a eletrificação, bombas pressurizadoras e sistemas computacionais) elevam a qualidade do banho a níveis nunca vistos. A introdução em breve de pisos, com capacidade de armazenamento de dados, como peso, controle de temperatura e muito mais, estarão em breve no mercado. Utilização de banheiras, a partir da utilização de resinas, modificou as antigas e pesadas banheiras de ferro. Mecanismos de pressão e jatos d’água transformam a simples limpeza do corpo, num verdadeiro tratamento de saúde.

Vale a pena conhecer algumas das novidades que estarão presentes nos banheiros em breve:


https://nebia.com/pages/nebia-products
https://evadrop.com
https://skarptechnologies.com/https://www.us.kohler.com/us/Kohler-Introduces-Voice-Command-Technology-Into-The-Bathroom,-Announces-New-Smart-Home-Products-With-%E2%80%98KOHLER-Konnect%E2%80%99/content/CNT131200001.htm

https://www.electricmirror.com/mirror-tv-glass/


UMA ARQUITETURA DE M*RDA PARTE I

UMA ARQUITETURA DE M*RDA

O conforto para nossas necessidades fisiológicas só encontrou lugar muito recentemente, nos nossos banheiros modernos.
O banheiro tem uma longa história, mas grande parte dele fora de casa.
No caso brasileiro principalmente o banheiro entrou muito recentemente em nossas casas. Foi somente a partir do século XX, que este espaço passou a fazer parte do corpo da residência.

Quando nos abandonamos a caça e coleta a 12.000 anos atrás a necessidade de se segregar esta atividade surgiu. Mas não a palavra!
Caçadores-coletores caminham em média 12km por dia, suas necessidades são feitas ao longo do caminho e não há necessidade de um espaço físico para isso. Nem a palavra também.
A fixação dos humanos em determinados locais, fruto da agricultura, não trouxe, ao contrário do que se pensa, vantagens iniciais, para aqueles que a adotaram. A proximidade dos dejetos contaminou a água e trouxe doenças. Ao cabo de alguns milênios os primeiros agricultores chegaram a diminuir 10 centímetros em sua estatura. Fruto da monocultura e do déficit alimentar e de doenças dizimantes.

A primeira coisa a ressaltar o tabu linguístico que envolve a palavra. Tabu linguístico é quando evitamos pronunciar uma palavra, seja por conta da moral, proibições, medos e superstições, e a substituímos por outra, número 1 e número 2 por exemplo.
No caso do banheiro, local para tomar banho, evita-se dizer as outras atividades ali desempenhadas por mero recato de se explicitar o que acontece lá dentro.

Etimologicamente banheiro é o local do banho. Em praticamente todas as línguas o tabu se repete. Water closet, restroom, salle de bain, hammam, Badezimmer, sempre se referem ao banho.

As palavras em português retrete e mesmo latrina se referem a um espaço restrito, mas não diretamente a função de evacuar (um dos sentidos de lav- latino é escoadouro). A razão para não haver ou haver referência, é que o banheiro não era conhecido na antiguidade como nós os utilizamos agora.
Quando analisamos o período greco-romano não encontramos o banheiro inserido dentro das habitações, simplesmente não havia um local como nossos banheiros. A exemplo dos tigres1 brasileiros existiam os επιστάτες κοπρώνων (epistátes koprónon, os cuidadores de excrementos). Provavelmente recebiam dinheiro para retirar os dejetos das casas e o revendiam para fazendeiros para a produção de fertilizantes.
Palácios e residências dos poderosos podiam contar com sistemas de esgoto e drenagem, mas isto era inacessível a maioria da população. Existem referências de 3000 AEC2 em Knossos, Creta de sistemas de descargas com água em fluxo.

Os gregos não possuíam uma palavra específica para banheiro, aliás nem havia na casa um local exato para isto. A palavra τουαλέτα (toualéta) é um empréstimo do francês.

No período romano, foi desenvolvido um amplo sistema de fornecimento de água, através dos aquedutos e a construção de locais para o despejo de dejetos humanos, a Cloaca Máxima. Os romanos possuíam os banhos públicos, que forneciam local para o asseio do corpo, conversas e privadas. A figura abaixo mostra a razão da conversa ter entrado no meio da história. Os romanos levaram aos mais distantes rincões do império suas técnicas, ciência e conhecimentos com a água.

Os romanos não tinham em casa, banheiros. Eles em geral iam aos banhos públicos. Era uma atividade além de higiênica, social. Se conversava enquanto de desempenhavam as atividades, digamos primarias.

 

PRIVADAS PÚBLICAS ROMANAS

 

Um outro fato curioso entre os romanos, é que havia coleta e compra de urina. Utilizada na limpeza das roupas!!!(por conta das qualidades da ureia) e sua utilização no tingimento e fixação de cor nos tecidos.

O judaísmo, tem uma forma de utilização dos banhos como forma de purificação: mikveh. A imersão em água seja para a conversão, rituais de purificação. O banho é um aspecto ritualístico da religião.

Na religião católica não há um rito sobre o banho, a não ser o batismo. A religião não desenvolveu um processo ritualístico que envolvesse o banho ou que tivesse outros aspectos ligados a higiene.

Os árabes irão receber esta influência e junto com os ensinamentos do islã iram estabelecer regras restritas de limpeza. A prece, um dos pilares do islamismo, obriga seus praticantes a se lavarem antes das 5 preces diárias. A partir das cruzadas eles influenciaram o ocidente com o retorno dos banhos públicos que haviam desaparecido após a queda do Império Romano.

Eles seguem rigorosos preceitos do Wudu, que indica como e que partes devem ser lavadas antes das preces. Isto envolve não so as partes visíveis do corpo, bem como as íntimas.

(continua…)

1. Escravos que no Brasil, transportavam toneis de excrementos para serem jogados no rio ou mar.

2. AEC e EC Antes da Era Comum e Era Comum, é utilizado pela comunidade cientifica e é mais inclusivo do que AC e DC.


A ARQUITETURA DO LIXO

A ARQUITETURA DO LIXO

 

Nós somos produtores de uma quantidade enorme de lixo. Em média 383 quilos por pessoa por ano. Ou aproximadamente 1 quilo por dia. Para uma cidade como Campinas é uma montanha de lixo todos o santo dia!

O lixo sempre representou um problema mal resolvido pela civilização. Os romanos, em 200 EC já havia um serviço que se assemelhava ao que hoje temos como os lixeiros. A nossa palavra lixo é de origem etimológica controversa e obscura, teria se originado através da palavra lixívia, um produto desinfetante, na antiguidade produzido a partir das cinzas e soda cáustica, hoje aqui conhecido como águia sanitária.

O lixo é uma forma de descarte de material que sempre foi problemática nos agrupamentos humanos. A imagem de inferno como um local com fogo e cheirando a enxofre se deve ao lixão de Jerusalém, mais conhecido Geh Ben-Hinom ou literalmente “Vale do Filho de Hinom” que  é um vale em torno da Cidade Antiga de Jerusalém, e que veio a tornar-se um depósito onde o lixo, animais mortos e os corpos de crucificados(sim, ele pode ter sido jogado lá!) eram incinerados. O enxofre alimentava um fogo perpétuo no local.

O lixo até o século XIX era jogado diretamente nas ruas e calçadas. A expressão de alerta: água vai! Era o único aviso de que mijo estava sendo jogado, quando não coisa pior.

Somente a partir de 1875 se tornou público o serviço de coleta de lixo, na Inglaterra.

No Brasil durante muitos anos, um serviço infame, era conhecido como “tigres”, escravos que carregavam tonéis cheios de estrume humano, estes vazavam e manchavam os corpos, daí o apelido. Mas o lixo como restos de alimentos e descartes eram jogados nas ruas.

Em 1876 poder-se-ia dizer a data da implantação do serviço de limpeza pública no Brasil, através da contratação de uma empresa privada para a execução do serviço, a empresa de Aleixo Gary (sim, a palavra gari é derivada do nome dele), isto no Rio de Janeiro.

Se olharmos o outro lado do mundo, veremos o Japão, como uma outra forma de encarar o lixo. Lá a responsabilidade pelo lixo é total para os moradores. Ou seja, você deve dar cabo de seu lixo, e colocá-los corretamente nas latas de lixo correta, ou corre o risco de ver seu lixo devolvido. O caminhão de lixo, pode passar semanalmente, quinzenalmente, mensalmente ou até anualmente, de acordo com o tipo de lixo disposto. Todo cidadão tem um manual de lixo. O manual tem só 42 páginas!

A partir das preocupações higienistas do século XIX este panorama vem se alterando lentamente. E somente a partir das preocupações ecológicos, já nos anos 60 do século XX, é que o lixo começa a ser encarado nas suas verdadeiras dimensões.

A arquitetura ainda não enfrentou este problema de cara. Não possuímos uma solução adequada dentro de casa para a eliminação e descarte da enorme quantidade de lixo que geramos. A separação de tipologia de lixo, o reaproveitamento e reciclagem são extremamente baixos.

É evidente que um trabalho de mudança de hábitos e educação ambiental é fundamental, mas este não é um problema específico para a arquitetura.

As soluções que surgem em geral são exógenas, ou seja, vem de fora da residência, aí seria interessante criar um novo espaço “usina de lixo” ou “área de lixo” fazendo um paralelo com a área de serviço[1]. Uma área destinada ao tratamento do lixo que produzimos. Este espaço poderia separar de maneira eficiente o lixo, reciclar, produzir compostagem enfim processar o lixo de maneira mais eficiente.

Fig.1 Triturador da Insinkerator (produto disponível no Brasil)

Hoje existem equipamentos que podem auxiliar de forma eficiente o tratamento do lixo em casa. O primeiro são os trituradores, que moem parte do lixo orgânico e facilitam e diminuem os trabalhos de limpeza do esgoto. Seu uso massivo traria enormes benefícios aos serviços de tratamento de efluentes e esgotos.  Eles são 70% água e seu consumo é baixo. Diminuem a produção de metano, evitando que grande parte do lixo orgânico chegue aos lixões. Deveriam ser obrigatórios nas residências a partir de um certo porte, e subvencionadas a aqueles que não podem pagar. O financiamento viria dos recursos economizados com os serviços de lixo.

A compostagem caseira, é de fácil construção, um balde furado e pedrisco areia e folhas. Uma sofisticação desse equipamento pode ser vista na fig2. É um produto[2] que os americanos desenvolveram e seu uso tem crescido nos últimos anos. Diversas inovações tem surgido com a crescente preocupação com o lixo.

Fig.2 The FoodCycler FC-30

fig.3 Zera, máquina de compostagem, da Whirlpool

Os produtos são desenvolvidos por grandes corporações e por pequenas e inventivas. Com a utilização de ingredientes ou não. Os arquitetos deverão em breve prever estes equipamentos nas cozinhas. As cozinhas são o espaço da casa que mais tecnologia tem recebido. E pouca atenção tem sido dada, uma vez que tudo é eletrificado, os arquitetos tem poucas preocupações com pontos de energia e dados nas cozinhas. A colocação de roteadores sobre as portas de cozinhas se tornara mandatório em pouco tempo.

 

 

 

 

 

 

[1] A área de serviço guarda este nome em função não ao serviço, mas a serviçal que executava ali seus trabalhos. A verdadeira área de serviço é a casa toda, que demanda trabalhos de limpeza e manutenção.

[2] Para ver mais aqui https://www.youtube.com/watch?v=DdJSBZn3ehU e aqui: https://www.youtube.com/watch?v=1MpM8fq73G8 e aqui: www.insinkerator.com


ARQUITETURA SEM EIRA NEM BEIRA

ARQUITETURA SEM EIRA NEM BEIRA

A sabedoria popular diz que alguém sem eira nem beira é alguém que não tem nada, alguém sem lugar para morar, um sem teto, enfim alguém que não tem onde cair morto.
Eira e beira se referem a elementos da casa e do telhado. Eira significa um espaço de terra batida, lajeada ou cimentada, próximo às casas, e o beiral é a parte do telhado que sombreia e protege as paredes.
A arquitetura ultimamente anda sem eira nem beira. Estamos descuidados com pequenos detalhes da arquitetura e de certa forma somos os responsáveis pelos inúmeros erros que tem ocorrido com indesejável frequência nas obras.
Numa visita a um imóvel vi algo que deveria estarrecer qualquer arquiteto ou arquiteta: um telhado de telhado. Sim você leu corretamente, um telhado para proteger o telhado. Como se sabe a inteligência tem limite a burrice não. O imóvel apresentou, logo depois de entregue, diversos vazamentos em razão das chuvas. A solução encontrada pelos engenheiros da obra foi fazer um novo telhado. Temo em dizer que não vai dar certo!
A razão é simples, estão atacando o sintoma e não a doença!
Há muitos anos tive a oportunidade de assistir uma palestra sobre telhados de cobre, de um velhinho, um arquiteto chamado Roberto Leme (não o nosso Robertão Leme, um homônimo), ele me chamou para almoçar. Durante a conversa ele me falou da tristeza em ver que os novos arquitetos estavam desaprendendo a fazer telhados e que somente sabiam fazer telhados planos pela simples razão que ninguém mais ensinava a arte de fazer telhados (sim, existe uma arte em fazer telhados!). O que é uma verdade até hoje. Raros sabem fazer um bom telhado.
Vivemos tempos de drásticas mudanças climáticas (somente os cretinos fundamentais não veem!) A inclemência do tempo tem sido notável, entretanto arquitetos, empreiteiros e construtores não se deram conta.
Dentre minhas incontáveis manias está a de acompanhar o tempo. Temperatura, vento e pluviosidade me interessam. Tenho observado e graças a uma informação do meu amigo Breno Pereira, pude confirmar que as médias mensais de chuva pouco variam, uns tantos milímetros a mais aqui ou a menos ali. O problema surge quando as precipitações se acumulam em poucas horas impossibilitando seu devido escoamento. O que está acontecendo é isto, mudou a quantidade precipitada por hora. Aquilo que caia num mês pode cair em horas. Portanto as condições de escoamento devem ser revistas.
Já tem um tempo que aqui no escritório fazemos a recomendação de se aumentarem as calhas e os condutores para dimensões maiores das usuais. Não raramente, ouvimos: Doutor tem 40 anos que eu faço isto, vai querer me ensinar agora? Pois é, pode ser que estejam fazendo errado há quarenta anos, ou se esqueceram de observar o tempo!


RUIM!? OTAKE

RUIM, OHTAKE!!!

Ó RAÇA!

Casseta e Planeta

 

O grupo Casseta e Planeta, tinha um quadro humorístico, onde eles criticavam, diversos grupos por suas ideias, formas de pensar e agir, de associação e ou preconceitos. Sempre terminavam com o bordão: Ó raça!

Significando que no fundo um grupo se defende dos outros, reagindo coletivamente, quando surge uma crítica ou ameaça. O silencio também é uma forma de reação. Arquitetos em geral tem espírito corporativo, não criticando e endeusando, quando não a si próprio, o mito de plantão (não falo dele tá?).

Arquitetas e arquitetos muitas vezes (não todos!) se acham acima de outros profissionais e não raro até das outras pessoas. Em muitos casos, se acham a última bolacha do pacote!

Mas é de se espantar o comportamento de alguns deles. Neste domingo passado, 07/04/2019 a Ilustríssima da Folha de S. Paulo, publica o depoimento de Ruy Ohtake, na coluna Memorabilia[1]. Esta coluna publica dominicalmente personagens da cultura que comentam obras e trabalho que, em certa medida, influenciaram seu trabalho.

Memorabilia, etimologicamente falando, se refere a memória, é um quase eu me lembro. Mas, em geral, se refere ao conjunto de elementos que suscitam a nossa lembrança e que de alguma forma impactam e transformam as nossas ações.

No título do artigo e no começo do texto, Ruy usa um polemista, Nassin Taleb[2] para falar de evolução. O arquiteto usa isto para dizer que a evolução da arquitetura paulista se deu por conta de seus traços, que representariam um avanço no sentido de adaptar a arquitetura a um ambiente que se modificou (é disto que a teoria da evolução trata).

Essa ideia da evolução aos saltos não é dele e sim de um biologista e paleontólogo que criou uma hipótese para a evolução, não como algo lento e gradual, mas que acontece aos saltos. Steve Jay Gould[3], desenvolveu a teoria do Equilíbrio Pontuado. Essa teoria diz que a evolução ocorre de maneira ligeira (aos olhos do processo evolutivo, que é de milhares ou milhões de anos) em um curto período.

O artigo é no fundo a exaltação de um arquiteto a seu próprio trabalho, ele faz referências a Niemeyer e Le Corbusier, o que é natural para um arquiteto. Não se deve considerar os mortos donos de uma santidade que não possuem. São arquitetos estelares, mas cometeram erros, que raramente são analisados ou levados em conta.

As aulas de projeto, na faculdade de arquitetura passavam um semestre inteiro analisando uma obra de Corbusier, sua famosa casa Villa Savoye, Paris, base do movimento modernista. Em momento algum os professores levantaram os problemas que aquela casa apresentou ou foi feita alguma crítica. O arquiteto foi salvo de um rumoroso processo, pelos proprietários da casa, por conta da II Guerra Mundial[4].

Mas o artigo de Ruy Ohtake ataca alguns pontos que são importantes comentar.

Primeiro ele diz que sua obra provocou saltos, no sentido evolutivo e qualitativo, na arquitetura paulista. É pouco provável! Ele tem raríssimos seguidores e sua arquitetura a par de ter um poder visual enorme na pobre paisagem paulista, beira o boco-moko, com suas cores exuberantes e descombinadas. É importante ressaltar que a evolução também faz experimentos teratológicos, que são eliminados posteriormente.

A obra do hotel Unique, esta sim, tem um impacto positivo, de extremo bom gosto e soluções formais impactantes, digna de ser uma referência mundial da arquitetura, o que não é pouco. Mas a falta de humildade do arquiteto, choca ao se comparar, aos dois maiores ídolos da arquitetura nacional.

Ele tem razão, ao apontar a falta de criatividade de arquitetos nas soluções de fachada e de interiores (não estamos falando de decoração). Os projetos neste século XXI, deixam em muitos aspectos a desejar. Mas é quase impossível falar de falta de criatividade quando se fala, por exemplo em Tryptique, o escritório franco-brasileiro de arquitetura, ainda que seus interiores nem sempre reflitam uma modernidade requerida. Suas concepções e fachadas apresentam soluções revolucionarias sim, trazendo impactos na forma de ver e fazer arquitetura. Faltam a muitos arquitetos as noções de como as casas funcionam, qual é a logística interna e entender as violentas modificações implementadas nos últimos anos pelas diferentes tecnologias. Inclusive na forma como as pessoas usam a casa e como são formadas as novas famílias.

No artigo, ele se coloca na vanguarda da arquitetura brasileira, acusando seus pares de não reconhecerem a importância de sua obra, sendo ele então, apenas reconhecido e aplaudido pelo povo, esse ente etéreo que todos citam e poucos representam.

Ruy Ohtake é um daqueles que brigam pela primazia da curva, como se fosse algo patenteável. Oscar, ele e um certo arquiteto aqui da região de Campinas, se arvoram no domínio da curva como elemento vital e fundamental da arquitetura. De fato, o é, mas não na preposição que eles colocam.

O projeto de Heliópolis tem uma das piores salas da arquitetura contemporânea paulista. ¼ de círculo, duas portas e uma abertura para a copa-cozinha. Os quartos tem uma face curva que impede a colocação de móveis na parede. Mas tem um aspecto interessante, suas fachadas, realmente, são bonitas e só. É como bolo de casamento, bom só para ver.

Os arquitetos devem ter noção de sua insignificância. O tempo é implacável, uma maravilha de arquitetura será reverenciada por séculos, as ruins serão esquecidas e reduzidas a pó. Nós arquitetos contemporâneos produzimos obras que com sorte durarão dezenas de anos somente.

A Basílica Santa Sofia, uma antiga catedral de Constantinopla, atual Istanbul, foi erigida no século VI, e pasmem, em apenas 5 anos, de uma beleza arquitetura a toda prova[5] , é visitada por milhares de pessoas que se maravilham com seus pilares, domo e dimensões grandiosas. Quem sabe o nome de seus arquitetos, quem conhece suas histórias? o que ela representa em termos de inovação construtiva?

As obras dos arquitetos, permanecem anônimas para quase a totalidade da população. A história só dará credito a aquilo que importa. Ao resto, ruínas.

A propósito, Santa Sofia não foi feita por arquitetos[6] !

[1] Memorabilia fatos ou coisas dignas de memória, segundo Houaiss.

 

[2] Nassim Nicholas Taleb é um economista libanês que vive nos EUA, autor de livros onde explora eventos fortuitos na economia e na vida, entre seus livros se encontra “A Lógica do Cisne Negro”. Até a descoberta da Austrália no século XVII, imaginava-se que somente existiam cisne brancos, a descoberta acidental dos cisnes negros alterou de maneira repentina a visão que se tinha do pássaro. Taleb usa esta metáfora para falar de eventos que ocorrem de maneira imprevista.

 

[3] Steve Jay Gould biólogo e paleontólogo, é um dos autores da teoria do Equilíbrio Pontuado que explica que a evolução ocorre de maneira acelerado em períodos muito curtos em saltos por conta de eventos cataclísmicos.

 

[4] BUTTON, Alain de. Arquitetura da Felicidade. Editora Rocco

[5] Após a queda de Constantinopla,1453(data que dá início a era moderna, encerrando a idade média) seu conquistador, o sultão Maomé não deixou que fosse destruída e a transformou numa mesquita.

 

[6] O imperador Justiniano escolheu o médico Isidoro de Mileto e o matemático Antêmio de Trales como arquitetos no século VI EC (Era Comum).

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CLIENTE: QUE DIABOS É ISTO?

CLIENTE: QUE DIABOS É ISTO?

A palavra cliente tem sua origem no latim, cliens-entis, aquele que estava sob a proteção de um patrono.
As coisas mudaram muito desde então. O cliente hoje, é o patrão. Acontece que grande parte de suas demandas, ou não são bem claras ou ele tem uma visão incompleta de suas necessidades, no caso pior o arquiteto não consegue compreender claramente suas necessidades.
O primeiro fato é que não há no curso de arquitetura uma cadeira chamada ‘cliente 1.1” que seria uma forma de entender esta figura e melhor compreender e resolver seus problemas.
O cliente é complexo, difuso e confuso. Me lembro claramente trabalhando com Ricardo Badaró e Roberto Leme de um cliente para qual eles estavam desenvolvendo um projeto, térreo, quando a esposa do cliente pediu uma escada que ela havia visto na novela. Não houve quem a demovesse da escada. O projeto virou um imbróglio tão grande que o projeto não avançou. Num outro caso o cliente queria uma série de portas pois ele não queria que o filho tivesse acesso ao quarto dele. Ele pediu para colocar um terceiro pavimento, para poder colocar, um corredor e novas portas afim de dificultar o acesso.
O arquiteto se depara com estas questões no seu dia a dia e nem sempre estamos preparados para lidar com estes casos de maneira correta. As vezes os casos são mais simples, um problema técnico ou apego a velhas tecnologias. Tivemos um cliente que não queria trocar as lâmpadas da vitrine de sua loja que estava sendo reformada. A substituição por leds, explicamos nós, não tinha somente a função de economia, mas substancialmente a melhoria da visibilidade de seus produtos. É sabido que locais melhores iluminados podem alavancar em até 20% as vendas. Não é só isto.
Locais mal iluminados reduzem a capacidade e desempenho dos funcionários em até 15%, por hora! Junte-se a este ambiente, ruído, pó, temperatura, ventilação e iluminação e você começará a entender a baixa produtividade do trabalhador brasileiro. E tente explicar ao cliente estas consequências em relação as opções ofertadas pelo arquiteto. É raro que ele opte pela melhor. A opção é quase sempre a mais barata.
Uma conta simples, um projeto sem arquiteto pode levar o cliente a executar um programa maior do que ele precisa. Por exemplo, uma casa que poderia ter 200m² ter 220m², esta pequena diferença pode custar R$70.000,00., que é mais que o suficiente para pagar um bom arquiteto e sobrar ainda.
Como tudo nesta vida tem um lado bom e um ruim (menos o disco do Orlando Moraes). Há arquitetos que provocam gastos, desnecessários ao cliente. Mas estes são os maus profissionais.
A arquitetura deve ser clara, transparente e eficiente aos olhos do cliente, não há que se ocultar coisas para o cliente.
É o caso das famigeradas “RT”, reserva técnica. Que corresponde a um determinado valor que vai para o arquiteto que indicar ou comprar o produto numa determinada loja. Já se sabe que este tipo de oferta, além de representar uma falta de ética para com o cliente, representa uma falta grave da profissão passível de punição. A solução a meu ver é simples, aviso na porta, 10% de desconto para o cliente com arquiteto. Não há desconto para cliente sem arquiteto. A relação fica clara e transparente. E não prejudica o cliente. O arquiteto não pode viver às custas de RT, ao aceitar isto, desvaloriza o projeto e rebaixa toda a profissão. Não é um benefício a todos.
O cliente precisa entender que o trabalho custa e não há risco zero. Empresários do setor da construção precisam entender que o arquiteto é um dos seus mais valiosos ativos. Construtoras precisam entender que o arquiteto tem valor igual ou superior ao corretor (não é um julgamento de valor), pois é através de seu projeto que ele movimenta sua obra.
O desprezo pelo trabalho do arquiteto tem levado a uma desvalorização da profissão.
O cliente também é responsável por isto!


ARQUITETURA E A TECNOLOGIA 5G

ARQUITETURA E A 5G

Os arquitetos em geral se gabam de estarem na vanguarda das tecnologias. Não é isto que parece estar acontecendo agora. Estamos no limiar de uma revolução será comparável a invenção da imprensa ou a introdução da eletricidade em nossas casas. Entretanto poucos estão se dando conta dos impactos que as novas tecnologias terão em nossas vidas em pouquíssimos anos.
A pergunta é simples; arquitetos estão preparados para as inovações que estão ocorrendo? Nossas casas estão sendo preparadas para as tecnologias que deverão embarcar todos os aparelhos por nós utilizados?
A resposta é um sonoro NÃO!
Nossas casas e escritórios são mal adaptadas até para a eletricidade (que ao contrário do feng shui é a única energia que passa pela sua moradia). Não é incomum encontrarmos dormitórios com uma ou duas tomadas, somente. Arquitetos e engenheiros elétricos não se deram cota que todo nosso futuro é elétrico. Ou seja, a nossa casa e escritório será cada vez mais dependente da energia elétrica, seja ela fornecida pela concessionaria ou produzida localmente.
A revolução que se avizinha é a 5G, ela tem 100 vezes a velocidade da atual, tem baixa latência¹ e robustez o que significa que inúmeros aparelhos serão conectados sem que isto afete a rede. A habitação, seja ela moradia ou trabalho, deverá estar adaptada a ela. Sabemos que aquilo que está feito é mais difícil de se preparar, mas aquilo que está preparado barateia substancialmente as adaptações necessárias.
A comunicação e conexão será omnipresente, todos os aparelhos serão conectados, na chamada IOT (internet of Things, ou a Internet das Coisas). Para isto nossos habitáculos deverão estar condicionados as diretrizes de redes e comunicações. Isto em principio significa que teremos que revisar todas as instalações elétricas e de redes de nossas casas e escritórios. Até nossa rede hidráulica e de esgotos poderão estar conectadas, poderemos ligar e desligar nosso banho a distância, desligar uma torneira que esquecemos ligadas ou fechar a janela diante da eminência de uma chuva.
Arquiteto trabalha ou deveria trabalhar com o sentido etimológico da palavra projeto. Lançar a diante, prever, precaver para que seu projeto não seja apenas um fóssil arquitetônico.
Esta revolução afetará tudo e a todos e sem o preparo seremos atropelados por ela. Não temos o direito de nos afastarmos destas questões. Volto ao assunto em breve!

¹. Período de latência é o tempo de resposta dos equipamentos. Latência é o tempo que passa do momento em que as informações são enviadas de um dispositivo até que possam ser usadas pelo destinatário. A rigor, você andando, com seu carro, inexistindo outros, por uma avenida que todos os sinais estivessem abertos para você. As conexões passam a ser imediatas.


ARQUITETURA E A MÃE INGRATA

ARQUITETURA E A MÃE INGRATA

Não gosto nem um pouco de patriotismo, nem de patriotadas. Continuo achando que patriotismo é o último refúgio dos canalhas, como diz a frase impagável de Samuel Johnson, escritor e pensador inglês do século XVIII.

No caso aqui, a relação não é bem da pátria, mas com a mátria, e o problema é com um de seus filhos, onde inversamente à frase lapidar, o canalha é a mãe¹!

Mais especificamente, o tratamento de Campinas para com um dos seus mais ilustres filhos.

O arquiteto Fábio Penteado² , foi e é um dos grandes arquitetos do Brasil, autor de grandes obras³ , de importância incontestável em diversas cidades do Brasil e inclusive aqui em nossa cidade.
Campinas, pouca ou nenhuma atenção dá as obras deste arquiteto e num particular trágico, o Centro de Convivência. Obra dos anos 70 do século XX.

Contando um pouco a história, Fabio havia sido preterido⁴ (ficou em segundo lugar) num concurso, em 1966, para um Teatro de Ópera, que seria instalado no entorno da Lagoa do Taquaral (sobrevive insepulta, uma concha, dita acústica). Entretanto na Quadrienal de Praga de 1967, ele e sua equipe, ganham a medalha de Ouro da exposição (o que é bom para o mundo não é bom para a Campinas)

Há então uma movimentação para trazer o arquiteto para projetar um dos mais icônicos edifícios da cidade, o Centro de Convivência Cultural, que seria estabelecido na região do Cambuí, ao final da avenida Júlio de Mesquita, na praça da imprensa Fluminense, obra do século XIX.

Fabio foi destes arquitetos que valorizam a formação humanística e a preocupação social, vindo de família de posses, não voltou sua enorme capacidade criativa somente a aqueles que mais tem. Produziu obras de relevância, cujo conteúdo social, como raros, conseguiu traduzir em formas arquitetônicas.

A construção de um edifício escultura iria impactar a cidade, tanto positiva como negativamente. Alguns setores nunca se convenceram de que uma praça para o povo poderia ser pensada naquele lugar.

A obra está lá e em condições ESTRUTURAIS DE RISCO. Não há pelo poder público interesse na sua recuperação, e não há um político, entidade de classe, AREA ou organização que busque providencias para as condições alarmantes em que o edifício se encontra.

Já passou da hora, da Cidade, esta mãe ingrata, voltar seus olhos a seu filho talentoso, que produziu exemplos de uma arquitetura inclusiva, como não mais se vê na cidade.

O ministério público tão zeloso dos desmandos de prefeitos, deveria por suas mãos sobre esta questão e definir responsabilidades e deveres com este verdadeiro patrimônio arquitetônico.
Não me custa xingar a mãe, mas vou poupar-lhes!

¹ Antes que algum incauto venha me acusar de algo, aviso de antemão que sou mais campineiro do que muitos que nasceram aqui. Eu escolhi morrer aqui. Não nasci aqui, mas aqui, me formei, criei família e filhas. Meu trabalho está todo em Campinas.

² A ideia deste artigo me surgiu, meses atrás ao passar pelo Centro de Convivência, levando um grupo de estudantes de arquitetura para conhecer a obra do arquiteto. Nos jornais de hoje 27/02/2019 aparece a noticia de uma exposição em Portugal sobre a obra de Fábio Penteado. A cidade de Matosinha, na sua Casa da Arquitetura, faz uma homenagem ao arquiteto. Veja aqui: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/02/museu-portugues-homenageia-obra-do-arquiteto-fabio-penteado.shtml

³ Para estudantes que não sabem quem é: O tênis clube de Campinas, Sociedade Harmonia de Tênis, de 1964, o Hospital Escola da Santa Casa de Misericórdia — atual Fórum Criminal Ministro Mário Guimarães, ambos em São Paulo, e o Monumento de Playa Girón, em Cuba, de 1962. Retirado de Oculum ens. | Campinas | 10(2) | 229-241 | julho-dezembro 2013 A CAMPINAS DE FÁBIO PENTEADO | I.R. Giroto |231 1968

⁴ Para uma versão não sanguinolenta ver aqui: http://periodicos.puc- campinas.edu.br/seer/index.php/oculum/article/viewFile/2142/1788


MANUTENÇÃO

MANUTENÇÃO!

 

O brasil é um país refratário a manutenção. Em primeiro lugar a manutenção está em qualquer empresa na coluna errada dos custos. Ela está sempre em despesa. A manutenção, como me ensinou, um irmão engenheiro, na coluna dos investimentos, pois se investindo na manutenção há sempre um retorno positivo ao investimento.

A tv hoje cedo, 20/02/2019 anuncia dos fatos que fazem parte da tragédia cotidiana do brasileiro; um conjunto de prédios sob a ameaça de desabamento e a condição das pontes em SP.

No primeiro caso, como no segundo, decorrem de não de um fato único, mas da decorrência de inúmeros erros que acabam por compor um acidente (a palavra aqui está errada, acidente é etimologicamente aquilo que ocorre repentinamente, deriva de uma palavra latina accidere, cair). O filosofo Aristóteles definia como uma categoria não essencial a substância, ou seja, ele não pertence ao objeto. Ou seja, não deveria ocorrer naturalmente.

Mas os acidentes, não ocorrem ao acaso, são uma série de eventos que levam até o momento onde eles são irreversíveis e se desdobram em catástrofes. Quando elas ocorrem com os outros chamamos eufemisticamente de dados estatísticos, quando acontece com agente: tragédia!

Hoje comento apenas o dos prédios.

No caso dos prédios a baixa qualidade da construção brasileira, a falta de fiscalização, o mal-uso das técnicas e a baixa formação de profissionais se traduzem em obras cuja estabilidade não pode ser colocadas a prova. No caso desta obra no Morumbi, zona sul de são Paulo, 96 famílias correm o risco de verem seus apartamentos desaparecerem. É um problema de arquitetura ou não?

Tudo que diz respeito ao morar fala diretamente a arquitetura. Sou avesso a separação que se criou entre a arquitetura e engenharia. Sempre se pode aprender com os calculistas, eletricistas e especialistas em proteção atmosférica.

As causas alentadas, no prédio, são as de sempre, obras em terreno vizinho, ou a desculpa de que a construção obedeceu estritamente a lei.

O problema se estende a mais de 10 anos. As construtoras ainda não enfrentaram a fúria da lei que deveria ver estes casos (se não me falha a memória a lei fala sim, mas os juízes e advogados desconhecem) em que um erro de origem, ou seja um erro que está presente desde o nascimento da construção, não extingue a responsabilidade da construtora após 5 anos. Estes primeiros anos tendem a cobrir defeitos de materiais, más opções de qualidade e erros simples de construção. Não é o caso de erros estruturais ou de erro de adoção de fundações ou mesmo descuido nas proteções de arrimo e paredes confrontantes.

Normalmente arquitetos não se imiscuem nestas questões. Aqui acho que, deveríamos sim colocar a nossa colher, o que ajudaria evitar grandes prejuízos.

Anos atrás ao desenvolver um projeto para um dos grandes grupos educacionais do país, numa reunião conjunta, se apresentou o novo local dos estúdios do grupo. Somente esta parte do projeto tinha custos muito significativos, uma vez que receberia todos os equipamentos de gravações para os cursos on-line do grupo inteiro.

Uma pergunta simples, quem estava cuidando da proteção atmosférica, provocou um mal-estar geral. O responsável pela obra disse que o sistema de para-raios estava ok. Retruquei que para-raios não protegem e perguntei se ele sabia quantos raios caiam por ano no local por ano. Ele não sabia. Eu disse que não importava muito este número. O que importava era saber qual a probabilidade de um raio catastrófico cair. Indaguei se eles gostariam que fosse 10.000, 100.000 ou milhão de anos???? Ele considerou exagerado, e disse 10 anos. Uma década não confere segurança ao sistema e ele não sabia do que falava (na verdade nem eu, pois não sou especialista, mas graças a um grande amigo e especialista, eu podia oferecer estas indagações)

Nos trabalhamos mal com grandes números e dados estatísticos. O número parece excessivamente alto para um evento banal, um raio cair num para-raios. Acontece que o estúdio em questão abrigava equipamentos de custo altíssimo e a paralização de funcionamento implicaria em suspenção de trabalhos e cursos essenciais ao trabalho da empresa.

Quando falamos em, por exemplo, um milhão de anos, o número excede em muito a vida, inclusive do sapiens. Acontece que os cálculos não afirmam que o evento acontecerá no último dia do prognóstico. Ele pode ocorrer no primeiro, inclusive. Assim quão maior for o tempo decorrido para a ocorrência do evento tanto mais seguro estarão os equipamentos.

Arquitetos podem e devem entrar em questões de obra sim, possibilitando, com seu conhecimento multifacetado, ajudar a melhorar as condições gerais das obras.

rachaduras do prédio

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