OBITUÁRIO: IEOH MING PEI.

OBITUÁRIO: IEOH MING PEI.

Eu gosto bastante de obituários, principalmente quando é alguém não muito conhecido. Fica-se sabendo detalhes da vida, que somente passamos a saber com a morte.

É o caso do arquiteto chino-americano Ieoh Ming Pei, nascido em Cantão na China, em 1917. Abriu seu próprio escritório em 1955, aos 38 anos, um pouco tardio para os nossos padrões, mas se estabeleceu fazendo projetos inicialmente para William Zeckendorf1, um destemido empreendedor de NY. Em 1983 recebe o prêmio Pritzker2 , o mais importante prêmio da arquitetura mundial.

Em 1989 desenvolve a pirâmide  para o Museu3 Louvre4, o presidente François Mitterrand, que dispensa a licitação, contratando diretamente o arquiteto. Talvez sua obra mais controversa e sobre ela que exatamente quero falar.

DESENHO ORIGINAL DE PEI PARA O LOUVRE

Nos anos 80 ele se destacou em meio aos prédios nos estilo pós-moderno, algo que vemos hoje com um certo desagrado, propondo uma arquitetura de fortes linhas geométricas e acentuando os volumes. Na faculdade não vimos, nem analisamos seus trabalhos. Aliás as faculdades de arquitetura (pelo menos as que eu conheço) se dedicam pouco a analisar a obra de arquitetos, menos ainda de arquitetas (vide Zaha Hadid, Neri Oxman, Momoyo Kaijima ou Norma Merrick Sklarek)

O museu do Louvre é um dos primeiros e mais antigos do mundo, recebe mais de 8 milhões de visitantes por ano e está distribuído em mais de 70.000 ² de área. No século XVII, Luís XIV mudou-se para Versalhes e deixou o palácio do Louvre como um local de Exposições de peças da realeza. A Revolução Francesa o transformou em um museu .

A construção da pirâmide em 1989 foi e é ainda uma polêmica. Realmente à primeira vista parece ser um corpo estranho em meio a uma construção do século XVI.

Mas ao conhecermos um pouco da história da França, em especial Napoleão é que poderemos usufruir da magnifica ideia do arquiteto. Napoleão Bonaparte em 1798, invade o Egito. Além das tropas o invasor leva uma comissão 5 de pesquisadores entre eles desenhistas, escritores, tipógrafos, historiadores, tradutores etc. Fez, com sua comissão de artes um levantamento completo das relíquias e tesouros 6 do país. Traz consigo como espolio de guerra, enormes quantidades de obras de arte, retrata o país através de pintores e desenhistas e permite a partir dai a criação de uma ciência para o estudo do Egito: a egiptologia. Um desses tesouros está no centro de Paris, na praça da Concórdia o obelisco.

Para se ter uma ideia da dimensão da empreitada: foi elaborado uma série de documentos chamados “O Description de l’Égypte” (Descrição do Egito), aparecendo pela primeira vez em 1809 e continuando até o último volume em 1829, que ofereceu uma descrição científica detalhada do antigo e moderno Egito, bem como sua história natural. É o trabalho de colaboração de cerca de 160 estudiosos e cientistas civis, conhecidos popularmente como os sábios 7, que acompanharam Napoleão na Campanha do Egito em 1798-1801, como parte das guerras revolucionárias francesas, bem como cerca de 2.000 artistas e técnicos, incluindo 400 gravadores, que mais tarde criaram uma obra completa”.

O Louvre possuiu um dos mais completos acervos fora do Egito de sua arte e sua história. Há no seu subsolo uma ala enorme dedicada a este país que tanto influenciou o mundo e em particular a França.

A paixão pelo Egito, pelos franceses, é que levou o arquiteto Pey a desenhar esta pirâmide na entrada do Louvre, homenageando com um desenho simples uma geração de conquistadores, o país conquistado e sua importante referência para a França e para o mundo. Somente quando olhamos com maior cuidado é que podemos descobrir as belezas que se escondem sobre um objeto que se relaciona com outro com tamanha historicidade. Poucos notam esta relação, mas o arquiteto com sua sensibilidade soube construir um objeto capaz de contar uma bela história para toda a eternidade.

REFERÊNCIAS:

1.Foi um proeminente investidor imobiliário americano. Através de sua empresa de desenvolvimento Webb e Knapp — para o qual ele começou a trabalhar em 1938 e que ele comprou em 1949 — ele desenvolveu uma parcela significativa da paisagem urbana de Nova York. Arquitetos I. M. Pei e Le Corbusier trabalharam para Zeckendorf em alguns de seus projetos.

2. O Prêmio Pritzker é um prémio internacional de arquitetura. Foi criado em 1979 pela Fundação Hyatt, gerida pela família Pritzker, sendo muitas vezes chamado de “o Nobel da arquitetura. É atribuído anualmente ao arquiteto, ainda em vida, que melhor cumpra os princípios enunciados por Vitrúvio: solidez, beleza e funcionalidade.

3. Originalmente do grego a casa das musas.

4.O Louvre foi uma fortaleza construída no século XII, mas perdeu sua função ao ser rodeada pela cidade de Paris. Francisco I a converte em residência real em 1546.

5. A Comissão das Ciências e das Artes era um corpo de 167 cientistas, técnicos e artistas, formado a 16 de março de 1798. Destes, 154 acompanharam Napoleão ao Egito

6. Um desses tesouros foi a pedra da Roseta, encontrada por um soldado de Napoleão. Esta pedra contendo um texto em três línguas, grego, copta e hieróglifos acabou nas mãos dos ingleses. Através de seus textos, é que Champollion, em 1822 decifrou o texto egípcio e possibilitou ao mundo acessar os segredos guardados por milhares de anos.

7. Para ver mais: https://pt.wikipedia.org/wiki/Description_de_l%27%C3%89gypte


EVOLUA OU PEREÇA!

EVOLUA OU PEREÇA!

“Se não encontrar nas primeiros duzentos, desista.”
Lei de Konopka¹

Confesso que tentei encontrar, e fui além dos duzentos! Busquei projetos de arquitetura, com partidos e programas diferentes, em páginas de jornais, folders e material distribuído nos sinais. Não encontrei nada significativamente diferente. Sejam programas de 2, 3 ou 4 dormitórios, todos parecem seguir a mesma diretriz de projeto.
Arquitetos em geral, mexem com imponderabilidades, os sonhos e o futuro. As duas coisas se resumem a uma só: projeto.

A etimologia da palavra projeto é “projicĕre” onde “pro” é frente, extensão, de se estender. “Jicĕre” lançar, jogar, assim projeto é jogar algo a frente, adiante. Mais precisamente lançar um sonho, algo imaginado, a adiante, no futuro.

Agora um outro aspecto; João e Gustavo, meus netos, tem acesso a 5ª geração dos bisavós (na verdade só das 4 bisavós, os bisavôs, não resistiram) e isto é uma raridade e novidade na história da humanidade. Raramente tínhamos acesso aos avós, cuja idade média pouco passava dos 40 asnos e hoje estamos chegando aos 80-85. Antigamente, e não faz muito tempo, uma geração tinha o conceito de 75 anos, assim que todos que nasciam durante este período pertencia a mesma geração. Mas estas gerações, em função de segmentação mercadológica, se dividiram em partes, e assim surgiram, os TRADICIONALISTAS, que nasceram antes de 1946, os BABY BOOM² , após 1946 até 1964, GERAÇÃO X, de 1965 até 1981, GERAÇÃO Y (esta geração também é conhecida por “Millenials”) geração de 1982 até 2000, e finalmente a GERAÇÃO Z, atualmente em curso. Observem que estas divisões são absolutamente aleatórias e seu significado se prende a interesses, como dito acima, comerciais e de marketing.

Alguém, que teve a paciência de chegar até aqui, poderia perguntar o que tem a ver projeto e gerações?

Bom, vou tentar explicando usando o paradoxo do esquartejador, ou seja, fazendo por partes.
A essência do projeto é trabalhar para o futuro, a moradia não pode, nem deve ser algo estática no tempo. Assim como as gerações mudam, seja por que aspecto for, mudam as concepções do mundo e a forma de morar e trabalhar. Um millenials, não será um jovem eternamente, seu gosto, sua forma de vestir e de agir, mudará com o tempo, e não raro, se aproximará da de seus pais, quando não dos avós. Mas isto não se reflete na arquitetura. Que quer atender aos novatos do mercado. Se esquecendo que não há casa, apartamento ou ambiente de trabalho para os mais velhos ou aqueles não compartilham esta mudança.

A última vez que estive na casa de meus avós, em Alcântara, Rio de Janeiro, foi a 55 anos atrás. Mas consigo, até hoje, desenhar a casa em que eles moraram e onde passei inúmeras férias. Houve um fato, uma vez, que ao voltar, para as férias de janeiro, perguntei ao meu avô, se a casa havia diminuído³ ? Eu estranhei, as dimensões da casa, que me pareceram, mais diminutas que o ano anterior. Mas a casa que possuía,4 quartos (construídos com carinho pelo meu avô para receber os netos) e um único banheiro. Uma intocada sala de visitas, sala de refeições, sala de jantar, e terraços. Ficava no alto de um morro, com uma longa escadaria. Ele construiu esta casa nos anos 40 e 50 do século passado.

residência josé alves coutinho

Em essência ela não é diferente de nenhuma casa atual. É exatamente isto que incomoda. Passados 100 anos do nascimento dos avós e bisavós da minha geração continuamos a fazer a mesma casa, as mesmas divisões e repetindo os mesmos padrões.
Seja o mais moderno escritório de arquitetura, na linha do Tripytique, ou um escritório comum, estão ,no fundo, fazendo a mesma casa sempre?
Onde está o erro?
Num artigo, publicado em julho de 2008, no Estado de S.Paulo, o arquiteto Jorge Wilheim, já nos alertava:

Quando plantas dos apartamentos são publicadas, espanta-me a similitude dos programas e dimensionamentos: parece que há um único protagonista a desenhar com sua “mão escondida” todas as plantas, com iguais dimensões dos quartos, denominações sempre que possível em inglês e a presença inevitável, esta brasileira, da churrasqueira.

E completava:

O que não se pública é o nome do arquiteto autor desses projetos! A “mão escondida” o apagou, seja por não o considerar importante a ponto de figurar ao lado do decorador, do paisagista e dos realizadores do empreendimento; seja porque o próprio arquiteto não se sinta à vontade com o resultado. Se arquiteto existe, como entender, tiradas poucas exceções, o descaso com a estrutura e com a fachada, geralmente um aplique colado, muitas vezes imitando um paupérrimo estilo neoclássico?

O artigo de 11 anos atrás, permanece atualíssimo!
A casa, moradia ou ambiente de trabalho, qualquer que seja o espaço de ação do arquiteto deve levar em conta a evolução. A evolução, esta mesma que Darwin/Wallace desenvolveram e que diz de maneira clara e absoluta: os seres que se modificam, devido às mudanças do ambiente, têm maior chance reprodutiva, portanto deixam mais descendentes 4 . O ambiente da arquitetura deve se modificar com o tempo. Moro na mesma casa desde 1992, minhas filhas já foram embora(infelizmente) só voltam 1 vez por mês ou por ano. A casa é dos anos 30-40, com paredes de 30cm, são “imexíveis” 5 . Normalmente a sugestão é mude-se! Mas, acontece, que apesar dos perigos do local, dificilmente acharia uma casa para acomodar uma biblioteca de 2000. Livros e um ateliê. Teria que construir. Não tenho nem tempo nem vontade para tal.
Nossas casas, quase totalidade dos casos, são refratárias as mudanças do tempo e costumes. Quando as condições do ambiente mudam, nós não nos adaptamos, nós nos mudamos.
A casa não se altera!
As arquitetas(os) em geral, não produzem uma arquitetura que evolua com o tempo. Ao nos unirmos a alguém, formamos um casal, que pode ter inúmeras configurações. Uma é que o casal não tenha filhos. Outras opções implicam em filhos que provocam a necessidade de alteração arquitetônica (construção de outro cômodo, reforma e adaptações). A casa não está preparada para isto. As soluções estão no mercado, há uns poucos trabalhando nestas soluções, que deveriam estar espelhadas nos lançamentos, sejam prediais, individuais ou condomínios.
A moradia deveria poder ser alterada em dias, horas ou semanas. E não em meses e anos.
Nos últimos anos notamos a mudança em alguns dos espaços da casa; a cozinha se fundiu com a sala em muitos casos, o surgimento do terraço gourmet(argghhh!!!!), criamos churrasqueiras para quem nunca faz churrascos, quartos e banheiros estão unidos nas suítes (ainda que sejam muito ruim do ponto de vista arquitetônico). Criamos micro espaços que chamamos de closet, quando não passam de um cubículo, incapaz de fazer frente ao consumo de roupas e sapatos 6 . Eliminamos a sala de visita, praticamente reduzimos a área de serviço a um espaço de tanque e máquinas. A habitação não é pensada para o futuro, nem sequer ao presente, mas voltada a um conceito, seja de modo vida seja de relacionamento, seja de família, que apenas reside no passado, na grande maioria das vezes.
Por que os arquitetos fazem isto? Quem determina que espaços devem ou não ser projetados? No que as empresas se baseiam para pedir aos arquitetos este ou aquele programa?
Existem razão diversas, não são simples e implicam em soluções complexas, que passa pela forma como ensinamos nossos estudantes, como se discutem os movimentos disruptivos que vivemos, a compreensão dos avanços tecnológicos a que estamos sujeitos, e que avançam sobre todos os aspectos onde o ser humano está presente. Chegando ao contratante de nossos projetos, que nem sempre sabem exatamente o que querem. Peça ao seu cliente particular desenhar a casa dos sonhos dele, ela(e) provavelmente desenharão a casa onde moram, um pouco maior.
Quando a construtora entra pela sua porta, está cheia de ideias, sejam dos corretores sejam da agência de publicidade que acha que sabe a quem se destinam os imóveis que você deve projetar. Descem planilhas e pesquisas (em geral malfeitas!7 ) dizendo que o mercado quer isto ou aquilo, tem que ter 3 ou 4 dormitórios senão não vende, viu? Assim nos vemos apartamentos que não se adaptam, mas gente que tem que se adaptar aos apartamentos e casas. Moramos mal e trabalhamos em locais inóspitos. Esse não é o trabalho dos arquitetos!
A casa, o apartamento e o ambiente de trabalho, hoje mais do que no passado sofrem transformações que acontecem num ritmo não mais medido por gerações, mas por semanas e horas.
A informação, o estudo continuado, a pesquisa e leitura, são formas de atualizar e confrontar o conhecimento, alterando nossa forma de fazer e de pensar a arquitetura.
Os ambientes devem ser dotados de capacidade de responder as alterações da vida contemporânea, ou fazemos isto ou o futuro será apenas um amontoado de ruínas e entulhos.

REFERÊNCIAS:

[1] Ronald J. Konopka biólogo geneticista, descobriu um gene ligado ao tempo. Famoso por sua persistência na execução de experimentos. Cunhou a frase, que parece ser sua única lei. Se você não encontrar o que quer nos primeiros duzentos experimentos, desista. Para uma leitura estimulante leia, onde ele é citado: WEINER. Jonathan. Tempo, Amor e Memoria: Um biólogo notável em sua busca das origens do comportamento. Editora Rocco. Rio de Janeiro 2001.

[2] Baby Boomer significa “explosão de bebês”. fruto dos que retornaram da II Guerra (1939-1945) e multiplicaram o número de filhos. Garantidos agora pelos avanços sanitários, médicos e tecnológicos, aumentaram muito a taxa de natalidade. A expressão Geração X(o x se refere a diminuição de filhos nesta geração) foi criada pelo fotógrafo Robert Capa, em torno de 1950 e posteriormente adotado por estudiosos.

[3] Só fui compreender adequadamente, depois que assisti a Amarcord (Eu me lembro, no dialeto da regiã0 do autor, Frederico Felini, onde o mundo é visto pelos olhos de uma criança, no caso ele mesmo. E que vê tudo em tamanho maior. Dos seios ao transatlântico tudo era enorme. Uma visão que a criança ajeita a sua proporção e não ao contrário.

[4] Este é o sentido de evolua ou pereça! Aqueles que não se adaptam, perecem.

[5] Toda obra pode sofrer interferência de qualquer magnitude, poder-se-ia eliminar, deslocar ou criar paredes. A tecnologia nos permite fazer muitas coisas, a questão é custo.

[6] Uma olhada simples nos projetos apresentados nos jornais, parece que são feitos para lutar contra o consumo exagerado, mas é apenas um truque “isperto’ para vender um lugar que não existe, e não cabe pouca coisa mais do que um armário convencional. Não se trata aqui de reforçar o consumo desenfreado, mas a vida moderna implica numa quantidade de roupas e acessórios que não cabem nos espaços destinados.

[7] Pesquisa no Brasil nem sempre é bem-feita. São raras e caras. E tem um agravante, o brasileiro mente! Existe um case famoso, onde o presidente de uma empresa multinacional se instalou no Brasil e fez uma extensa pesquisa de mercado, com pomposidade lançou seu produto no mercado. Foi um fracasso de vendas, a empresa acabou por se retirar do mercado brasileiro. Perguntado por quê? O presidente da empresa respondeu que os brasileiros mentiam na pesquisa. Descobriu-se que no questionário havia uma pergunta que era crucial. A senhora compraria sopa pronta para seu jantar? A resposta invariavelmente era sim. Os pesquisadores descobriram que as donas de casa não gostavam de responder não. Então modificaram os pesos das respostas, quando a resposta era não valia 1 ponto, quando sim, valia 0,7. O que servia para balizar a pesquisa. A diferença era entre compraria e utilizaria. A empresa voltou ao Brasil


JANELA PARTE 1

JANELA PARTE 1

Janela, janelinha, porta,
campainha, trimmmmmmmm!!!

Por que falar de janelas?
Dou aula numa faculdade de arquitetura. E poucos tem noção da importância das janelas, nas residência e nos ambientes de trabalho. Alunos¹ durante 5 ou 6 anos decerto não aprenderão a sua história e relevância na arquitetura. Este artigo é dedicado a eles.
A singela brincadeira, em epígrafe, utilizada por pais e avós nos rostos das crianças, apertando ao final, o nariz, revela um pouco de como a arquitetura está ligada à nossa percepção, sem que tenhamos notado. A casa como um corpo e o corpo como uma casa.
A janela são os olhos, que permitem uma dupla interpretação, vêem fora e nos deixam ver dentro. É uma passagem.
A etimológica da palavra janela tem origem na palavra latina “ianuella² ”, diminutivo de “ianuas”, porta passagem, acesso³ . Ou seja, a janela é uma pequena porta, mais precisamente meia porta, pois ela se refere a parte superior da porta que era dividida, permitindo a entrada de iluminação e ventilação e impedia, na parte de baixo, a entrada de animais.
Existe uma palavra em latim e português, ‘fenestra’ que significa janela e é pouco usada em português, apesar de existir. Usamos mais um derivado que é defenestrar, que significa jogar pela janela. Essa palavra pode ter sido originada do grego “φαίνεω “(faíneo, eu olho).
A palavra window, em inglês, tem origem no Nórdico antigo ‘vindauga’, de’vindr – vento’ e ‘auga – olho’, i.e., olho de vento4 . se refere a um buraco por onde passa o vento, ou seja a ventilação. E é também um olho que vê,
A aproximação com janeiro, não é por acaso, a imagem de “Ianus’ o deus bifronte, que guardava o interior das casas e espantava os espíritos malignos estava em geral acima das portas. Janeiro é o mês que fecha o ano anterior e se abre ao novo. Extamente como faz uma janela.
A ligação entre porta e janelas, é evidente, não só etimologicamente como fisicamente. A janela deriva da porta (da porta falaremos num outro post).
O avanço no conhecimento construtivo e arquitetônico possibilitou através da colocação de vergas estruturais a existência inicial das portas e posteriormente das janelas. Ver figuras abaixo.

 

Fig.1 Fachada sem janela

Fig.2 Fachada com janela

 

 

 

 

 

 

 

 

A exemplo de outras inovações que a casa moderna possui, a janela é uma aquisição recente. Praticamente todas as casas tem uma coleção delas. São aberturas que permitem a ventilação e iluminação dos cômodos.
A maioria do tempo as casas não possuíam as aberturas, seja por dificuldades técnicas, a abertura de vãos requer paredes mais robusta e estruturadas de forma a permitir a instalação das janelas. Em geral a única abertura que possuíam era no teto para a ventilação, iluminação e saída de fumaça. A janela representou um passo importante na arquitetura.
É um detalhe que por vezes passa despercebido, tal é a presença das janelas na vida contemporânea. Nos arquitetos e decoradores, não damos, creio eu, a devida importância a esse aspecto da arquitetura, seja enquanto um aspecto importante na história da arquitetura, seja quanto sua importância técnica.
Uma viagem no tempo, serve não só para trazer a importância deste elemento da moradia, bem como mostrar a nova geração de profissionais, como olhar com mais atenção a este elemento arquitetônico.
Cada elemento da casa conta uma história importante na evolução da moradia, este blog tem a pretensão de levantar estes detalhes aqui e contar coisas a respeito destes elementos e se for possível dar direções as inovações ocorridas na atualidade. Tanto a janela quanto a porta guardam referencias importantes, que nós, ao abrirmos uma janela ou passarmos não nos damos conta.Desconhecemos o fato de que as portas foram personagem importantes em tragédias como a do terremoto de 1755 em Portugal. Não sabemos que janelas pagavam altos impostos até o século XIX. Tudo isto serve de repertório aos arquitetos e decoradores que queiram buscar algo além das fotos nos jornais e revistas. Somente as casas dos mais ricos e poderosos no período greco-romano possuíam janelas. Algumas até com vidros, como mostra a fig. 3

Fig.3 Pedaço de vidro romano.

Os romanos, foram os primeiros, ao que se saiba, a utilizar a tecnologia que eles desenvolveram a partir dos egípcios. Mas demorou muito para que se consegui obter vidros com transparência como temos hoje.
Se pudéssemos espiar uma casa na idade média, nosso nariz sofreria bastante, acostumados a uma higienização constante. Mas nossos olhos se surpreenderiam mais, ao não encontrarmos luz facilmente. Não havia para a maioria das pessoas, uma janela que pudesse iluminar o ambiente (no mais das vezes era até melhor!!!) para que pudessem enxergar e se movimentar.
As janelas no século XIII, se resumiam, na verdade a um buraco no teto e a metade da porta que poderia se abrir.
Quando existiam janelas, não haviam vidros. Papel encerado, tecido, pele de animais, ou chifres (sim, osso raspado até se obter uma pequena placa) ou mesmo madeira eram utilizados para dar alguma transparência e proteger um pouco contra as intempéries.
Antes de avançarmos, seria interessante cria um diferencial para as janelas. Uma classificação. Genericamente, poderíamos classificar as janelas em 3 categorias. Obstrutiva, Eurônotas e Iluminantes.
Obstrutivas são aquelas que vedam tanto ventilação quanto a iluminação e provavelmente pertenceram as primeiras gerações de janelas e aberturas. Podiam ser abertas ou fechadas, mas ao serem fechadas obstruíam a visão e o arreamento do cômodo. A implantação das primeiras janelas, se deu a um único cômodo, uma vez que a subdivisão das habitações, a exceção dos castelos, aconteceu de maneira generalizada a partir do século XVII.
Eurônotas são aquelas que permitem a ventilação e permitem ou reduzem a iluminação. Seu nome deriva do grego, ευνότιο, “Eûros” ventos do este e “νότιο,nótos” ventos do Sul e da chuva. Para os gregos e romanos se referiam os ventos predominantes do Sudeste. Assim as janelas que incorporam inovações importantes como a venezianas e treliças(muxarabi).
Iluminantes, como a própria palavras diz são aquelas que permitem ampla iluminação, através da incorporação de papel oleado, pele, madeira ou vidros.
Continua Parte 2…

REFERÊNCIAS

¹ Na verdade, não só alunos, os profissionais da área, em geral também desconhecem.

 

² A pronúncia de “ianuella” é “januella”, é ajustado ao português com a letra “J”, entretanto, o latim não possuía o jota que foi uma criação francesa do século XVI, uma adaptação para diferenciar novos sons do francês.

 

³ Para um olhar mais aprofundado ver JORGE, Luís Antônio. O Desenho da Janela. São Paulo. AnnaBlume.1995.

 

4 Para mais detalhes visitar: https://en.wikipedia.org/wiki/Window


ARQUITETA(O) ESTE DESCONHECIDO

ARQUITETA(O)¹ ESTE DESCONHECIDO

“A celebridade é uma contradição. Parecendo que dá valor e força às criaturas, apenas as desvaloriza e enfraquece.”
― Fernando Pessoa

Faça um pequeno exercício ao ler os jornais, tente encontrar o autor dos projetos apresentados como maravilhas do século XXI. Somente aqueles estrelados escritórios e profissionais terão gravados seus nomes nos jornais que amanhã embalarão os peixes na feira.
Ao olhar as páginas dos jornais e vendo centenas de anúncios (nos últimos anos tenho feito este exercício. Leio dois jornais por dia), em 99% dos casos estão citados empreendedores, corretores, investidores, construtores as vezes a paisagista(o) e ou a decoradora(o) mais raramente os arquitetos.
Não sou adepto do “celebrismo” que ataca, como praga, arquitetas(os) e decoradoras(es), mas também não vejo com bons olhos, esse desprezo de quem produz um bem importante para a cidade. A busca pelo reconhecimento se dá de forma inadequada e inconsequente.
Quando dou aulas, procuro alertar meus alunos da efemeridade da obra de arquitetura, quase sempre anônima, mas que sempre impõe efeitos (positivos e as vezes negativos) onde está implantada. Procuro dizer que poucos chegarão à fama, e que grande parte do nosso trabalho sequer é notado, ou valorizado.
A partir do renascimento, no século XV, quando a noção de autoria surgiu, arquitetos e artistas procuraram valorizar seu trabalho, impondo seu nome como uma marca de qualidade, distinção (no sentido de ser diferente de outros) e indicativo de que aquele trabalho lhe pertencia.
A autoria passou a ser um aspecto importante da profissão, tanto que existem leis que regem a autoria do projeto e conferem certos poderes aos seus detentores. Essa propriedade do projeto, é exclusiva dos profissionais de arquitetura. Mas nela não está embutida o reconhecimento social do seu trabalho. Indica quem quer. Ainda que, em Campinas e São Paulo, se não me falha a memória, haja uma lei obrigando a identificação dos autores do projeto, nas publicidades de jornal e revistas. Mais uma lei que não pegou!!!
O que acontece hoje, é que o trabalho do arquiteto, em geral, é menosprezado, desvalorizado e rebaixado. São vários os fatores para que isto aconteça, desde os próprios profissionais, que em desespero, se submetem a condições inadequadas e escorchantes, sejam as concorrências desleais, seja através dos construtores que veem nos profissionais apenas um meio para atingir seu objetivo maior, que é a venda. Não é por outra razão que os percentuais sobre a venda de imóveis são absolutamente superiores aos recebidos por arquitetas(os).
Isto tem provocado distorções no mercado imobiliário que consulta corretores² , onde eles passam a opinar sobre o que deve ser construído ou não. Não são as melhores fontes. É o paradoxo do Tostines: Vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais. Com isto temos uma “pasteurização” ou “homogeneização” dos produtos ofertados. Não que necessariamente seja o arquiteto a ser consultado. Na maioria dos casos ele também não vê corretamente a evolução do mercado. É preciso olhar com outros olhos. E isto significa um custo que empreendedores não gostam de pagar.
Investigar, conhecer, prever, antever são ferramentas para perscrutar o mercado. E quem é o mercado? Quem é o cliente? O que eles desejam? Três ou quatro, ou nenhum quarto? Precisa de vaga de garagem? Área de serviço? São perguntas que deveriam ser respondidas por quem estuda o mercado, e não somente por quem trabalha com o mercado.
As transformações tem sido aceleradas, vertiginosas e disruptivas, assim cada vez mais é preciso olhar com atenção a evolução da tecnologia, meios de trabalho as relações sociais e afetivas e como isto impacta a vida de cada um. Só assim será possível produzir melhor e adequadamente. E assim o autor poderá ser reconhecido pelo trabalho que faz.
A arquitetura é um bem social e poucos se dão conta disto. A cidade é em parte fruto do trabalho destes profissionais e de muitos profissionais que merecem o reconhecimento.

¹A questão de gênero tem se imposto de maneira bastante forte, inclusive em questões sérias. Particularmente, preferiria que houvesse o neutro na nossa língua. Mas não há. Normalmente o gênero masculino vem primeiro seguido do feminino. Acho que o correto deveria ser o contrário. As mulheres são exploradas, oprimidas e ganham diferencialmente. Em 1983, portanto a 36 anos, ao fazer o cartão de minha sócia, grafei arquiteta, não era utilizado, e provocou estranhamento. O usual era utilizar o masculino arquiteto para mulheres.

² Não tenho nada contra corretores, fazem parte da minha família. tenho orgulho de meu sogro ter sido um corretor visionário, que introduziu o conceito de condomínios em Campinas e meus cunhados que desempenharam e desempenham importantes atividades na área. Mas uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.


ARQUITETURA DE M*RDA PARTE 2

ARQUITETURA DE M*RDA PARTE 2

As cidades medievais eram imundas, sujas e fedorentas, e segundo a expressão de São Bernardo: onde todo mundo fede, ninguém cheira mal.

Toda espécie de imundices estava jogada nas ruas e vielas. Mesmo dentro das casas na sua maioria, não haviam pisos, portanto, escarros, cuspe e restos de comida, quando não o número 1 ficavam espalhados pelos cantos.
Lembrando aqui que os utensílios domésticos eram móveis, portanto camas e banheiros eram transportados nas viagens de reis e nobres.

Quando surge o quarto, por volta de 1660, ou seja, em pleno século XVII, um espaço privado (chamado de petit appartment) e o quarto de banho aparecem, como necessidade e intenção de restringir uma atividade que em geral era pública. É bom lembrar que Versalhes com seus 700 quartos não contava com um só banheiro, no sentido moderno (ressalte-se que havia salle de bain, mas não possuíam privadas nem esgoto).

Por volta do século XVII, surgem, para a alta classe e monarcas as primeiras privadas portáteis. Luís XIV possuía várias e sua utilização era pública e sinal de prestígios para aqueles que assistiam o rei fazer suas necessidades. Seu uso iria se multiplicar com os nobres e burgueses querendo este moderno equipamento.

Começa surgir na sociedade uma noção mais clara entre o público e o privado, fazendo com que certas atividades, antes públicas, passem a serem realizados no privado. No excepcional filme Vatel – Um Banquete para o Rei tem uma cena onde o rei é acompanhado por um séquito, fazendo suas necessidades.

O número 1 era feito em qualquer lugar, pelos cantos do palácio. O número 2 era feito em pinicos e jogados ao jardim. Por que vocês acham que Versalhes tinha e tem jardim fantásticos????

O avanço da ciência e novas descobertas eliminaram o conceito de miasma (de que as doenças vinham pelo ar) e se passou a enxergar de maneira cientifica e metodológica os problemas de higiene.
Os sanitários e banheiros ficavam normalmente separados, até hoje é possível ver esta separação em apartamentos franceses e americanos. No caso brasileiro, no início estavam separados, mas na sua inserção no interior das residências já se fez a unificação.

O século XIX verá surgir as novas atitudes higienistas, vindas a partir da Alemanha irá se estender por toda Europa e o mundo. A Inglaterra irá iniciar a instalação de esgotos em Londres depois do terrível ano 1858, quando a sessão do parlamento teve que se fechado, por conta do cheiro fétido do esgoto jogado no rio Tamisa.

Esta onda higienista fará diversos países investirem em redes de esgotos de grandes capacidades. Londres, Munique, Paris e Rio de Janeiro passam a contar com uma rede de escoamento de esgoto, o que rapidamente trará os sanitários para dar maior conforto, próximo ou mesmo dentro de casa.
Uma revolução sanitária coloca o mundo na trilha correta e milhões de mortes são evitadas, embora ainda que hoje, por falta de saneamento, continue a trazer a tragédia a diferentes países.

No século XXI, mudanças de grandes dimensões começam a ocorrer nos banheiros, é depois da cozinha a área da casa a receber maiores impactos tecnológicos e inovações.

O conceito meramente sanitário se expandiu e a noção de bem-estar é cada vez mais presente. O banheiro passa a ser um “spa” doméstico.
A palavra SPA, um topônimo, vem da cidade de Spa, próxima a Liége, Bélgica. É uma cidade conhecida desde a antiguidade por suas águas termais e curativas. Aquae Spadanae, denominação possivelmente relacionada com “spargere” (em latim, ‘lançar aqui e ali, espalhar’ (gotículas)Existe uma falsa etimologia, que sugere que Spa significaria Sanitas per Aquam, não existe fundamento etimológico para isto.
Existe na Inglaterra uma cidade com o nome de Bath, uma antiga dominação romana, famosa por suas construções de banhos públicos e águas termais também.

A vida moderna com suas inúmeras interações pede que haja um momento de repouso no retorno ao lar. Já há alguns anos que a casa vem se modificando e se fundindo. A cozinha se fundiu com a sala, desapareceu a sala de visitas, e o quarto, uma invenção recente (1660) se mesclou com o banheiro. O cômodo que até pouco ficava fora da casa, está ao lado da área de repouso.

Bacias com capacidade de análise médicas e com conexão com a internet lançam informações sob o estado de saúde seus usuários. Os chuveiros vêm dotados de diferentes pressões e chegam a ter iluminação de led para as terapias de cromoterapia. Sistemas de aquecimento, seja solar ou promovido por células fotovoltaicas (para a eletrificação, bombas pressurizadoras e sistemas computacionais) elevam a qualidade do banho a níveis nunca vistos. A introdução em breve de pisos, com capacidade de armazenamento de dados, como peso, controle de temperatura e muito mais, estarão em breve no mercado. Utilização de banheiras, a partir da utilização de resinas, modificou as antigas e pesadas banheiras de ferro. Mecanismos de pressão e jatos d’água transformam a simples limpeza do corpo, num verdadeiro tratamento de saúde.

Vale a pena conhecer algumas das novidades que estarão presentes nos banheiros em breve:


https://nebia.com/pages/nebia-products
https://evadrop.com
https://skarptechnologies.com/https://www.us.kohler.com/us/Kohler-Introduces-Voice-Command-Technology-Into-The-Bathroom,-Announces-New-Smart-Home-Products-With-%E2%80%98KOHLER-Konnect%E2%80%99/content/CNT131200001.htm

https://www.electricmirror.com/mirror-tv-glass/


UMA ARQUITETURA DE M*RDA PARTE I

UMA ARQUITETURA DE M*RDA

O conforto para nossas necessidades fisiológicas só encontrou lugar muito recentemente, nos nossos banheiros modernos.
O banheiro tem uma longa história, mas grande parte dele fora de casa.
No caso brasileiro principalmente o banheiro entrou muito recentemente em nossas casas. Foi somente a partir do século XX, que este espaço passou a fazer parte do corpo da residência.

Quando nos abandonamos a caça e coleta a 12.000 anos atrás a necessidade de se segregar esta atividade surgiu. Mas não a palavra!
Caçadores-coletores caminham em média 12km por dia, suas necessidades são feitas ao longo do caminho e não há necessidade de um espaço físico para isso. Nem a palavra também.
A fixação dos humanos em determinados locais, fruto da agricultura, não trouxe, ao contrário do que se pensa, vantagens iniciais, para aqueles que a adotaram. A proximidade dos dejetos contaminou a água e trouxe doenças. Ao cabo de alguns milênios os primeiros agricultores chegaram a diminuir 10 centímetros em sua estatura. Fruto da monocultura e do déficit alimentar e de doenças dizimantes.

A primeira coisa a ressaltar o tabu linguístico que envolve a palavra. Tabu linguístico é quando evitamos pronunciar uma palavra, seja por conta da moral, proibições, medos e superstições, e a substituímos por outra, número 1 e número 2 por exemplo.
No caso do banheiro, local para tomar banho, evita-se dizer as outras atividades ali desempenhadas por mero recato de se explicitar o que acontece lá dentro.

Etimologicamente banheiro é o local do banho. Em praticamente todas as línguas o tabu se repete. Water closet, restroom, salle de bain, hammam, Badezimmer, sempre se referem ao banho.

As palavras em português retrete e mesmo latrina se referem a um espaço restrito, mas não diretamente a função de evacuar (um dos sentidos de lav- latino é escoadouro). A razão para não haver ou haver referência, é que o banheiro não era conhecido na antiguidade como nós os utilizamos agora.
Quando analisamos o período greco-romano não encontramos o banheiro inserido dentro das habitações, simplesmente não havia um local como nossos banheiros. A exemplo dos tigres1 brasileiros existiam os επιστάτες κοπρώνων (epistátes koprónon, os cuidadores de excrementos). Provavelmente recebiam dinheiro para retirar os dejetos das casas e o revendiam para fazendeiros para a produção de fertilizantes.
Palácios e residências dos poderosos podiam contar com sistemas de esgoto e drenagem, mas isto era inacessível a maioria da população. Existem referências de 3000 AEC2 em Knossos, Creta de sistemas de descargas com água em fluxo.

Os gregos não possuíam uma palavra específica para banheiro, aliás nem havia na casa um local exato para isto. A palavra τουαλέτα (toualéta) é um empréstimo do francês.

No período romano, foi desenvolvido um amplo sistema de fornecimento de água, através dos aquedutos e a construção de locais para o despejo de dejetos humanos, a Cloaca Máxima. Os romanos possuíam os banhos públicos, que forneciam local para o asseio do corpo, conversas e privadas. A figura abaixo mostra a razão da conversa ter entrado no meio da história. Os romanos levaram aos mais distantes rincões do império suas técnicas, ciência e conhecimentos com a água.

Os romanos não tinham em casa, banheiros. Eles em geral iam aos banhos públicos. Era uma atividade além de higiênica, social. Se conversava enquanto de desempenhavam as atividades, digamos primarias.

 

PRIVADAS PÚBLICAS ROMANAS

 

Um outro fato curioso entre os romanos, é que havia coleta e compra de urina. Utilizada na limpeza das roupas!!!(por conta das qualidades da ureia) e sua utilização no tingimento e fixação de cor nos tecidos.

O judaísmo, tem uma forma de utilização dos banhos como forma de purificação: mikveh. A imersão em água seja para a conversão, rituais de purificação. O banho é um aspecto ritualístico da religião.

Na religião católica não há um rito sobre o banho, a não ser o batismo. A religião não desenvolveu um processo ritualístico que envolvesse o banho ou que tivesse outros aspectos ligados a higiene.

Os árabes irão receber esta influência e junto com os ensinamentos do islã iram estabelecer regras restritas de limpeza. A prece, um dos pilares do islamismo, obriga seus praticantes a se lavarem antes das 5 preces diárias. A partir das cruzadas eles influenciaram o ocidente com o retorno dos banhos públicos que haviam desaparecido após a queda do Império Romano.

Eles seguem rigorosos preceitos do Wudu, que indica como e que partes devem ser lavadas antes das preces. Isto envolve não so as partes visíveis do corpo, bem como as íntimas.

(continua…)

1. Escravos que no Brasil, transportavam toneis de excrementos para serem jogados no rio ou mar.

2. AEC e EC Antes da Era Comum e Era Comum, é utilizado pela comunidade cientifica e é mais inclusivo do que AC e DC.


A ARQUITETURA DO LIXO

A ARQUITETURA DO LIXO

 

Nós somos produtores de uma quantidade enorme de lixo. Em média 383 quilos por pessoa por ano. Ou aproximadamente 1 quilo por dia. Para uma cidade como Campinas é uma montanha de lixo todos o santo dia!

O lixo sempre representou um problema mal resolvido pela civilização. Os romanos, em 200 EC já havia um serviço que se assemelhava ao que hoje temos como os lixeiros. A nossa palavra lixo é de origem etimológica controversa e obscura, teria se originado através da palavra lixívia, um produto desinfetante, na antiguidade produzido a partir das cinzas e soda cáustica, hoje aqui conhecido como águia sanitária.

O lixo é uma forma de descarte de material que sempre foi problemática nos agrupamentos humanos. A imagem de inferno como um local com fogo e cheirando a enxofre se deve ao lixão de Jerusalém, mais conhecido Geh Ben-Hinom ou literalmente “Vale do Filho de Hinom” que  é um vale em torno da Cidade Antiga de Jerusalém, e que veio a tornar-se um depósito onde o lixo, animais mortos e os corpos de crucificados(sim, ele pode ter sido jogado lá!) eram incinerados. O enxofre alimentava um fogo perpétuo no local.

O lixo até o século XIX era jogado diretamente nas ruas e calçadas. A expressão de alerta: água vai! Era o único aviso de que mijo estava sendo jogado, quando não coisa pior.

Somente a partir de 1875 se tornou público o serviço de coleta de lixo, na Inglaterra.

No Brasil durante muitos anos, um serviço infame, era conhecido como “tigres”, escravos que carregavam tonéis cheios de estrume humano, estes vazavam e manchavam os corpos, daí o apelido. Mas o lixo como restos de alimentos e descartes eram jogados nas ruas.

Em 1876 poder-se-ia dizer a data da implantação do serviço de limpeza pública no Brasil, através da contratação de uma empresa privada para a execução do serviço, a empresa de Aleixo Gary (sim, a palavra gari é derivada do nome dele), isto no Rio de Janeiro.

Se olharmos o outro lado do mundo, veremos o Japão, como uma outra forma de encarar o lixo. Lá a responsabilidade pelo lixo é total para os moradores. Ou seja, você deve dar cabo de seu lixo, e colocá-los corretamente nas latas de lixo correta, ou corre o risco de ver seu lixo devolvido. O caminhão de lixo, pode passar semanalmente, quinzenalmente, mensalmente ou até anualmente, de acordo com o tipo de lixo disposto. Todo cidadão tem um manual de lixo. O manual tem só 42 páginas!

A partir das preocupações higienistas do século XIX este panorama vem se alterando lentamente. E somente a partir das preocupações ecológicos, já nos anos 60 do século XX, é que o lixo começa a ser encarado nas suas verdadeiras dimensões.

A arquitetura ainda não enfrentou este problema de cara. Não possuímos uma solução adequada dentro de casa para a eliminação e descarte da enorme quantidade de lixo que geramos. A separação de tipologia de lixo, o reaproveitamento e reciclagem são extremamente baixos.

É evidente que um trabalho de mudança de hábitos e educação ambiental é fundamental, mas este não é um problema específico para a arquitetura.

As soluções que surgem em geral são exógenas, ou seja, vem de fora da residência, aí seria interessante criar um novo espaço “usina de lixo” ou “área de lixo” fazendo um paralelo com a área de serviço[1]. Uma área destinada ao tratamento do lixo que produzimos. Este espaço poderia separar de maneira eficiente o lixo, reciclar, produzir compostagem enfim processar o lixo de maneira mais eficiente.

Fig.1 Triturador da Insinkerator (produto disponível no Brasil)

Hoje existem equipamentos que podem auxiliar de forma eficiente o tratamento do lixo em casa. O primeiro são os trituradores, que moem parte do lixo orgânico e facilitam e diminuem os trabalhos de limpeza do esgoto. Seu uso massivo traria enormes benefícios aos serviços de tratamento de efluentes e esgotos.  Eles são 70% água e seu consumo é baixo. Diminuem a produção de metano, evitando que grande parte do lixo orgânico chegue aos lixões. Deveriam ser obrigatórios nas residências a partir de um certo porte, e subvencionadas a aqueles que não podem pagar. O financiamento viria dos recursos economizados com os serviços de lixo.

A compostagem caseira, é de fácil construção, um balde furado e pedrisco areia e folhas. Uma sofisticação desse equipamento pode ser vista na fig2. É um produto[2] que os americanos desenvolveram e seu uso tem crescido nos últimos anos. Diversas inovações tem surgido com a crescente preocupação com o lixo.

Fig.2 The FoodCycler FC-30

fig.3 Zera, máquina de compostagem, da Whirlpool

Os produtos são desenvolvidos por grandes corporações e por pequenas e inventivas. Com a utilização de ingredientes ou não. Os arquitetos deverão em breve prever estes equipamentos nas cozinhas. As cozinhas são o espaço da casa que mais tecnologia tem recebido. E pouca atenção tem sido dada, uma vez que tudo é eletrificado, os arquitetos tem poucas preocupações com pontos de energia e dados nas cozinhas. A colocação de roteadores sobre as portas de cozinhas se tornara mandatório em pouco tempo.

 

 

 

 

 

 

[1] A área de serviço guarda este nome em função não ao serviço, mas a serviçal que executava ali seus trabalhos. A verdadeira área de serviço é a casa toda, que demanda trabalhos de limpeza e manutenção.

[2] Para ver mais aqui https://www.youtube.com/watch?v=DdJSBZn3ehU e aqui: https://www.youtube.com/watch?v=1MpM8fq73G8 e aqui: www.insinkerator.com


ARQUITETURA SEM EIRA NEM BEIRA

ARQUITETURA SEM EIRA NEM BEIRA

A sabedoria popular diz que alguém sem eira nem beira é alguém que não tem nada, alguém sem lugar para morar, um sem teto, enfim alguém que não tem onde cair morto.
Eira e beira se referem a elementos da casa e do telhado. Eira significa um espaço de terra batida, lajeada ou cimentada, próximo às casas, e o beiral é a parte do telhado que sombreia e protege as paredes.
A arquitetura ultimamente anda sem eira nem beira. Estamos descuidados com pequenos detalhes da arquitetura e de certa forma somos os responsáveis pelos inúmeros erros que tem ocorrido com indesejável frequência nas obras.
Numa visita a um imóvel vi algo que deveria estarrecer qualquer arquiteto ou arquiteta: um telhado de telhado. Sim você leu corretamente, um telhado para proteger o telhado. Como se sabe a inteligência tem limite a burrice não. O imóvel apresentou, logo depois de entregue, diversos vazamentos em razão das chuvas. A solução encontrada pelos engenheiros da obra foi fazer um novo telhado. Temo em dizer que não vai dar certo!
A razão é simples, estão atacando o sintoma e não a doença!
Há muitos anos tive a oportunidade de assistir uma palestra sobre telhados de cobre, de um velhinho, um arquiteto chamado Roberto Leme (não o nosso Robertão Leme, um homônimo), ele me chamou para almoçar. Durante a conversa ele me falou da tristeza em ver que os novos arquitetos estavam desaprendendo a fazer telhados e que somente sabiam fazer telhados planos pela simples razão que ninguém mais ensinava a arte de fazer telhados (sim, existe uma arte em fazer telhados!). O que é uma verdade até hoje. Raros sabem fazer um bom telhado.
Vivemos tempos de drásticas mudanças climáticas (somente os cretinos fundamentais não veem!) A inclemência do tempo tem sido notável, entretanto arquitetos, empreiteiros e construtores não se deram conta.
Dentre minhas incontáveis manias está a de acompanhar o tempo. Temperatura, vento e pluviosidade me interessam. Tenho observado e graças a uma informação do meu amigo Breno Pereira, pude confirmar que as médias mensais de chuva pouco variam, uns tantos milímetros a mais aqui ou a menos ali. O problema surge quando as precipitações se acumulam em poucas horas impossibilitando seu devido escoamento. O que está acontecendo é isto, mudou a quantidade precipitada por hora. Aquilo que caia num mês pode cair em horas. Portanto as condições de escoamento devem ser revistas.
Já tem um tempo que aqui no escritório fazemos a recomendação de se aumentarem as calhas e os condutores para dimensões maiores das usuais. Não raramente, ouvimos: Doutor tem 40 anos que eu faço isto, vai querer me ensinar agora? Pois é, pode ser que estejam fazendo errado há quarenta anos, ou se esqueceram de observar o tempo!


RUIM!? OTAKE

RUIM, OHTAKE!!!

Ó RAÇA!

Casseta e Planeta

 

O grupo Casseta e Planeta, tinha um quadro humorístico, onde eles criticavam, diversos grupos por suas ideias, formas de pensar e agir, de associação e ou preconceitos. Sempre terminavam com o bordão: Ó raça!

Significando que no fundo um grupo se defende dos outros, reagindo coletivamente, quando surge uma crítica ou ameaça. O silencio também é uma forma de reação. Arquitetos em geral tem espírito corporativo, não criticando e endeusando, quando não a si próprio, o mito de plantão (não falo dele tá?).

Arquitetas e arquitetos muitas vezes (não todos!) se acham acima de outros profissionais e não raro até das outras pessoas. Em muitos casos, se acham a última bolacha do pacote!

Mas é de se espantar o comportamento de alguns deles. Neste domingo passado, 07/04/2019 a Ilustríssima da Folha de S. Paulo, publica o depoimento de Ruy Ohtake, na coluna Memorabilia[1]. Esta coluna publica dominicalmente personagens da cultura que comentam obras e trabalho que, em certa medida, influenciaram seu trabalho.

Memorabilia, etimologicamente falando, se refere a memória, é um quase eu me lembro. Mas, em geral, se refere ao conjunto de elementos que suscitam a nossa lembrança e que de alguma forma impactam e transformam as nossas ações.

No título do artigo e no começo do texto, Ruy usa um polemista, Nassin Taleb[2] para falar de evolução. O arquiteto usa isto para dizer que a evolução da arquitetura paulista se deu por conta de seus traços, que representariam um avanço no sentido de adaptar a arquitetura a um ambiente que se modificou (é disto que a teoria da evolução trata).

Essa ideia da evolução aos saltos não é dele e sim de um biologista e paleontólogo que criou uma hipótese para a evolução, não como algo lento e gradual, mas que acontece aos saltos. Steve Jay Gould[3], desenvolveu a teoria do Equilíbrio Pontuado. Essa teoria diz que a evolução ocorre de maneira ligeira (aos olhos do processo evolutivo, que é de milhares ou milhões de anos) em um curto período.

O artigo é no fundo a exaltação de um arquiteto a seu próprio trabalho, ele faz referências a Niemeyer e Le Corbusier, o que é natural para um arquiteto. Não se deve considerar os mortos donos de uma santidade que não possuem. São arquitetos estelares, mas cometeram erros, que raramente são analisados ou levados em conta.

As aulas de projeto, na faculdade de arquitetura passavam um semestre inteiro analisando uma obra de Corbusier, sua famosa casa Villa Savoye, Paris, base do movimento modernista. Em momento algum os professores levantaram os problemas que aquela casa apresentou ou foi feita alguma crítica. O arquiteto foi salvo de um rumoroso processo, pelos proprietários da casa, por conta da II Guerra Mundial[4].

Mas o artigo de Ruy Ohtake ataca alguns pontos que são importantes comentar.

Primeiro ele diz que sua obra provocou saltos, no sentido evolutivo e qualitativo, na arquitetura paulista. É pouco provável! Ele tem raríssimos seguidores e sua arquitetura a par de ter um poder visual enorme na pobre paisagem paulista, beira o boco-moko, com suas cores exuberantes e descombinadas. É importante ressaltar que a evolução também faz experimentos teratológicos, que são eliminados posteriormente.

A obra do hotel Unique, esta sim, tem um impacto positivo, de extremo bom gosto e soluções formais impactantes, digna de ser uma referência mundial da arquitetura, o que não é pouco. Mas a falta de humildade do arquiteto, choca ao se comparar, aos dois maiores ídolos da arquitetura nacional.

Ele tem razão, ao apontar a falta de criatividade de arquitetos nas soluções de fachada e de interiores (não estamos falando de decoração). Os projetos neste século XXI, deixam em muitos aspectos a desejar. Mas é quase impossível falar de falta de criatividade quando se fala, por exemplo em Tryptique, o escritório franco-brasileiro de arquitetura, ainda que seus interiores nem sempre reflitam uma modernidade requerida. Suas concepções e fachadas apresentam soluções revolucionarias sim, trazendo impactos na forma de ver e fazer arquitetura. Faltam a muitos arquitetos as noções de como as casas funcionam, qual é a logística interna e entender as violentas modificações implementadas nos últimos anos pelas diferentes tecnologias. Inclusive na forma como as pessoas usam a casa e como são formadas as novas famílias.

No artigo, ele se coloca na vanguarda da arquitetura brasileira, acusando seus pares de não reconhecerem a importância de sua obra, sendo ele então, apenas reconhecido e aplaudido pelo povo, esse ente etéreo que todos citam e poucos representam.

Ruy Ohtake é um daqueles que brigam pela primazia da curva, como se fosse algo patenteável. Oscar, ele e um certo arquiteto aqui da região de Campinas, se arvoram no domínio da curva como elemento vital e fundamental da arquitetura. De fato, o é, mas não na preposição que eles colocam.

O projeto de Heliópolis tem uma das piores salas da arquitetura contemporânea paulista. ¼ de círculo, duas portas e uma abertura para a copa-cozinha. Os quartos tem uma face curva que impede a colocação de móveis na parede. Mas tem um aspecto interessante, suas fachadas, realmente, são bonitas e só. É como bolo de casamento, bom só para ver.

Os arquitetos devem ter noção de sua insignificância. O tempo é implacável, uma maravilha de arquitetura será reverenciada por séculos, as ruins serão esquecidas e reduzidas a pó. Nós arquitetos contemporâneos produzimos obras que com sorte durarão dezenas de anos somente.

A Basílica Santa Sofia, uma antiga catedral de Constantinopla, atual Istanbul, foi erigida no século VI, e pasmem, em apenas 5 anos, de uma beleza arquitetura a toda prova[5] , é visitada por milhares de pessoas que se maravilham com seus pilares, domo e dimensões grandiosas. Quem sabe o nome de seus arquitetos, quem conhece suas histórias? o que ela representa em termos de inovação construtiva?

As obras dos arquitetos, permanecem anônimas para quase a totalidade da população. A história só dará credito a aquilo que importa. Ao resto, ruínas.

A propósito, Santa Sofia não foi feita por arquitetos[6] !

[1] Memorabilia fatos ou coisas dignas de memória, segundo Houaiss.

 

[2] Nassim Nicholas Taleb é um economista libanês que vive nos EUA, autor de livros onde explora eventos fortuitos na economia e na vida, entre seus livros se encontra “A Lógica do Cisne Negro”. Até a descoberta da Austrália no século XVII, imaginava-se que somente existiam cisne brancos, a descoberta acidental dos cisnes negros alterou de maneira repentina a visão que se tinha do pássaro. Taleb usa esta metáfora para falar de eventos que ocorrem de maneira imprevista.

 

[3] Steve Jay Gould biólogo e paleontólogo, é um dos autores da teoria do Equilíbrio Pontuado que explica que a evolução ocorre de maneira acelerado em períodos muito curtos em saltos por conta de eventos cataclísmicos.

 

[4] BUTTON, Alain de. Arquitetura da Felicidade. Editora Rocco

[5] Após a queda de Constantinopla,1453(data que dá início a era moderna, encerrando a idade média) seu conquistador, o sultão Maomé não deixou que fosse destruída e a transformou numa mesquita.

 

[6] O imperador Justiniano escolheu o médico Isidoro de Mileto e o matemático Antêmio de Trales como arquitetos no século VI EC (Era Comum).

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CLIENTE: QUE DIABOS É ISTO?

CLIENTE: QUE DIABOS É ISTO?

A palavra cliente tem sua origem no latim, cliens-entis, aquele que estava sob a proteção de um patrono.
As coisas mudaram muito desde então. O cliente hoje, é o patrão. Acontece que grande parte de suas demandas, ou não são bem claras ou ele tem uma visão incompleta de suas necessidades, no caso pior o arquiteto não consegue compreender claramente suas necessidades.
O primeiro fato é que não há no curso de arquitetura uma cadeira chamada ‘cliente 1.1” que seria uma forma de entender esta figura e melhor compreender e resolver seus problemas.
O cliente é complexo, difuso e confuso. Me lembro claramente trabalhando com Ricardo Badaró e Roberto Leme de um cliente para qual eles estavam desenvolvendo um projeto, térreo, quando a esposa do cliente pediu uma escada que ela havia visto na novela. Não houve quem a demovesse da escada. O projeto virou um imbróglio tão grande que o projeto não avançou. Num outro caso o cliente queria uma série de portas pois ele não queria que o filho tivesse acesso ao quarto dele. Ele pediu para colocar um terceiro pavimento, para poder colocar, um corredor e novas portas afim de dificultar o acesso.
O arquiteto se depara com estas questões no seu dia a dia e nem sempre estamos preparados para lidar com estes casos de maneira correta. As vezes os casos são mais simples, um problema técnico ou apego a velhas tecnologias. Tivemos um cliente que não queria trocar as lâmpadas da vitrine de sua loja que estava sendo reformada. A substituição por leds, explicamos nós, não tinha somente a função de economia, mas substancialmente a melhoria da visibilidade de seus produtos. É sabido que locais melhores iluminados podem alavancar em até 20% as vendas. Não é só isto.
Locais mal iluminados reduzem a capacidade e desempenho dos funcionários em até 15%, por hora! Junte-se a este ambiente, ruído, pó, temperatura, ventilação e iluminação e você começará a entender a baixa produtividade do trabalhador brasileiro. E tente explicar ao cliente estas consequências em relação as opções ofertadas pelo arquiteto. É raro que ele opte pela melhor. A opção é quase sempre a mais barata.
Uma conta simples, um projeto sem arquiteto pode levar o cliente a executar um programa maior do que ele precisa. Por exemplo, uma casa que poderia ter 200m² ter 220m², esta pequena diferença pode custar R$70.000,00., que é mais que o suficiente para pagar um bom arquiteto e sobrar ainda.
Como tudo nesta vida tem um lado bom e um ruim (menos o disco do Orlando Moraes). Há arquitetos que provocam gastos, desnecessários ao cliente. Mas estes são os maus profissionais.
A arquitetura deve ser clara, transparente e eficiente aos olhos do cliente, não há que se ocultar coisas para o cliente.
É o caso das famigeradas “RT”, reserva técnica. Que corresponde a um determinado valor que vai para o arquiteto que indicar ou comprar o produto numa determinada loja. Já se sabe que este tipo de oferta, além de representar uma falta de ética para com o cliente, representa uma falta grave da profissão passível de punição. A solução a meu ver é simples, aviso na porta, 10% de desconto para o cliente com arquiteto. Não há desconto para cliente sem arquiteto. A relação fica clara e transparente. E não prejudica o cliente. O arquiteto não pode viver às custas de RT, ao aceitar isto, desvaloriza o projeto e rebaixa toda a profissão. Não é um benefício a todos.
O cliente precisa entender que o trabalho custa e não há risco zero. Empresários do setor da construção precisam entender que o arquiteto é um dos seus mais valiosos ativos. Construtoras precisam entender que o arquiteto tem valor igual ou superior ao corretor (não é um julgamento de valor), pois é através de seu projeto que ele movimenta sua obra.
O desprezo pelo trabalho do arquiteto tem levado a uma desvalorização da profissão.
O cliente também é responsável por isto!