MUROS E PAISAGISMO

MUROS E PAISAGISMO


“Even paradise could become a prison if one had enough time to take notice of the walls.1
Morgan Rhodes

Confesso que não sou muito apegado a nenhum dos dois. Apesar de ser arquiteto e de trabalhar num escritório que dividimos, com paisagistas de primeira, e somos amigos de grandes nomes do paisagismo da cidade (são na verdade, de nível internacional) não sou apaixonado por jardins privados (dão um trabalho danado para cuidar, e não sou chegado a este tipo de trabalho), mas reconheço sua importância fundamental na arquitetura.

Também não sou chegado a muros! Morei vários anos numa casa que não possuía muros e cuja porta para a rua ficava aberta a noite toda. A expressão do filosofo Thomas Hobbes 2, inglês do século XVII, vem bem a calhar: a trava na porta já foi um erro! Significando que a segurança deixou de ser função do estado, e passou a ser uma atitude de guerra e de desconfiança, a guerra de todos contra todos. Os muros representam uma separação incomoda entre o público e o privado, mas não é necessário um objeto físico para estabelecer esta relação.

Na recente viagem que fiz, a Portland 3 EUA, fiquei impressionado em ver uma cidade, que além de não ter muros, parece ser formada de jardineiros.
Todas as casas, com raríssimas exceções, possuem jardins muito bem cuidados e de uma beleza capaz de chamar a atenção de qualquer um, mesmo quem não goste de jardins. É a cidade mais arborizada dos Estados Unidos. E a função não é somente a beleza, mas fundamentalmente contribui para o silencio da cidade. Diferentemente da balburdia das nossas cidades, Portland se destaca pelo seu silencio incomum, ao menos para uma cidade de suas dimensões (ver post sobre o som do silêncio).

A palavra jardim, tem seu significado etimológico, de lugar cercado e guardado, muito provavelmente se refere a um local de plantas e legumes, separado para evitar acesso de animais ou pessoas. Assim jardins e muros, mantém uma irmandade semântica. Mas diferentemente dos jardins cercados que temos por aqui, em Portland eles chamam atenção por serem sem cercas. Nas ruas e avenidas se encontram casas sem muro algum, as vezes lateral, mais para demarcação e cerca de animais.

Em Campinas o primeiro condomínio 4 fechado data de final dos anos 60, feitos a partir das ideias do empreendedor Brás Soares, que lançou vários outros. Tendo recebido um folheto, numa viagem ao exterior, achou que seria uma boa ideia para Campinas. O primeiro foi aprovado em 1974, possuía apenas 74 lotes mas muito provavelmente seu projeto data de final dos anos 60. Ele se juntou a um grupo de médicos e empresários e lançou o Sítios de Recreio Gramado(conhecido mais como Chácaras Gramado) e posteriormente Alto da Nova Campinas entre outros. A ideia inicialmente do Chácaras Gramados era um local sem muros, a ideia funcionou durante os anos iniciais e acabou por se perder, hoje praticamente todo o condomínio é resguardado pelos muros que o cercam as residências e guardam seu jardim com um portentoso e por vezes intransponível muro.

O Brasil não é um país em que a tarefa de jardinagem seja ocupada pelo proprietário. Em geral, face a disponibilidade de mão de obra barata (nem tão barata assim, o trabalho de jardinagem de um terreno de 350 m², incluindo a residência, pode custar até 300 R$ por dia), o trabalho fica a cargo de jardineiros, cujo desconhecimento, em muitas das vezes, se resumem a cortar a grama e aparar as folhagem.

Diferentemente de Portland parece que a cidade inteira é constituída por habilidosos jardineiros, ciente e conhecedores de cada planta e arbusto. A ausência do muro possibilita ao compartilhamento de cada jardim, contribuindo para a sensação de beleza da cidade.

residência Juliana e James Peterman

A ideia de muro, ou de demarcação de propriedade data da introdução da agricultura, 10.000 anos atrás, e visava a demarcação de propriedade e áreas de cultivo e pastoreio. É a instituição da propriedade privada. Nos estados Unidos é fácil encontrar a placa “Não transpasse, propriedade privada”, com a anuência da lei violações desta regra permitem ao proprietário atirar em quem ultrapasse. Um infeliz presidente parece crer nisto e tenta transplantar esta nefasta ideia.
Os muros impedem a visão dos jardins, assim a beleza destes não é vista. Existem estudos que comprovam que casas com muros são mais sujeitas a assalto do que as que não tem contrariando o senso comum. Inclusive há um estudo 6 indicando que locais onde o porte de arma é livre, há uma chance maior de roubos:

“Owning one or more firearms may make you feel secure against a burglary threat, but the reality is very different.
A study published by the National Bureau of Economic Research has shown that burglary rates tend to increase when more homeowners in a particular community own guns.”7

Assim como alerta vale lembrar que armas não garantem um segurança maior. Bom, a bem da verdade nem muros nem condomínios fechados. Nos últimos anos vimos uma serie de assaltos, contrariando a pretensa segurança. Isso somente fez uma indústria de segurança ganhar mais, sem que seus resultados sejam uma garantia de uma vida melhor. Em princípio, condomínios deveriam ser locais mais calmos para se viver. A busca não seria só por segurança, mas uma maior tranquilidade e a possibilidade das crianças voltarem as ruas.

Em Portland é interessante ver um grande número de condomínios e existem até com muros, mais na sua grande maioria estão abertos junto ao estacionamento. Projetos semelhantes aos de Pequenas Vilas, aqui em Campinas, vê-se aos montes. Diferentes formatos de habitação são encontrados, como estúdios, 1, 2 e dormitórios em configurações um pouco diferentes da nossa, que em geral estão em um mesmo edifício. E não segregados como os nossos, onde cada edifício possuiu quase que sempre uma mesma configuração.

É provável que a partir de agora possamos ver estas novas configurações 8 em edifícios que estejam surgindo.

Mas é interessante observar que fora dos condomínios nossas residências tenham pouco cuidados ao jardim. Eu mesmo, morei numa casa, onde o proprietário retirou o jardim, e cimentou a área – só dava trabalho. Foi a sua justificativa.

Os jardins sem sombra de dúvida humanizam e embelezam o espaço público e melhoram nossas residências. A retirada dos muros melhoraria a segurança e o convívio com as pessoas.


REFERÊNCIAS

1. “Até o paraíso pode se tornar uma prisão se alguém tiver tempo suficiente para notar os muros.” Morgan Rhodes escritora de livros de fantasia.

2. Thomas Hobbes filosofo inglês autor de “O Leviatã” obra que fala sobre a relação dos cidadãos, seus contratos sociais e o estado.

3. A cidade de Portland, capital do Estado de Oregon, noroeste dos EUA, tem 639.000 habitantes, a zona metropolitana por volta de 2.000.000 de habitantes

4. Ver aqui: http://www.campinas.sp.gov.br/governo/seplama/planos-locais-de-gestao/doc/cadmz8.pdf

5. Sítios de Recreio Gramado, a denominação se deve a dois fatores, o primeiro é que não havia uma legislação específica para condomínios, a segunda é que o parcelamento de solo em áreas de 5.000 metros quadrados era para chácaras.

6. Veja aqui: https://www.creditdonkey.com/why-burglars.html

7. “Possuir uma ou mais armas pode fazer você se sentir mais segura diante as ameaças de roubo, mas a realidade é ao contrário.
Um estudo publicado pelo Escritório Nacional de Pesquisa Econômica mostrou que os índices de roubos tendem a ser mais altos quando proprietários de uma comunidade possuem armas. Ver item 6, razão 19.

8. Posso estar errado, mas creio que o primeiro edifício com diferentes configurações, só surgiu em 2018, com o edifício da MaxHaus, que combina uma planta básica de 70 m² com diversas possibilidades de 1 a 4 dormitórios.


SOM DO SILÊNCIO

O SOM DO SILÊNCIO


“When I pronounce the word Future,

the first syllable already belongs to the past.

When I pronounce the word Silence,

I destroy it.”1

Wisława Szymborska

Uma coisa fácil de se notar e que vivemos numa sociedade extremamente barulhenta; carros, cães, ônibus, vento, chuva, pessoas falando e ruídos de fundo. Tudo isto faz da cidade um inferno sonoro.

Mas em primeiro lugar uma coisa precisa ficar clara, não existe silencio!

Nossa condição humana não permite que fiquemos sem ouvir sons (excluindo os casos de surdez). Nossa constituição mantem a audição sempre em alerta. Se você entrar numa câmara anecoica , você começará ouvir seus ruídos, coração, pulsação, movimentos peristálticos enfim todos os ruídos que fazemos, mas nosso seletivo ouvido não retém.

Em geral consideramos que o nível de 40-50 decibéis como silencioso, mas efetivamente não e, ouve-se sussurros e baixos ruídos. Isso se deve a uma labilidade moderna, considerando que não podemos viver sem um nível de barulho.

Sussurro 20 dB
Conversa normal 50 dB
Liquidificador 85 dB
Ipod 115 dB
Avião durante a decolagem ou um trio elétrico 130-140 dB
Importante: O limiar da dor está em 120 decibéis.

Nosso ouvido ouve dentro de um limite de 20 a 20.000 Hz. Que é uma faixa pequena se compararmos com os cães, que em geral ouvem até os 40.000 Hz. Ouvem o que nós não podemos ouvir. Aqueles apitos silenciosos que treinadores usam, por exemplo.

Mas as arquitetas(os) dão pouco valor ao silencio!
O uso de proteção adequada nas casas, ambientes de trabalho e principalmente em bares e restaurantes e quase inexistente. Não é raro o proprietário de um bar ou restaurante gastar um milhão na feitura de bar e se recusar a gastar 10 ou 20 mil na proteção acústica.

Níveis de ruído acima do indicado, reduzem a capacidade de trabalho a razão de 20%, por hora!!! Ou seja, 5 horas de exposição ao ruído a produtividade tende a cair a zero! Como os departamentos de recursos humanos tratam isso ou não e se tratam não se sabe.

Estudos mostram que pessoas sujeitas a exposição de ruídos altos e contínuos e perda de audição tem mais chances de sofrer ataques cardíacos do que as outras pessoas. Nos ambientes de trabalho os efeitos são mais dramáticos pois nem sempre a solução está ao alcance. Ar condicionado, impressoras, pessoas falando, ruídos externos e de fundo e soluções inadequadas de acústica pioram em muito as condições de produtividade. Mas o ruído muitas das vezes e visto como uma coisa natural advinda da neutralidade do edifício. O ambiente nunca é neutro e sempre há consequências para as pessoas. Nós arquitetas(os) deveríamos dar uma atenção muito maior a fim de garantir um ambiente menos ruidoso e mais saudável.

Nossas casas e apartamentos não possuem proteção adequada ao avanço dos ruídos, cada vez maiores nas nossas cidades. Enquanto na Europa e EUA, se utilizam isoladores e vidros até quádruplos no Brasil nenhum investidor ou construtor está muito preocupado com isto. Nossas residências e nossa qualidade de vida ganhariam muito e numa situação em que projetássemos com maior rigor estas questões.

Uma das prováveis razoes para a rejeição ao dry-wall pode estar na falha de não termos paredes que sejam acusticamente eficientes. Isto não se deve a defeitos de material, mas sim a nossa incompetência em providenciar as devidas proteções. Som é como água penetra por todos locais possíveis. Quando olhamos o que é feito no exterior podemos ver que todos os fechamentos estão vedados, portanto, o som não escapa. No caso do Brasil se deve a desconhecimento e uma certa laxidão com os detalhes.

Uma coisa notável, nos EUA, pelo menos aqui em Portland, onde estou em visita, é o silencio nos locais públicos e no trânsito. Ao entrar num restaurante, grandes lojas em shopping uma coisa chama a atenção é a falta de barulho. Você caminha entre as diferentes áreas do supermercado, mesmo com música ambiente, o ambiente e silencioso.

Eventualmente o de ser também um aspecto cultural, sempre que você ouve pessoas falando um pouco mais alto são ou brasileiros ou latinos (mexicanos, colombianos, equatorianos etc.). Nós falamos mais alto e somos mais agitados.
Nas ruas e outro aspecto digno de nota, o quão silencioso é. Não se ouvem buzinas, brecadas ou arrancadas. Raro alguém brigar no trânsito, mas acima de tudo chama a atenção o silencio. Carros silenciosos, caminhões que deslizam sem o menos ruído, motos de grande potência que passam ronronando ao seu lado, e capaz de chamar a atenção de qualquer.

Uma coisa que deveríamos ter no asfalto(voltaremos a este assunto num post futuro) e a adição de borracha de pneus, o que representaria uma solução para montanha de pneus descartados a cada ano e ainda diminuiriam em muito o ruído da estrada, seja para os motoristas seja para quem vive nas cercanias das autoestradas. Em reportagem no site G1 informa que no “sistema Anchieta-Imigrantes, 88 km já estão cobertos com o asfalto borracha, e 360 mil pneus velhos foram reaproveitados desse jeito. O asfalto borracha é 30% mais caro que o comum, mas as vantagens compensam”. A viagem se torna mais silenciosa, mais segura, uma vez que o spray de água dos pneus e reduzido. Isto produziria não só uma rodovia mais silenciosa, mas uma cidade mais silenciosa.


REFERÊNCIAS

1 Brincadeira com a placa, colocou um adesivo no local de perigo e a leitura ficou assim:Não buzine, a não ser com raiva.

2 Uma câmara anecoica (sem eco) é uma sala projetada para conter reflexões, tanto de ondas sonoras quanto eletromagnéticas. Elas também são isoladas de fontes externas de ruído.


VIAGENS

VIAGEM


“The real voyage of discovery consists not in seeking new landscapes, but in having new eyes.”1

Marcel Proust

“A verdadeira viagem de descobertas não consiste em buscar novas paisagens, mas em ter novos olhos”. Escritor francês, século início século XX, autor do livro “Em busca do tempo perdido”

Viajar é uma palavra cuja origem do latim significa via, caminho e estrada. É uma coisa da qual só temos uma certeza: quem vai não é o mesmo que volta.

Estes próximos post serão em função da viagem que fiz a Portland, onde vive minha filha Juliana, casada com James, americano.

A ideia é contar a partir da experiencia de olhar esta cidade tão longe da minha cidade, Campinas e comparar (como se fosse possível!) as duas cidades em buscas de não novos lugares, como diz Proust, mas um novo olhar sobre a cidade. Um olhar não de um turista normal, pois vivi como minha filha vive, ou seja, durante 15 dias pude ser um pouco local, e ver com um olhar um pouco mais acurado a cidade em que ela vive e trabalha e ver as diferenças com as quais convivo diariamente.

Não é um trabalho comparativo, não se comparam cidades que vivem sob condições absolutamente diferentes. É mais a tentativa de olhar aquilo que é bom lá, e que poderia acrescentar algo aqui. Se é que isto é possível.

Serão mais coisas de arquiteto(a) do que propriamente turistas, ou melhor de um turista arquiteto, trazendo olhares sobre as coisas que dizem respeito a nossa profissão.

Na foto abaixo podemos ver área central da cidade e ao fundo o monte Hood, que moldura a cidade. Esta área possuiu edifício de grande altura, com até 30 pavimentos, mas não são muitos e estão concentrados aqui. É possível notar o cinturão de verde que cerca o centro e deste local é possível uma vista de praticamente 360º da cidade.


É isto uma das razões que faz de Portland a cidade silenciosa que é. Uma solução simples e agradável, produz o silencio tão importante e ainda faz o sombreamento da cidade tornando-a mais confortável ainda.

Viajar é, portanto, mais que conhecer, é experenciar o lugar e ter novos olhos para o que a cidade, local ou país possam oferecer.

Transformar uma viagem de férias em uma outra viagem é aquilo que Proust parece nos dizer é abrir os olhos para o novo, o diferente e para aquilo que possa se tornar útil.

Espero que este post, agrade aqueles que por aqui passem!


REFERÊNCIAS

1 “A verdadeira viagem de descobertas não consiste em buscar novas paisagens, mas em ter novos olhos”. Escritor francês, século início século XX, autor do livro “Em busca do tempo perdido”


"POBREMA"

“POBREMA”

“O tempo para reparar o telhado é quando o sol está brilhando.”
John f. Kennedy

Quem começa assim, tem no mínimo dois. Em arquitetura também é assim, raramente temos “um” problema, em geral ele é a decorrência de tantos outros. Como a queda de avião, ele não cai por um erro, mas por uma sequência deles.

A frase do finado presidente americano, apesar da obviedade é exemplar no sentido da prevenção. Algo que não temos e nem fazemos, principalmente em relação aos telhados!

Goteiras são exatamente este caso. Aparentemente é” um” único problema do telhado. Olhado mais de perto veremos que é na verdade a soma de falhas que produzem o evento.
Temos em primeiro lugar o telhado, cujo aprendizado tem sido negligenciado pelas escolas de arquitetura. Em geral só se vê telhados planos, que são o convite ao problema.

O arquiteto1 tem se esquecido de que sua profissão significa, a palavra arquiteto ou arquiteta, é simplesmente o mestre de obra, derivado do grego. Mas não passa disso, alguém que conhece e domina a obra. Os estudantes têm pouquíssimo ou nenhum contato com a construção, não conhecendo os meandros da obra, não consegue antecipar problemas, através da recursividade2, que é uma das etapas do projeto.

O telhado tem como principal função a proteção das intempéries e as variações do tempo e do clima. Ele deve obedecer a inclinações especificas, que não devem ser as mesmas para todas as regiões climáticas do país. Locais com índices pluviométricos maiores devem ter inclinações maiores. Regiões sujeitas a ventos mais fortes devem ter inclinações e amarrações adequadas.

Vale registrar que os índices pluviométricos têm tido uma alteração, não propriamente na sua quantidade mensal, mas uma variação na intensidade. Assim o mês de junho, em Campinas, onde normalmente chove, em média 40 mm, pode chover num dia o total para um mês. Quando isto ocorre os problemas aparecem! O primeiro deles são as evitáveis goteiras, uma vez que são previsíveis e que ocorram, dado aos defeitos de nascença dos telhados.

As calhas representam aqui um outro aspecto. Dimensionadas a coletar a média de água por mês, são incapazes de dar vazão quando se ultrapassa a média e dai para o forro é um pulo. Normalmente solicitamos um aumento nas dimensões das calhas e invariavelmente ouvimos dos senhores calheiros: Doutor não precisa, é muito. Olha que eu faço isso a 40 anos! Pois é, pode ser que estejam fazendo errado a 40 anos. Temos quase que dobrado as dimensões tanto de calhas quanto de dutos.

As variações de temperatura durante o dia também não facilitam a proteção. É possível que as 6:00 h da manhã tenhamos uma temperatura de 10° graus e as 15:00 h(em geral o pico de temperatura) 34°~38° graus. Como diz o matuto da obra: aí não tem tatu que aguente!

Essas variações em larga escala produzem variações nos materiais do telhado facilitando a abertura de fendas e falhas por onde a água penetra.

O emboçamento do telhado sempre recomendado poucas vezes executado. Reduziria em muito a ação deletéria dos ventos e águas pluviais.

Os telhados planos que aparecem de forma quase totalitária nos estudantes de arquitetura tampouco representam uma solução adequada. Meu amigo, o arquiteto Otto Felix, um exímio executor de telhados plano, decerto vai me contradizer. Mas não tenho muitas esperanças que seja uma solução. Evidentemente que em alguns casos ele (o telhado) surge como a solução mais adequada e bela. Mas a minha dúvida recai sobre os impermeabilizantes. O Brasil, como já se disse, não é para amadores, as variações de temperatura aliada a altíssimos índices de UV (ultravioleta) reduzem a vida útil e tornam os impermeabilizantes quebradiços e ,portanto, sujeitos a falhas.

Todas estas patologias têm suas descrições e soluções descritas por diversos institutos3, o ruim é que acabamos por transferir o problema  aos proprietários , que passados alguns anos sem ter como resolver buscam as soluções mais a mão, o especialista em goteiras!!!

REFERÊNCIAS:


 

[1] Do grego   ἀρχι- (arkhi-, “chefe”) +‎ τέκτων (téktōn, “construtor”), na acepção correta seria o marceneiro, uma vez que grande parte da obra envolvia o domínio das estruturas em madeira. Nos dias de hoje o mestre de obra.

 

[2] Capacidade da mente humana de prever, antever e desenhar soluções mentais para o problema.

 

[3] Ver este interessante documento: http://repositorio.roca.utfpr.edu.br/jspui/bitstream/1/1873/1/CM_COECI_2012_2_03.pdf


BAÚS, ARMÁRIOS, CLOSETS E QUARTOS

BAÚS, ARMÁRIOS, CLOSETS E QUARTOS

Se você dorme num quarto, razoavelmente confortável, você tem uma dívida com a senhorinha acima, Catherine de Vivone de Savelli, uma marquesa do século XVII, que por razões especificas, inventou e criou aquilo que chamamos de quarto. Essa história do quarto vale a pena ser contada.

Aparentemente os quatro elementos, da chamada, têm pouco a ver um com o outro.

Ainda que estejam ligados pelo uso, mas ao analisarmos, com um pouco maior de profundidade, veremos uma linha evolutiva entre eles, e em certa medida os baús e armários são os avós do quarto.

Baús e armários servem para a guarda de roupas, louças e armas. E eles tiveram uma importância grande na antiguidade. Eles eram os bens móveis, ou seja, os que podiam ser movidos conforme a necessidade. No caso dos nobres eram transportados de casa para casa. Não havia roupas sobressalentes. Closet deriva do francês antigo e significa local fechado, em geral para estudo ou prece, pode ter tido origem em “cubiculum”, local de reclusão. Ele é atestado a partir do século XVII, exatamente quando surge o quarto de dormir, separado de outros cômodos.

Armários acabaram por se tornar também guarda-roupas, substituindo com vantagens o baú que guardava a roupa e as de cama também, quando estes acessórios se tornaram mais baratos e acessíveis.

A introdução de tecidos de algodão, a partir do século XVII, de origem indiana, trouxeram um conforto maior, barateamento de preços e consequentemente permitiu um acesso maior ao bem. A corte francesa em parte foi responsável pelo processo ao introduzir seu uso, a despeito do rígido ritual das vestimentas e da proibição real. Seu uso foi de roupas a estofamento, passando pelo revestimento de paredes dos quartos.

O armário era o móvel mais importante na casa burguesa, século XVII, conforme descreve o arquiteto Witold Rybczynski, em seu livro sobre a casa.

O armário servia não somente como acessório de guarda, mas também como uma exibição publica de poder e riqueza. A guarda de porcelana e sua mostra identificava a opulência de seu proprietário.

O que nós chamamos de closet eram os garde-roube, ou guarda roupa. Na França os nobres eram obrigados a um rígido cerimonial, que envolvia a utilização de roupas especificas diante do rei. Era necessário um espaço para a guarda destas vestimentas. Hoje em certa medida temos um problema desta natureza, a quantidade de roupas que possuímos extrapola em muito a capacidade dos armários que temos em casas e apartamentos. Poucos, talvez, se lembrem como eram os armários nos quartos, não faz muito tempo, como da Fig.1.

Fig.1 Antigo Guarda Roupa. Foto do autor.

A noção moderna de um quarto privado e distinto de outras partes da casa é um conceito bastante recente na história da arquitetura, algo como 370 anos, somente a partir do século XVII é que a separação compartimentada da moradia surgiu. Começou nos palácios e casa de nobres e depois se espalhou, levando lentamente a outros segmentos da população. A casa simples não possuía compartimentos era um ambiente único. E mesmo, os mais ricos os quartos eram ligados uns aos outros, assim para se atingir um determinado cômodo deveria se passar por todos outros.

Fig.2. Abraham Bosse 1633. O casamento na cidade: A visita à criança

Olhando a fig.2 podemos considerar como um quarto perfeitamente normal aos nossos olhos: mulheres visitando sua amiga com as crianças. O quarto nos parece comum com luxo evidentemente, a lareira no quarto, uma grande cama, o ambiente bem decorado, cadeiras para todas (não era comum, a não ser em casas de pessoas de posse). Mas o que vemos aí, não era comum, são as primeiras imagens de quartos que começaram a surgir a partir do século XVII, não é possível saber ali, dado o ponto de vista da perspectiva, se o quarto se abre a outros espaços, a porta entreaberta parece indicar a um corredor ou galeria, as dimensões do quarto parecem ser reduzidas, face ao que era usual nas grandes casas.

O quarto era até o século XVII um ambiente público, não tinha a característica privada que possui hoje. Era local de visitação, conversa e refeições (a sala de jantar não estava ainda estabelecida claramente). Em 1630 uma mulher chamada Catherine de Vivone de Savelli, a Marquesa de Rambouillet, que sofrendo as agruras de um frio congelante na sua “chambre”, enorme e mal aquecida, transformou seu “garde-roube” (um closet, em termos modernos) num quarto privado, o que era incomum. Portanto aí se encontra a origem do nosso quarto de dormir e de outros pequenos afazeres.

 

REFERÊNCIAS:

[1] A etimologia pode nos levar a lugares errados, entretanto a base de armário, contém arma e é um derivado correto, podendo ser local de guarda de armas ou de roupas de guerra. Sua utilização se consolidou como guarda de louça e roupas.

 

[2] A filha de Luís XIV, Louise-Françoise de Bourbon, mais conhecida como Madame la Duchesse era uma apaixonada pela modernidade e a despeito da proibição de seu pai, ao algodão, utilizou e divulgou este tecido pela corte francesa.

 

[3] A expressão robe de chambre, em português roupão e que seria simplesmente roupa para se usar no quarto, passou a ser utilizando em todos os ambientes quando o algodão se tornou acessível. Os vestidos e roupas de algodão, eram usadas inicialmente somente no ambiente íntimo.

 

[4] Para um aprofundamento: DEJEAN, Joan. O século do Conforto quando os franceses descobriram o casual e criam o lar moderno. Civilização Brasileira. Rio de Janeiro. 2012.

 

[5] No filme Vatel: Um banquete para o Rei, de Ronald Jeffé. É possível ver como eram esses cômodos, antes da introdução das galerias que permitiam o acesso a quartos específicos sem se passar por todos os outros. É uma criação francesa e a palavra “galeria” como local de exposição de arte, é muito pertinente, pois seu criador o fez com duplo intuito expor sua grande coleção e possibilitar a circulação em separado.

 

[6] RYBCZYNSKI Witold. Pronuncia-se “Vitold Rubchesqui”. Arquiteto e escritor inglês. Escreveu inúmeras obras importantes, destacando-se “Casa: História de uma pequena ideia”, obra essencial a quem se interessa pela história da arquitetura e deveria ser obrigatória nas faculdades de Arquitetura.

 

[7] A porcelana até o século XVIII era importada da china e tinha altíssimos valores. A partir do trabalho de Johann Frederick Böttger, que descobriu o processo de fabricação foi possível sua fabricação na Europa, para mais ver o livro: GLEESON, Janet. O Arcano. Rocco Editora. Rio de Janeiro. 2012.

 

[8] É possível que este frio já fosse um sinal da pequena idade do gelo que atingiu a Europa no século XVII.


OBITUÁRIO: IEOH MING PEI.

OBITUÁRIO: IEOH MING PEI.

Eu gosto bastante de obituários, principalmente quando é alguém não muito conhecido. Fica-se sabendo detalhes da vida, que somente passamos a saber com a morte.

É o caso do arquiteto chino-americano Ieoh Ming Pei, nascido em Cantão na China, em 1917. Abriu seu próprio escritório em 1955, aos 38 anos, um pouco tardio para os nossos padrões, mas se estabeleceu fazendo projetos inicialmente para William Zeckendorf1, um destemido empreendedor de NY. Em 1983 recebe o prêmio Pritzker2 , o mais importante prêmio da arquitetura mundial.

Em 1989 desenvolve a pirâmide  para o Museu3 Louvre4, o presidente François Mitterrand, que dispensa a licitação, contratando diretamente o arquiteto. Talvez sua obra mais controversa e sobre ela que exatamente quero falar.

DESENHO ORIGINAL DE PEI PARA O LOUVRE

Nos anos 80 ele se destacou em meio aos prédios nos estilo pós-moderno, algo que vemos hoje com um certo desagrado, propondo uma arquitetura de fortes linhas geométricas e acentuando os volumes. Na faculdade não vimos, nem analisamos seus trabalhos. Aliás as faculdades de arquitetura (pelo menos as que eu conheço) se dedicam pouco a analisar a obra de arquitetos, menos ainda de arquitetas (vide Zaha Hadid, Neri Oxman, Momoyo Kaijima ou Norma Merrick Sklarek)

O museu do Louvre é um dos primeiros e mais antigos do mundo, recebe mais de 8 milhões de visitantes por ano e está distribuído em mais de 70.000 ² de área. No século XVII, Luís XIV mudou-se para Versalhes e deixou o palácio do Louvre como um local de Exposições de peças da realeza. A Revolução Francesa o transformou em um museu .

A construção da pirâmide em 1989 foi e é ainda uma polêmica. Realmente à primeira vista parece ser um corpo estranho em meio a uma construção do século XVI.

Mas ao conhecermos um pouco da história da França, em especial Napoleão é que poderemos usufruir da magnifica ideia do arquiteto. Napoleão Bonaparte em 1798, invade o Egito. Além das tropas o invasor leva uma comissão 5 de pesquisadores entre eles desenhistas, escritores, tipógrafos, historiadores, tradutores etc. Fez, com sua comissão de artes um levantamento completo das relíquias e tesouros 6 do país. Traz consigo como espolio de guerra, enormes quantidades de obras de arte, retrata o país através de pintores e desenhistas e permite a partir dai a criação de uma ciência para o estudo do Egito: a egiptologia. Um desses tesouros está no centro de Paris, na praça da Concórdia o obelisco.

Para se ter uma ideia da dimensão da empreitada: foi elaborado uma série de documentos chamados “O Description de l’Égypte” (Descrição do Egito), aparecendo pela primeira vez em 1809 e continuando até o último volume em 1829, que ofereceu uma descrição científica detalhada do antigo e moderno Egito, bem como sua história natural. É o trabalho de colaboração de cerca de 160 estudiosos e cientistas civis, conhecidos popularmente como os sábios 7, que acompanharam Napoleão na Campanha do Egito em 1798-1801, como parte das guerras revolucionárias francesas, bem como cerca de 2.000 artistas e técnicos, incluindo 400 gravadores, que mais tarde criaram uma obra completa”.

O Louvre possuiu um dos mais completos acervos fora do Egito de sua arte e sua história. Há no seu subsolo uma ala enorme dedicada a este país que tanto influenciou o mundo e em particular a França.

A paixão pelo Egito, pelos franceses, é que levou o arquiteto Pey a desenhar esta pirâmide na entrada do Louvre, homenageando com um desenho simples uma geração de conquistadores, o país conquistado e sua importante referência para a França e para o mundo. Somente quando olhamos com maior cuidado é que podemos descobrir as belezas que se escondem sobre um objeto que se relaciona com outro com tamanha historicidade. Poucos notam esta relação, mas o arquiteto com sua sensibilidade soube construir um objeto capaz de contar uma bela história para toda a eternidade.

REFERÊNCIAS:

1.Foi um proeminente investidor imobiliário americano. Através de sua empresa de desenvolvimento Webb e Knapp — para o qual ele começou a trabalhar em 1938 e que ele comprou em 1949 — ele desenvolveu uma parcela significativa da paisagem urbana de Nova York. Arquitetos I. M. Pei e Le Corbusier trabalharam para Zeckendorf em alguns de seus projetos.

2. O Prêmio Pritzker é um prémio internacional de arquitetura. Foi criado em 1979 pela Fundação Hyatt, gerida pela família Pritzker, sendo muitas vezes chamado de “o Nobel da arquitetura. É atribuído anualmente ao arquiteto, ainda em vida, que melhor cumpra os princípios enunciados por Vitrúvio: solidez, beleza e funcionalidade.

3. Originalmente do grego a casa das musas.

4.O Louvre foi uma fortaleza construída no século XII, mas perdeu sua função ao ser rodeada pela cidade de Paris. Francisco I a converte em residência real em 1546.

5. A Comissão das Ciências e das Artes era um corpo de 167 cientistas, técnicos e artistas, formado a 16 de março de 1798. Destes, 154 acompanharam Napoleão ao Egito

6. Um desses tesouros foi a pedra da Roseta, encontrada por um soldado de Napoleão. Esta pedra contendo um texto em três línguas, grego, copta e hieróglifos acabou nas mãos dos ingleses. Através de seus textos, é que Champollion, em 1822 decifrou o texto egípcio e possibilitou ao mundo acessar os segredos guardados por milhares de anos.

7. Para ver mais: https://pt.wikipedia.org/wiki/Description_de_l%27%C3%89gypte


EVOLUA OU PEREÇA!

EVOLUA OU PEREÇA!

“Se não encontrar nas primeiros duzentos, desista.”
Lei de Konopka¹

Confesso que tentei encontrar, e fui além dos duzentos! Busquei projetos de arquitetura, com partidos e programas diferentes, em páginas de jornais, folders e material distribuído nos sinais. Não encontrei nada significativamente diferente. Sejam programas de 2, 3 ou 4 dormitórios, todos parecem seguir a mesma diretriz de projeto.
Arquitetos em geral, mexem com imponderabilidades, os sonhos e o futuro. As duas coisas se resumem a uma só: projeto.

A etimologia da palavra projeto é “projicĕre” onde “pro” é frente, extensão, de se estender. “Jicĕre” lançar, jogar, assim projeto é jogar algo a frente, adiante. Mais precisamente lançar um sonho, algo imaginado, a adiante, no futuro.

Agora um outro aspecto; João e Gustavo, meus netos, tem acesso a 5ª geração dos bisavós (na verdade só das 4 bisavós, os bisavôs, não resistiram) e isto é uma raridade e novidade na história da humanidade. Raramente tínhamos acesso aos avós, cuja idade média pouco passava dos 40 asnos e hoje estamos chegando aos 80-85. Antigamente, e não faz muito tempo, uma geração tinha o conceito de 75 anos, assim que todos que nasciam durante este período pertencia a mesma geração. Mas estas gerações, em função de segmentação mercadológica, se dividiram em partes, e assim surgiram, os TRADICIONALISTAS, que nasceram antes de 1946, os BABY BOOM² , após 1946 até 1964, GERAÇÃO X, de 1965 até 1981, GERAÇÃO Y (esta geração também é conhecida por “Millenials”) geração de 1982 até 2000, e finalmente a GERAÇÃO Z, atualmente em curso. Observem que estas divisões são absolutamente aleatórias e seu significado se prende a interesses, como dito acima, comerciais e de marketing.

Alguém, que teve a paciência de chegar até aqui, poderia perguntar o que tem a ver projeto e gerações?

Bom, vou tentar explicando usando o paradoxo do esquartejador, ou seja, fazendo por partes.
A essência do projeto é trabalhar para o futuro, a moradia não pode, nem deve ser algo estática no tempo. Assim como as gerações mudam, seja por que aspecto for, mudam as concepções do mundo e a forma de morar e trabalhar. Um millenials, não será um jovem eternamente, seu gosto, sua forma de vestir e de agir, mudará com o tempo, e não raro, se aproximará da de seus pais, quando não dos avós. Mas isto não se reflete na arquitetura. Que quer atender aos novatos do mercado. Se esquecendo que não há casa, apartamento ou ambiente de trabalho para os mais velhos ou aqueles não compartilham esta mudança.

A última vez que estive na casa de meus avós, em Alcântara, Rio de Janeiro, foi a 55 anos atrás. Mas consigo, até hoje, desenhar a casa em que eles moraram e onde passei inúmeras férias. Houve um fato, uma vez, que ao voltar, para as férias de janeiro, perguntei ao meu avô, se a casa havia diminuído³ ? Eu estranhei, as dimensões da casa, que me pareceram, mais diminutas que o ano anterior. Mas a casa que possuía,4 quartos (construídos com carinho pelo meu avô para receber os netos) e um único banheiro. Uma intocada sala de visitas, sala de refeições, sala de jantar, e terraços. Ficava no alto de um morro, com uma longa escadaria. Ele construiu esta casa nos anos 40 e 50 do século passado.

residência josé alves coutinho

Em essência ela não é diferente de nenhuma casa atual. É exatamente isto que incomoda. Passados 100 anos do nascimento dos avós e bisavós da minha geração continuamos a fazer a mesma casa, as mesmas divisões e repetindo os mesmos padrões.
Seja o mais moderno escritório de arquitetura, na linha do Tripytique, ou um escritório comum, estão ,no fundo, fazendo a mesma casa sempre?
Onde está o erro?
Num artigo, publicado em julho de 2008, no Estado de S.Paulo, o arquiteto Jorge Wilheim, já nos alertava:

Quando plantas dos apartamentos são publicadas, espanta-me a similitude dos programas e dimensionamentos: parece que há um único protagonista a desenhar com sua “mão escondida” todas as plantas, com iguais dimensões dos quartos, denominações sempre que possível em inglês e a presença inevitável, esta brasileira, da churrasqueira.

E completava:

O que não se pública é o nome do arquiteto autor desses projetos! A “mão escondida” o apagou, seja por não o considerar importante a ponto de figurar ao lado do decorador, do paisagista e dos realizadores do empreendimento; seja porque o próprio arquiteto não se sinta à vontade com o resultado. Se arquiteto existe, como entender, tiradas poucas exceções, o descaso com a estrutura e com a fachada, geralmente um aplique colado, muitas vezes imitando um paupérrimo estilo neoclássico?

O artigo de 11 anos atrás, permanece atualíssimo!
A casa, moradia ou ambiente de trabalho, qualquer que seja o espaço de ação do arquiteto deve levar em conta a evolução. A evolução, esta mesma que Darwin/Wallace desenvolveram e que diz de maneira clara e absoluta: os seres que se modificam, devido às mudanças do ambiente, têm maior chance reprodutiva, portanto deixam mais descendentes 4 . O ambiente da arquitetura deve se modificar com o tempo. Moro na mesma casa desde 1992, minhas filhas já foram embora(infelizmente) só voltam 1 vez por mês ou por ano. A casa é dos anos 30-40, com paredes de 30cm, são “imexíveis” 5 . Normalmente a sugestão é mude-se! Mas, acontece, que apesar dos perigos do local, dificilmente acharia uma casa para acomodar uma biblioteca de 2000. Livros e um ateliê. Teria que construir. Não tenho nem tempo nem vontade para tal.
Nossas casas, quase totalidade dos casos, são refratárias as mudanças do tempo e costumes. Quando as condições do ambiente mudam, nós não nos adaptamos, nós nos mudamos.
A casa não se altera!
As arquitetas(os) em geral, não produzem uma arquitetura que evolua com o tempo. Ao nos unirmos a alguém, formamos um casal, que pode ter inúmeras configurações. Uma é que o casal não tenha filhos. Outras opções implicam em filhos que provocam a necessidade de alteração arquitetônica (construção de outro cômodo, reforma e adaptações). A casa não está preparada para isto. As soluções estão no mercado, há uns poucos trabalhando nestas soluções, que deveriam estar espelhadas nos lançamentos, sejam prediais, individuais ou condomínios.
A moradia deveria poder ser alterada em dias, horas ou semanas. E não em meses e anos.
Nos últimos anos notamos a mudança em alguns dos espaços da casa; a cozinha se fundiu com a sala em muitos casos, o surgimento do terraço gourmet(argghhh!!!!), criamos churrasqueiras para quem nunca faz churrascos, quartos e banheiros estão unidos nas suítes (ainda que sejam muito ruim do ponto de vista arquitetônico). Criamos micro espaços que chamamos de closet, quando não passam de um cubículo, incapaz de fazer frente ao consumo de roupas e sapatos 6 . Eliminamos a sala de visita, praticamente reduzimos a área de serviço a um espaço de tanque e máquinas. A habitação não é pensada para o futuro, nem sequer ao presente, mas voltada a um conceito, seja de modo vida seja de relacionamento, seja de família, que apenas reside no passado, na grande maioria das vezes.
Por que os arquitetos fazem isto? Quem determina que espaços devem ou não ser projetados? No que as empresas se baseiam para pedir aos arquitetos este ou aquele programa?
Existem razão diversas, não são simples e implicam em soluções complexas, que passa pela forma como ensinamos nossos estudantes, como se discutem os movimentos disruptivos que vivemos, a compreensão dos avanços tecnológicos a que estamos sujeitos, e que avançam sobre todos os aspectos onde o ser humano está presente. Chegando ao contratante de nossos projetos, que nem sempre sabem exatamente o que querem. Peça ao seu cliente particular desenhar a casa dos sonhos dele, ela(e) provavelmente desenharão a casa onde moram, um pouco maior.
Quando a construtora entra pela sua porta, está cheia de ideias, sejam dos corretores sejam da agência de publicidade que acha que sabe a quem se destinam os imóveis que você deve projetar. Descem planilhas e pesquisas (em geral malfeitas!7 ) dizendo que o mercado quer isto ou aquilo, tem que ter 3 ou 4 dormitórios senão não vende, viu? Assim nos vemos apartamentos que não se adaptam, mas gente que tem que se adaptar aos apartamentos e casas. Moramos mal e trabalhamos em locais inóspitos. Esse não é o trabalho dos arquitetos!
A casa, o apartamento e o ambiente de trabalho, hoje mais do que no passado sofrem transformações que acontecem num ritmo não mais medido por gerações, mas por semanas e horas.
A informação, o estudo continuado, a pesquisa e leitura, são formas de atualizar e confrontar o conhecimento, alterando nossa forma de fazer e de pensar a arquitetura.
Os ambientes devem ser dotados de capacidade de responder as alterações da vida contemporânea, ou fazemos isto ou o futuro será apenas um amontoado de ruínas e entulhos.

REFERÊNCIAS:

[1] Ronald J. Konopka biólogo geneticista, descobriu um gene ligado ao tempo. Famoso por sua persistência na execução de experimentos. Cunhou a frase, que parece ser sua única lei. Se você não encontrar o que quer nos primeiros duzentos experimentos, desista. Para uma leitura estimulante leia, onde ele é citado: WEINER. Jonathan. Tempo, Amor e Memoria: Um biólogo notável em sua busca das origens do comportamento. Editora Rocco. Rio de Janeiro 2001.

[2] Baby Boomer significa “explosão de bebês”. fruto dos que retornaram da II Guerra (1939-1945) e multiplicaram o número de filhos. Garantidos agora pelos avanços sanitários, médicos e tecnológicos, aumentaram muito a taxa de natalidade. A expressão Geração X(o x se refere a diminuição de filhos nesta geração) foi criada pelo fotógrafo Robert Capa, em torno de 1950 e posteriormente adotado por estudiosos.

[3] Só fui compreender adequadamente, depois que assisti a Amarcord (Eu me lembro, no dialeto da regiã0 do autor, Frederico Felini, onde o mundo é visto pelos olhos de uma criança, no caso ele mesmo. E que vê tudo em tamanho maior. Dos seios ao transatlântico tudo era enorme. Uma visão que a criança ajeita a sua proporção e não ao contrário.

[4] Este é o sentido de evolua ou pereça! Aqueles que não se adaptam, perecem.

[5] Toda obra pode sofrer interferência de qualquer magnitude, poder-se-ia eliminar, deslocar ou criar paredes. A tecnologia nos permite fazer muitas coisas, a questão é custo.

[6] Uma olhada simples nos projetos apresentados nos jornais, parece que são feitos para lutar contra o consumo exagerado, mas é apenas um truque “isperto’ para vender um lugar que não existe, e não cabe pouca coisa mais do que um armário convencional. Não se trata aqui de reforçar o consumo desenfreado, mas a vida moderna implica numa quantidade de roupas e acessórios que não cabem nos espaços destinados.

[7] Pesquisa no Brasil nem sempre é bem-feita. São raras e caras. E tem um agravante, o brasileiro mente! Existe um case famoso, onde o presidente de uma empresa multinacional se instalou no Brasil e fez uma extensa pesquisa de mercado, com pomposidade lançou seu produto no mercado. Foi um fracasso de vendas, a empresa acabou por se retirar do mercado brasileiro. Perguntado por quê? O presidente da empresa respondeu que os brasileiros mentiam na pesquisa. Descobriu-se que no questionário havia uma pergunta que era crucial. A senhora compraria sopa pronta para seu jantar? A resposta invariavelmente era sim. Os pesquisadores descobriram que as donas de casa não gostavam de responder não. Então modificaram os pesos das respostas, quando a resposta era não valia 1 ponto, quando sim, valia 0,7. O que servia para balizar a pesquisa. A diferença era entre compraria e utilizaria. A empresa voltou ao Brasil


JANELA PARTE 1

JANELA PARTE 1

Janela, janelinha, porta,
campainha, trimmmmmmmm!!!

Por que falar de janelas?
Dou aula numa faculdade de arquitetura. E poucos tem noção da importância das janelas, nas residência e nos ambientes de trabalho. Alunos¹ durante 5 ou 6 anos decerto não aprenderão a sua história e relevância na arquitetura. Este artigo é dedicado a eles.
A singela brincadeira, em epígrafe, utilizada por pais e avós nos rostos das crianças, apertando ao final, o nariz, revela um pouco de como a arquitetura está ligada à nossa percepção, sem que tenhamos notado. A casa como um corpo e o corpo como uma casa.
A janela são os olhos, que permitem uma dupla interpretação, vêem fora e nos deixam ver dentro. É uma passagem.
A etimológica da palavra janela tem origem na palavra latina “ianuella² ”, diminutivo de “ianuas”, porta passagem, acesso³ . Ou seja, a janela é uma pequena porta, mais precisamente meia porta, pois ela se refere a parte superior da porta que era dividida, permitindo a entrada de iluminação e ventilação e impedia, na parte de baixo, a entrada de animais.
Existe uma palavra em latim e português, ‘fenestra’ que significa janela e é pouco usada em português, apesar de existir. Usamos mais um derivado que é defenestrar, que significa jogar pela janela. Essa palavra pode ter sido originada do grego “φαίνεω “(faíneo, eu olho).
A palavra window, em inglês, tem origem no Nórdico antigo ‘vindauga’, de’vindr – vento’ e ‘auga – olho’, i.e., olho de vento4 . se refere a um buraco por onde passa o vento, ou seja a ventilação. E é também um olho que vê,
A aproximação com janeiro, não é por acaso, a imagem de “Ianus’ o deus bifronte, que guardava o interior das casas e espantava os espíritos malignos estava em geral acima das portas. Janeiro é o mês que fecha o ano anterior e se abre ao novo. Extamente como faz uma janela.
A ligação entre porta e janelas, é evidente, não só etimologicamente como fisicamente. A janela deriva da porta (da porta falaremos num outro post).
O avanço no conhecimento construtivo e arquitetônico possibilitou através da colocação de vergas estruturais a existência inicial das portas e posteriormente das janelas. Ver figuras abaixo.

 

Fig.1 Fachada sem janela

Fig.2 Fachada com janela

 

 

 

 

 

 

 

 

A exemplo de outras inovações que a casa moderna possui, a janela é uma aquisição recente. Praticamente todas as casas tem uma coleção delas. São aberturas que permitem a ventilação e iluminação dos cômodos.
A maioria do tempo as casas não possuíam as aberturas, seja por dificuldades técnicas, a abertura de vãos requer paredes mais robusta e estruturadas de forma a permitir a instalação das janelas. Em geral a única abertura que possuíam era no teto para a ventilação, iluminação e saída de fumaça. A janela representou um passo importante na arquitetura.
É um detalhe que por vezes passa despercebido, tal é a presença das janelas na vida contemporânea. Nos arquitetos e decoradores, não damos, creio eu, a devida importância a esse aspecto da arquitetura, seja enquanto um aspecto importante na história da arquitetura, seja quanto sua importância técnica.
Uma viagem no tempo, serve não só para trazer a importância deste elemento da moradia, bem como mostrar a nova geração de profissionais, como olhar com mais atenção a este elemento arquitetônico.
Cada elemento da casa conta uma história importante na evolução da moradia, este blog tem a pretensão de levantar estes detalhes aqui e contar coisas a respeito destes elementos e se for possível dar direções as inovações ocorridas na atualidade. Tanto a janela quanto a porta guardam referencias importantes, que nós, ao abrirmos uma janela ou passarmos não nos damos conta.Desconhecemos o fato de que as portas foram personagem importantes em tragédias como a do terremoto de 1755 em Portugal. Não sabemos que janelas pagavam altos impostos até o século XIX. Tudo isto serve de repertório aos arquitetos e decoradores que queiram buscar algo além das fotos nos jornais e revistas. Somente as casas dos mais ricos e poderosos no período greco-romano possuíam janelas. Algumas até com vidros, como mostra a fig. 3

Fig.3 Pedaço de vidro romano.

Os romanos, foram os primeiros, ao que se saiba, a utilizar a tecnologia que eles desenvolveram a partir dos egípcios. Mas demorou muito para que se consegui obter vidros com transparência como temos hoje.
Se pudéssemos espiar uma casa na idade média, nosso nariz sofreria bastante, acostumados a uma higienização constante. Mas nossos olhos se surpreenderiam mais, ao não encontrarmos luz facilmente. Não havia para a maioria das pessoas, uma janela que pudesse iluminar o ambiente (no mais das vezes era até melhor!!!) para que pudessem enxergar e se movimentar.
As janelas no século XIII, se resumiam, na verdade a um buraco no teto e a metade da porta que poderia se abrir.
Quando existiam janelas, não haviam vidros. Papel encerado, tecido, pele de animais, ou chifres (sim, osso raspado até se obter uma pequena placa) ou mesmo madeira eram utilizados para dar alguma transparência e proteger um pouco contra as intempéries.
Antes de avançarmos, seria interessante cria um diferencial para as janelas. Uma classificação. Genericamente, poderíamos classificar as janelas em 3 categorias. Obstrutiva, Eurônotas e Iluminantes.
Obstrutivas são aquelas que vedam tanto ventilação quanto a iluminação e provavelmente pertenceram as primeiras gerações de janelas e aberturas. Podiam ser abertas ou fechadas, mas ao serem fechadas obstruíam a visão e o arreamento do cômodo. A implantação das primeiras janelas, se deu a um único cômodo, uma vez que a subdivisão das habitações, a exceção dos castelos, aconteceu de maneira generalizada a partir do século XVII.
Eurônotas são aquelas que permitem a ventilação e permitem ou reduzem a iluminação. Seu nome deriva do grego, ευνότιο, “Eûros” ventos do este e “νότιο,nótos” ventos do Sul e da chuva. Para os gregos e romanos se referiam os ventos predominantes do Sudeste. Assim as janelas que incorporam inovações importantes como a venezianas e treliças(muxarabi).
Iluminantes, como a própria palavras diz são aquelas que permitem ampla iluminação, através da incorporação de papel oleado, pele, madeira ou vidros.
Continua Parte 2…

REFERÊNCIAS

¹ Na verdade, não só alunos, os profissionais da área, em geral também desconhecem.

 

² A pronúncia de “ianuella” é “januella”, é ajustado ao português com a letra “J”, entretanto, o latim não possuía o jota que foi uma criação francesa do século XVI, uma adaptação para diferenciar novos sons do francês.

 

³ Para um olhar mais aprofundado ver JORGE, Luís Antônio. O Desenho da Janela. São Paulo. AnnaBlume.1995.

 

4 Para mais detalhes visitar: https://en.wikipedia.org/wiki/Window


ARQUITETA(O) ESTE DESCONHECIDO

ARQUITETA(O)¹ ESTE DESCONHECIDO

“A celebridade é uma contradição. Parecendo que dá valor e força às criaturas, apenas as desvaloriza e enfraquece.”
― Fernando Pessoa

Faça um pequeno exercício ao ler os jornais, tente encontrar o autor dos projetos apresentados como maravilhas do século XXI. Somente aqueles estrelados escritórios e profissionais terão gravados seus nomes nos jornais que amanhã embalarão os peixes na feira.
Ao olhar as páginas dos jornais e vendo centenas de anúncios (nos últimos anos tenho feito este exercício. Leio dois jornais por dia), em 99% dos casos estão citados empreendedores, corretores, investidores, construtores as vezes a paisagista(o) e ou a decoradora(o) mais raramente os arquitetos.
Não sou adepto do “celebrismo” que ataca, como praga, arquitetas(os) e decoradoras(es), mas também não vejo com bons olhos, esse desprezo de quem produz um bem importante para a cidade. A busca pelo reconhecimento se dá de forma inadequada e inconsequente.
Quando dou aulas, procuro alertar meus alunos da efemeridade da obra de arquitetura, quase sempre anônima, mas que sempre impõe efeitos (positivos e as vezes negativos) onde está implantada. Procuro dizer que poucos chegarão à fama, e que grande parte do nosso trabalho sequer é notado, ou valorizado.
A partir do renascimento, no século XV, quando a noção de autoria surgiu, arquitetos e artistas procuraram valorizar seu trabalho, impondo seu nome como uma marca de qualidade, distinção (no sentido de ser diferente de outros) e indicativo de que aquele trabalho lhe pertencia.
A autoria passou a ser um aspecto importante da profissão, tanto que existem leis que regem a autoria do projeto e conferem certos poderes aos seus detentores. Essa propriedade do projeto, é exclusiva dos profissionais de arquitetura. Mas nela não está embutida o reconhecimento social do seu trabalho. Indica quem quer. Ainda que, em Campinas e São Paulo, se não me falha a memória, haja uma lei obrigando a identificação dos autores do projeto, nas publicidades de jornal e revistas. Mais uma lei que não pegou!!!
O que acontece hoje, é que o trabalho do arquiteto, em geral, é menosprezado, desvalorizado e rebaixado. São vários os fatores para que isto aconteça, desde os próprios profissionais, que em desespero, se submetem a condições inadequadas e escorchantes, sejam as concorrências desleais, seja através dos construtores que veem nos profissionais apenas um meio para atingir seu objetivo maior, que é a venda. Não é por outra razão que os percentuais sobre a venda de imóveis são absolutamente superiores aos recebidos por arquitetas(os).
Isto tem provocado distorções no mercado imobiliário que consulta corretores² , onde eles passam a opinar sobre o que deve ser construído ou não. Não são as melhores fontes. É o paradoxo do Tostines: Vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais. Com isto temos uma “pasteurização” ou “homogeneização” dos produtos ofertados. Não que necessariamente seja o arquiteto a ser consultado. Na maioria dos casos ele também não vê corretamente a evolução do mercado. É preciso olhar com outros olhos. E isto significa um custo que empreendedores não gostam de pagar.
Investigar, conhecer, prever, antever são ferramentas para perscrutar o mercado. E quem é o mercado? Quem é o cliente? O que eles desejam? Três ou quatro, ou nenhum quarto? Precisa de vaga de garagem? Área de serviço? São perguntas que deveriam ser respondidas por quem estuda o mercado, e não somente por quem trabalha com o mercado.
As transformações tem sido aceleradas, vertiginosas e disruptivas, assim cada vez mais é preciso olhar com atenção a evolução da tecnologia, meios de trabalho as relações sociais e afetivas e como isto impacta a vida de cada um. Só assim será possível produzir melhor e adequadamente. E assim o autor poderá ser reconhecido pelo trabalho que faz.
A arquitetura é um bem social e poucos se dão conta disto. A cidade é em parte fruto do trabalho destes profissionais e de muitos profissionais que merecem o reconhecimento.

¹A questão de gênero tem se imposto de maneira bastante forte, inclusive em questões sérias. Particularmente, preferiria que houvesse o neutro na nossa língua. Mas não há. Normalmente o gênero masculino vem primeiro seguido do feminino. Acho que o correto deveria ser o contrário. As mulheres são exploradas, oprimidas e ganham diferencialmente. Em 1983, portanto a 36 anos, ao fazer o cartão de minha sócia, grafei arquiteta, não era utilizado, e provocou estranhamento. O usual era utilizar o masculino arquiteto para mulheres.

² Não tenho nada contra corretores, fazem parte da minha família. tenho orgulho de meu sogro ter sido um corretor visionário, que introduziu o conceito de condomínios em Campinas e meus cunhados que desempenharam e desempenham importantes atividades na área. Mas uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.


ARQUITETURA DE M*RDA PARTE 2

ARQUITETURA DE M*RDA PARTE 2

As cidades medievais eram imundas, sujas e fedorentas, e segundo a expressão de São Bernardo: onde todo mundo fede, ninguém cheira mal.

Toda espécie de imundices estava jogada nas ruas e vielas. Mesmo dentro das casas na sua maioria, não haviam pisos, portanto, escarros, cuspe e restos de comida, quando não o número 1 ficavam espalhados pelos cantos.
Lembrando aqui que os utensílios domésticos eram móveis, portanto camas e banheiros eram transportados nas viagens de reis e nobres.

Quando surge o quarto, por volta de 1660, ou seja, em pleno século XVII, um espaço privado (chamado de petit appartment) e o quarto de banho aparecem, como necessidade e intenção de restringir uma atividade que em geral era pública. É bom lembrar que Versalhes com seus 700 quartos não contava com um só banheiro, no sentido moderno (ressalte-se que havia salle de bain, mas não possuíam privadas nem esgoto).

Por volta do século XVII, surgem, para a alta classe e monarcas as primeiras privadas portáteis. Luís XIV possuía várias e sua utilização era pública e sinal de prestígios para aqueles que assistiam o rei fazer suas necessidades. Seu uso iria se multiplicar com os nobres e burgueses querendo este moderno equipamento.

Começa surgir na sociedade uma noção mais clara entre o público e o privado, fazendo com que certas atividades, antes públicas, passem a serem realizados no privado. No excepcional filme Vatel – Um Banquete para o Rei tem uma cena onde o rei é acompanhado por um séquito, fazendo suas necessidades.

O número 1 era feito em qualquer lugar, pelos cantos do palácio. O número 2 era feito em pinicos e jogados ao jardim. Por que vocês acham que Versalhes tinha e tem jardim fantásticos????

O avanço da ciência e novas descobertas eliminaram o conceito de miasma (de que as doenças vinham pelo ar) e se passou a enxergar de maneira cientifica e metodológica os problemas de higiene.
Os sanitários e banheiros ficavam normalmente separados, até hoje é possível ver esta separação em apartamentos franceses e americanos. No caso brasileiro, no início estavam separados, mas na sua inserção no interior das residências já se fez a unificação.

O século XIX verá surgir as novas atitudes higienistas, vindas a partir da Alemanha irá se estender por toda Europa e o mundo. A Inglaterra irá iniciar a instalação de esgotos em Londres depois do terrível ano 1858, quando a sessão do parlamento teve que se fechado, por conta do cheiro fétido do esgoto jogado no rio Tamisa.

Esta onda higienista fará diversos países investirem em redes de esgotos de grandes capacidades. Londres, Munique, Paris e Rio de Janeiro passam a contar com uma rede de escoamento de esgoto, o que rapidamente trará os sanitários para dar maior conforto, próximo ou mesmo dentro de casa.
Uma revolução sanitária coloca o mundo na trilha correta e milhões de mortes são evitadas, embora ainda que hoje, por falta de saneamento, continue a trazer a tragédia a diferentes países.

No século XXI, mudanças de grandes dimensões começam a ocorrer nos banheiros, é depois da cozinha a área da casa a receber maiores impactos tecnológicos e inovações.

O conceito meramente sanitário se expandiu e a noção de bem-estar é cada vez mais presente. O banheiro passa a ser um “spa” doméstico.
A palavra SPA, um topônimo, vem da cidade de Spa, próxima a Liége, Bélgica. É uma cidade conhecida desde a antiguidade por suas águas termais e curativas. Aquae Spadanae, denominação possivelmente relacionada com “spargere” (em latim, ‘lançar aqui e ali, espalhar’ (gotículas)Existe uma falsa etimologia, que sugere que Spa significaria Sanitas per Aquam, não existe fundamento etimológico para isto.
Existe na Inglaterra uma cidade com o nome de Bath, uma antiga dominação romana, famosa por suas construções de banhos públicos e águas termais também.

A vida moderna com suas inúmeras interações pede que haja um momento de repouso no retorno ao lar. Já há alguns anos que a casa vem se modificando e se fundindo. A cozinha se fundiu com a sala, desapareceu a sala de visitas, e o quarto, uma invenção recente (1660) se mesclou com o banheiro. O cômodo que até pouco ficava fora da casa, está ao lado da área de repouso.

Bacias com capacidade de análise médicas e com conexão com a internet lançam informações sob o estado de saúde seus usuários. Os chuveiros vêm dotados de diferentes pressões e chegam a ter iluminação de led para as terapias de cromoterapia. Sistemas de aquecimento, seja solar ou promovido por células fotovoltaicas (para a eletrificação, bombas pressurizadoras e sistemas computacionais) elevam a qualidade do banho a níveis nunca vistos. A introdução em breve de pisos, com capacidade de armazenamento de dados, como peso, controle de temperatura e muito mais, estarão em breve no mercado. Utilização de banheiras, a partir da utilização de resinas, modificou as antigas e pesadas banheiras de ferro. Mecanismos de pressão e jatos d’água transformam a simples limpeza do corpo, num verdadeiro tratamento de saúde.

Vale a pena conhecer algumas das novidades que estarão presentes nos banheiros em breve:


https://nebia.com/pages/nebia-products
https://evadrop.com
https://skarptechnologies.com/https://www.us.kohler.com/us/Kohler-Introduces-Voice-Command-Technology-Into-The-Bathroom,-Announces-New-Smart-Home-Products-With-%E2%80%98KOHLER-Konnect%E2%80%99/content/CNT131200001.htm

https://www.electricmirror.com/mirror-tv-glass/