RETROFIT OU BOTOX

RETROFIT OU BOTOX


Clothes are not Botox. Wearing a miniskirt does not take 10 years off. 
Stacy London1

Na Folha de SP, de 21/06/2019 há um artigo de Thiago Amâncio e Guilherme Seto2 , sobre um edifício, que foi um marco da arquitetura na capital paulista. O curvilíneo edifício foi o primeiro a oferecer um serviço de flat, segundo seus autores. A matéria se refere a uma briga entre a empresa que reformou o edifício a 10 anos atrás e atual administração do condomínio. A arquitetura está no meio do “imbróglio”

Como diria um velho amigo meu, por que puseram Pilatos3 no credo?

O que acontece é que a arquitetura, em função das profundas alterações ocorridas nas últimas décadas, encontrou uma nova ação chamada por seu nome inglês de “retrofit4” . A essência do retrofit é a adaptação das construções antigas, para possibilitar a introdução de novos elementos, tais como tubulações de rede, aumento de carga elétrica, para atender a novas demandas dos equipamentos. Refrigeração e aquecimento dos edifícios, sejam eles, residências ou comerciais. Alteração dos parâmetros da iluminação, com consequente impacto sob a demanda, dos equipamentos de LED. Tipologias de pisos e revestimentos.

Entretanto, nos parece, que a uma pequena confusão entre reforma e retrofit. A reforma visa mais aspectos apenas simples da obra, troca de revestimentos e algumas tubulações. É exercido de forma bastante forte por arquitetos(as)-decorado(a)res e decorado(a)res. Vale dizer que decoradores não tem, por força de lei, possibilidade de alteração das estruturas5 e sequer paredes da obra. Este aspecto está reservado ao exercício legal da profissão de arquitetos e engenheiros

Qual é o problema com este e outros edifícios?

É o mesmo do Botox6 ! Olhem por aí e vejam pessoas que usam sem cuidados e em excesso. Os resultados em muitos casos são assustadores. Nos prédios acontece o mesmo.

As vezes há um excesso, e um descuido total com os itens que são importantes em qualquer construção. É importante notar que a matéria contem uma explicação, que precisa ser detalhada. “A Arcofit é dona de alguns apartamentos e tem sua própria sede no Marian. À Folha, a empresa diz que o Habite-se (aval para que seja ocupado) é de 2010, ou seja, as reformas estão completando quase dez anos. “Temos conhecimento do laudo elaborado pela AJF, mas muitos dos problemas apresentados não são de responsabilidade da construtora, passado o período de garantia da obra.” (grifo nosso).

Esta é talvez o primeiro problema. A alguns anos atrás, o prédio que nosso escritório ocupou, moveu uma ação contra a construtora que construiu o edifício. Por algum motivo, conversei com o engenheiro que fez o laudo do prédio, e ele me deu uma aula sobre esta questão. Há uma diferença na garantia e nos erros que a construtora comete, e o desgaste por uso ou erro. A maioria deles vence após 5 anos. Alguns após 10 anos. Mas os chamados erros de natureza, não caducam nunca. O erro de nascença, as vezes não é possível consertar e a construtora deverá ser responsável por sua manutenção por durante mais dos 10 anos. O edifício que ocupamos, tinha e o pior ainda tem, erros de natureza primária. O primeiro evento, foi a queda de parte do muro de contenção. Isto pode ter afetado a estrutura, não, evidentemente a ponto de queda, mas, houve um erro suplementar, que foi o erro de alinhamento da estrutura, em torno do quarto andar, o que obrigou a ajustes. Esse erro, é permanente e devera provocar ao longo dos anos problemas adicionais. Por mais que a construtora tente adiar a solução, via judicial, muito provavelmente instancias superiores a obrigarão a manutenção em caráter vitalício deste problema, que foi causado por sua inépcia, incúria ou mal administração de obra. O mesmo vale para o edifício em questão no artigo da folha. Mas é sempre bom lembrar que a manutenção em geral é apontada na coluna de despesas e por isto mesmo fica na dependência das disponibilidades financeiras do condomínio, o que nem sempre se revela econômico. O Brasil não tem uma boa tradição de manutenção, elas são executadas na premência e na urgência dos eventos. Edifícios de mais de 60 anos podem possuir tubulações hidráulicas em más condições, diminuição de calibre por ferrugem, vazamentos e insuficiência de pressão e etc. tubulações de ferro duram, em média 20 anos, ou seja, edifícios construídos antes do ano 2000, que utilizaram ferro estão com sua vida útil terminando, podendo começar a apresentar problemas. Os tubos de PVC lançados a partir dos anos 60 do século passado, estão no limite de sua vida útil. Portanto arquitetos e decoradores, tem a responsabilidade de apontar estes fatores, em edificações que estejam trabalhando.

Existe até um nome para isto PATOLOGIA DAS EDIFICAÇÕES7, matéria que deveria ter mais atenção de todos; arquitet(a)os, decoradores, empreendedores e construtoras.

O mesmo acontece com a fiação elétrica, em muitos dos casos, com bitolas antigas, que não suportam o aumento da carga de energia, gerando riscos desnecessários. Estas são responsabilidades do condomínio e não devem ser imputadas a construtoras. Fazem parte do envelhecimento do edifício,
Reformas fazem parte do escopo de trabalho dos arquiteto(a)s, o que tem acontecido é a falta de atenção a determinados itens que são obrigatórios numa obra de adaptação como acontece no retrofit.

O Botox em epígrafe se refere a exatamente isto. Um envelhecimento normal, apresenta as marcas normais da idade. O cuidado e manutenção evita o agravamento das doenças e patologias . Quando vemos por aí senhoras com Botox, que acabam se tornando” jovens” assustadoras, o mesmo acontece com as edificações. Faz-se por fora, somente fachada, cujos resultados são discutíveis e por dentro as coisas são o que são. Em pouco tempo os problemas retornam.

Abaixo algumas sugestões para serem observadas no trabalho de arquitetura e decoração (sim a decoração não deve ser somente cosmética). Ela deve ir a fundo resolvendo problemas abaixo da superfície.

Dicas para refletir e utilizar. Ao fazer uma reforma ou retrofit observe:

• Tubulações hidráulicas
• Tubulações elétricas (ver interferências eletromagnéticas, escolas em especial)
• Iluminações em LED permitem a revisão de carga elétrica.
• Utilização de brises possibilitam menor carga térmica, menos utilização de refrigeração e consequente economia de energia.
• Possibilitar a troca de ar nas proporções adequadas, para melhorar as condições de habitabilidade nos quartos.
• Verificar em ambientes de trabalho, índices de CO², indutores de fadiga e sonolência.
• Dados (se existirem). Colocação acima das portas, pontos de energia e dados para possibilitar o uso de repetidores de wi-fi.
• Ar condicionado (atenção ao pé direito).
• Caixilharia (se possível acústica).
• Pisos e revestimentos.
• Evitar PVC em áreas de escape.
• Colocação de dutos secos sem parcimônia. Na obra é fácil e barato. Na reforma e retrofit são caros.
• Ventilação sem medo para cozinhas.
• Área de serviço com logística correta, próximo a banheiros.
• Criação de áreas de trabalho de lixo e descarte.
• Ventilação para closets e áreas confinadas.

REFERÊNCIAS

[1] Roupas não são Botox, vestir uma minissaia não vai retirar dez anos de você! Stacy London (1969) é uma consultora de moda americana, conhecida principalmente por fazer parte de programas de televisão. Fez graduação em Filosofia e Literatura em alemão. Foi também editora de moda da revista VOGUE. Mais aqui: https://en.wikipedia.org/wiki/Stacy_London

 

[2] https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/06/moradores-de-predio-historico-no-centro-de-sp-veem-danos-apos-retrofit.shtml?loggedpaywall

 

[3] Palavra inglesa que significa refazer, reformar ou equipar (algo, como um computador, avião ou prédio) com peças ou equipamentos novos ou modificados não disponíveis ou considerados necessários no momento da fabricação. Atualizar as edificações no sentido de possibilitar a utilização das novas tecnologias. Iniciou-se durante a Segunda Guerra Mundial, onde a técnicas e inovações avançava a passos tão largos, que armas, aviões e navios ficavam ultrapassados, muitas vezes sem sair sequer do papel. A partir dos anos 70, do século XX, este tipo de obra, se constituiu no me sob o qual a arquitetura e a engenharia, passaram a atuar no sentido de trazer novas possibilidades aos antigos imóveis, com os equipamentos mais modernos e sequer existentes no momento da construção dos imóveis. Veja mais aqui: https://www.merriam-webster.com/dictionary/retrofit

 

[4] As estruturas de pequeno porte podem ser alteradas, salvo engano, por arquiteto(a)s. Em geral, consultam engenheiros quando envolve uma alteração mais substancial.

 

[5] A toxina botulínica é uma neurotoxina, produzida pela bactéria Clostridium botulinum. A Clostridium botulinum é uma bactéria anaeróbia, que em condições apropriadas à sua reprodução, cresce e produz sete sorotipos diferentes de toxina. Dentre esses, o sorotipo A é o mais potente. Alivia rugas e linhas de expressão, principalmente na região da testa e olhos, provoca um estiramento muscular, que com o tempo retorna.

 

[6] A cadeira patologia das edificações deveria ser matéria obrigatória no currículo da arquitetura. Em entrevista o professor Luís Carlos fala de que esta matéria seria essencial na carreira de engenharia. Concordando com ele, achamos que na de arquitetura também. Luís Carlos Pinto da Silva Filho, professor do Departamento de Engenharia Civil da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e ex-presidente da Associação Brasileira de Patologia das Construções. Em entrevista ao AECweb. Veja mais aqui: https://www.aecweb.com.br/cont/m/rev/as-exigencias-da-vida-util-dos-edificios_5219_10_20


INUTILIDADES DOMÉSTICAS

INUTILIDADES DOMÉSTICAS


There is nothing so useless as doing efficiently that which should not be done at all
Peter Drucker

O Brasil tem coisas que até Deus, se existisse, duvidaria. Uma é a caixa d’água e a outra é o chuveiro elétrico.

A caixa d’agua é um típico indicador de subdesenvolvimento, pois ele mostra a insuficiência, intermitência ou mesmo a falta de fluxo de água para a moradia. Em países desenvolvidos, as empresas fornecedoras de serviços de água, garantem o fornecimento 24/7. Os casos de interrupção são raros e eventuais.

A água é um recurso escasso, por esta razão, sua guarda e utilização, obedeciam às regras de uso e parcimônia da utilização. Na antiguidade o uso compartilhado era através de cisternas. As primeiras têm sua origem, no Levante, Mesopotâmia. Seu uso estava ligado a utilização humana, animais e agricultura.

A cidade de Constantinopla, atual Istambul, construiu uma cisterna a partir do local de habitação dos construtores da Basílica de Santa Sofia, e como uma proteção para a cidade durante cerco de seus inimigos. Construída em 532, utilizando o mesmo sistema utilizado para a construção da basílica, ou seja, “pré-moldado” 366 colunas oriundas do desmonte de Templos pagãos. Tem capacidade para 30.000.000 de litros d’água, e se constituiu numa importante estratégia de guerra.

Até os anos 50-60 do século XX a água utilizada nas casas era oriunda de poços, riachos e fontes e eram acumuladas em caixas de alvenaria (sujeitas a uma serie enorme de problemas). moringas, filtros e cisternas ajudavam na guarda. A partir dos anos 60 foram implantadas as caixas de amianto. Problemas ambientais e de saúde acabaram por banir o asbesto, matéria prima do amianto, do mundo civilizado. Entretanto no Brasil sua utilização, ainda que restrita, continua em uso. Não em caixas d’água. A tecnologia modificou estas caixas para PVC e fibra de vidro. A preferência ao PVC, ou policloreto de polivinila (ou policloreto de vinil), se deu por seu baixo custo e sua leveza. Mas ele também não é isento de graves problemas.
Assim aquele elemento, aparentemente útil e inócuo colocado sob nossos telhados deveria ter um fim. E os serviços de água e esgoto garantissem o fornecimento contínuo e ininterrupto. É assim nos países desenvolvidos e deveria ser assim aqui.

Os chuveiros elétricos, são desses absurdos que só aqui podem existir. São uma invenção nacional dos anos 30 do século XX. Inicialmente feitos de metal, a partir dos anos 70 são produzidos com carcaça plástica, para maior segurança. Ainda que a indústria nacional tenha conseguido um produto de relativa segurança, informe que seu produto é produzido sob os maiores cuidados, o fato é que misturar eletricidade e água nem sempre é uma boa ideia.

Presentes em praticamente toda América Latina, faz parte da rotina de milhões. Com pouca presença em estatísticas fatais, mais provavelmente defina a falha de reporte, pois as vezes o acidente é anotado apenas como evento envolvendo eletricidade na residência sem especificar a localização.

Independente disto, a falta de mão de obra especializada e a proliferação de pessoas especializadas em bicos, só cresce. Estas pessoas, tem pouca noção dos riscos envolvidos, trabalham sem proteção e com pouca habilitação técnica. Alie-se a isto a falta de projetos específicos, no caso elétrico, para as residências. Os construtores e proprietários, muitas vezes, optam em função de preços por produtos inadequados (bitolas incorretas), que cedo ou tarde apresentarão problemas. Some-se ainda o fato de que a imensa maioria das construções utiliza “um especialista” em implantação da sua rede elétrica. A baixa utilização de DR’s que é um equipamento essencial em qualquer residência, serviria de proteção, em quase a totalidade dos acidentes elétricos nas moradias. Acontece que o equipamento não pode ser instalado se houver gambiarras, junções com fitas isolantes, falta de separação por circuitos (por exemplo, máquina de secar roupas ligadas em conjunto com outros equipamentos, freezer ou geladeiras) excesso de cargas por circuitos e etc.

Um outro problema que aflige a parte elétrica é a falta de aterramento nas residências. É obrigatório, e em parte, nem sempre corretamente, uma barra de ferro pintada de cobre, ou mesmo cobre de baixa qualidade que vai enfiada na terra e nunca mais se olha isto. O aterramento é um elemento fundamental na proteção do individuo dentro de sua residência (é uma das razões da famigerada tomada de três pinos). O pouco caso com a colocação da parte elétrica somente piora a qualidade das instalações. A fiação deve estar entubada e isolada. O aterramento feito junto a estrutura da casa, já é uma garantia de maior proteção.

Numa pesquisa rápida do Google a Inglaterra parece ser o único país da Europa a possuir o chuveiro elétrico. Sua utilização se deve ao fato da tipologia de energia fornecida, por vezes o gás ou de outras fontes é mais caro.

De qualquer forma, num país de características continentais, como o nosso, com pouca especialização, o chuveiro elétrico, continua um impávido colosso de utilização. Em alguns anos, talvez, apresente algum declínio em função da escalada de preços da energia. No Brasil, o gás devera se tornar mais barato a partir das descobertas de imensas reservas de gás natural.

Ainda assim, o chuveiro junto com a caixa d’água ainda se constituirão num exemplo de inutilidade doméstica!

 REFERÊNCIAS


[1] “Não existe nada mais inútil do que fazer eficientemente aquilo que nem deveria ter sido feito.”

[2] Peter Ferdinand Drucker (1909- 2005), austríaco de nascimento, viveu grande parte da vida nos Estados Unidos, é um dos mais importantes pensadores da administração moderna.

[3] Cisterna em português vem do latim “cisterna”, de cista, “caixa”, do grego κίστη kistê, “cesta” é um recipiente para reter líquidos em geral água.

[4] Pré-moldado significa aqui que estes pilares não foram construídos para o específico uso. No caso da Basílica, bem entendido, não havia a noção de pré fabricação na antiguidade, na escala que temos hoje em dia. Os pilares sempre tiveram a função estrutural. No caso de Santa Sofia eles foram usados como estruturas pré-moldadas, semelhantes ao utilizados hoje em dia. Eles foram utilizados em função da montagem de Santa Sofia. Eles foram utilizados em função da montagem de Santa Sofia. O médico Isidoro de Mileto e o matemático Antêmio de Trales escolhidos por Justiniano (482-565) como arquitetos da basílica. Para ser possível a construção nos incríveis 5 anos que o imperador queria, eles propuseram o desmonte de templos por todo o império de forma a agilizar sua construção. É possível que mais de 10.000 trabalhadores tenham sido empregados na sua construção. Para abrigar estas pessoas foi construído o abrigo que posteriormente se tornou a cisterna.

[5] Para ver mais aqui, neste importante artigo Avelino José Pereira Neto: http://www.artigos.com/artigos/19357-a-caixa-d-agua

[6] A indústria nacional, é preciso reconhecer avançou, em muito, no quesito segurança, nos últimos anos.
DR é um disjuntor com prevenção a surtos elétricos. DR entende-se como Diferencial Residual, o qual tem como finalidade proteger pessoas e os animais contra os efeitos do choque elétrico seja por contato direto como indireto. O dispositivo ao detectar uma fuga de corrente na instalação, ele desliga o circuito imediatamente. Aqui vai uma pequena história: a vários anos atrás, fiz um projeto para um grande amigo, o obriguei a instalar os DR. Anos depois ele ao vender a casa me disse, você me fez gastar um dinheirão nestes DR’s e nunca aconteceu nada, ao que eu respondi: e gostaria que tivesse acontecido? Uma segunda história, fizemos um terminal de ônibus, e no projeto pedi proteção máxima para os circuitos elétricos e aterramentos. O construtor me ligou perguntado se poderia substituir o equipamento, por um convencional, que não era o DR. Eu lhe respondi que sim. Mas o preveni, entretanto, que se no dia da inauguração, caísse um raio e fulminasse o prefeito e outras pessoas presente, quando viessem me prender, por irresponsabilidade e atuação criminosa, eu também trocaria meu nome pelo dele. Ele colocou o DR.

[7] Segundo o prof. Antônio Panicali, um especialista em proteção atmosférica, o aterramento, este feito com a barra de ‘cobre” pode ser substituído de maneira mais eficiente se aterrado a estrutura da residência, desde que obedecidas as normas, ele costuma exemplificar que o aterramento é algo que devemos entender com o devido cuidado, ele conta em suas palestras que os aviões, que são estruturas que recebem proporcionalmente uma quantidade grande de descargas elétricas, para se proteger, soltam um fiozinho, ao decolar, que garante o aterramento. Muita gente exclama-Verdade????. Não, claro que não, a proteção está em conectar todos os elementos a carcaça do avião e assim garantir proteção aos equipamentos e as pessoas. Panicali, com larga experiencia e referência internacional, tem alertado sobre problemas de igual gravidade, para a proteção atmosférica e interferências eletromagnéticas (volto a esta questão em outro post).

[8] Vale pena uma visita ao site do fabricante de chuveiros elétricos da Inglaterra. https://www.mirashowers.co.uk/blog/trends/revealed-what-brits-are-really-getting-up-to-in-the-bathroom-1/


ARQUITETURA AUTORAL, ESSE TROÇO EXISTE?

ARQUITETURA AUTORAL


Good ideas come from everywhere. It’s more important to recognize a good idea than to author it.
Jeanne Gang

Num post publicado em, 16 de junho de 2019, pelo blog do caderno de Imóveis do Jornal Estado de São Paulo, Luíza Leão diz no lead: “Arquitetura autoral é aposta de incorporadoras para se diferenciar na crise”.

Bom, a primeira pergunta que surge: o que é arquitetura autoral? Existe uma arquitetura que não tenha autor ou autores?

Faz parte do jogo do marketing, valorizar alguns em detrimento de outros. Mas parece um exagero chamar de arquitetura autoral, uma arquitetura cuja diferença apenas está na fachada. O “autoral” aqui se refere apenas aos que tem alguma fama? E os outros produzem que tipo de arquitetura?
Todos os empreendimentos, que olhamos diariamente nos jornais, sem exceção, não apresentam nenhuma novidade em termos de planta, apenas reproduzindo o mesmo e enfadonho desenho, seja 1 dormitório ou 4 dormitórios, todos absolutamente iguais. Portanto não é a planta de arquitetura que cria um diferencial autoral. Se não é, o que é?

Playground, área pet, living, rooftop, fitness, coworking, terraço hobby, terraço gourmet, apartamento Garden, suíte master, high lounge, nomes em inglês só reforçam o nosso jequismo. Todos, poderiam ser substituídos, pelo português mais claro, sem que se perdesse a aura. Eles não configuram algo autoral, apenas adornam um bolo sem gosto.

Algumas plantas chegam a apresentar área de serviço maior do que a cozinha, talvez fruto de arquitetos que tenham vivido longe de casa e perdido a sua ligação com a cozinha. Resta sua conexão com a limpeza da roupa.

As ligações entre os espaços da casa são absolutamente e repetidamente entediantes. São as mesmas plantas, sejam de um arquiteto(a) anônimo (seus nomes não aparecem nos anúncios) sejam dos famosos, qualquer um. É a mesma catilinária de quartos, em tamanho reduzido, sem um espaço de estudo e com armários liliputianos. Os banheiros imitam as cozinhas “egípcias” onde é melhor se entrar de lado, como as figuras hieroglífica.

As salas de estar, que são a tradução direta “living”, agora se conectam diretamente ao terraço. Ligadas ao terraço para propiciar um aumento de área, para as exíguas salas, bem entendido. E onde as prefeituras nem sempre estão de acordo. Terraço é terraço e sala é sala, as prefeituras criaram uma legislação, construída letra a letra para a burla, numa destas irracionalidades que as leis costumam ter. o terraço em geral e até uma determinada área, não conta como fator construtivo. A esperteza está em transformar o terraço em um pedaço de sala, pela colocação de um único nível. O fator construtivo deveria levar em conta e simplesmente incorporar ao valor do IPTU. Evitar-se-ia constrangimentos arquitetônicos.

Ainda que seja, um adepto fanático do churrasco, não sou favorável a ideia de que todo terraço deva ter uma. 90% das pessoas não utilizam nem gostam tanto de churrasco.
Essas plantas são para uma família cristalizada no tempo, ou seja, as plantas não evoluem com a família. A família mudou de configuração, os proprietários que arranjem outro. As pessoas não gostam de mudar. Elas têm que se mudar. E aí encontramos famílias que se reduziram ao casal, e que possuem 4 dormitórios, sem que saibam que destino dar a aqueles espaços. Uma planta ampla de 1 dormitório seria a ideia, mas não há no mercado.

Se as plantas são semelhantes não está ai o diferencial autoral!
Ah! E a fachada? Simmmm aí pode estar o desenho autoral que se procura, ou seja, o escritório de arquitetura produz uma roupagem diferente capaz de atrair a atenção das pessoas na rua.

Sem dúvida quando olhamos alguns dos indícios produzidos na cidade de São Paulo podemos notar o arrojo de alguns, a produção de uma arquitetura diferenciada e inclusiva e outras que são absolutamente isolacionistas, produzindo um local para poucos.

A utilização de arquitetos de renome, confere, evidentemente valor ao imóvel, mas isto não significa necessariamente que estejamos diante de uma inovação. O grande nome nem sempre corresponde a uma grande inovação.

Independentemente do que se ache, eles contribuem para a ambiente urbano, criando por vezes ligações e rompendo barreira dos muros, para isto basta ver as propostas da Triptyque, para a Zarvos. Suas fachadas são absolutamente fascinantes e suas propostas de verde melhoram certamente a cidade. Mas ao olhar suas plantas elas não se diferenciam da repetição.

Mas é preciso lembrar que isto não é autoral especificamente, pois qualquer desenho tem um autor ou autora, e a arquitetura em geral, é autoral por filosofia e ofício. A profissão nasce sob a ótica da autoridade sobre o resultado, ou a autoria. Muito se discute lá fora e pouco aqui sobre esta questão, entretanto grandes escritórios, tem departamentos para cuidar deste assunto, e seus colaboradores e funcionários se submetem a contratos de exclusividade.

Quando estamos falando de autoria de projeto, ou melhor de projetos de autoria, não estamos apenas falando de uma discussão contemporânea, mas de uma tradição que tem mais 6 séculos. Leon Battista Alberti, arquiteto do “Quattrocento” italiano, é o primeiro a propor o trabalho autoral, através dos desenhos que eram executados e enviados a obra para sua execução. Bastaria a seus executores construir em escala maior aquilo que o desenho representava. Em contrapartida a Brunelleschi, que trabalha no local da obra, exercendo uma espécie de tirania com os trabalhadores .

Como podemos ver a discussão não é de hoje e não se encerrará amanhã, é só preciso colocar as questões em seu devido lugar. Convido arquitetos e arquitetas a uma reflexão.

REFERÊNCIAS


[1] Boas ideias vêm de qualquer lugar. É mais importante reconhecer uma boa ideia do que o autor dela. A arquiteta americana Jeanne Gang é a fundadora e líder do Studio Gang

 

[2] Veja mais aqui: https://economia.estadao.com.br/blogs/radar-imobiliario/arquitetura-e-aposta-de-incorporadoras-para-se-diferenciar-na-crise/?utm_source=estadao:mail&utm_medium=link

 

[3] Para mais ver aqui: http://reviewsinculture.com/2014/04/01/architectures-struggle-with-authorship/


MUROS E PAISAGISMO

MUROS E PAISAGISMO


“Even paradise could become a prison if one had enough time to take notice of the walls.1
Morgan Rhodes

Confesso que não sou muito apegado a nenhum dos dois. Apesar de ser arquiteto e de trabalhar num escritório que dividimos, com paisagistas de primeira, e somos amigos de grandes nomes do paisagismo da cidade (são na verdade, de nível internacional) não sou apaixonado por jardins privados (dão um trabalho danado para cuidar, e não sou chegado a este tipo de trabalho), mas reconheço sua importância fundamental na arquitetura.

Também não sou chegado a muros! Morei vários anos numa casa que não possuía muros e cuja porta para a rua ficava aberta a noite toda. A expressão do filosofo Thomas Hobbes 2, inglês do século XVII, vem bem a calhar: a trava na porta já foi um erro! Significando que a segurança deixou de ser função do estado, e passou a ser uma atitude de guerra e de desconfiança, a guerra de todos contra todos. Os muros representam uma separação incomoda entre o público e o privado, mas não é necessário um objeto físico para estabelecer esta relação.

Na recente viagem que fiz, a Portland 3 EUA, fiquei impressionado em ver uma cidade, que além de não ter muros, parece ser formada de jardineiros.
Todas as casas, com raríssimas exceções, possuem jardins muito bem cuidados e de uma beleza capaz de chamar a atenção de qualquer um, mesmo quem não goste de jardins. É a cidade mais arborizada dos Estados Unidos. E a função não é somente a beleza, mas fundamentalmente contribui para o silencio da cidade. Diferentemente da balburdia das nossas cidades, Portland se destaca pelo seu silencio incomum, ao menos para uma cidade de suas dimensões (ver post sobre o som do silêncio).

A palavra jardim, tem seu significado etimológico, de lugar cercado e guardado, muito provavelmente se refere a um local de plantas e legumes, separado para evitar acesso de animais ou pessoas. Assim jardins e muros, mantém uma irmandade semântica. Mas diferentemente dos jardins cercados que temos por aqui, em Portland eles chamam atenção por serem sem cercas. Nas ruas e avenidas se encontram casas sem muro algum, as vezes lateral, mais para demarcação e cerca de animais.

Em Campinas o primeiro condomínio 4 fechado data de final dos anos 60, feitos a partir das ideias do empreendedor Brás Soares, que lançou vários outros. Tendo recebido um folheto, numa viagem ao exterior, achou que seria uma boa ideia para Campinas. O primeiro foi aprovado em 1974, possuía apenas 74 lotes mas muito provavelmente seu projeto data de final dos anos 60. Ele se juntou a um grupo de médicos e empresários e lançou o Sítios de Recreio Gramado(conhecido mais como Chácaras Gramado) e posteriormente Alto da Nova Campinas entre outros. A ideia inicialmente do Chácaras Gramados era um local sem muros, a ideia funcionou durante os anos iniciais e acabou por se perder, hoje praticamente todo o condomínio é resguardado pelos muros que o cercam as residências e guardam seu jardim com um portentoso e por vezes intransponível muro.

O Brasil não é um país em que a tarefa de jardinagem seja ocupada pelo proprietário. Em geral, face a disponibilidade de mão de obra barata (nem tão barata assim, o trabalho de jardinagem de um terreno de 350 m², incluindo a residência, pode custar até 300 R$ por dia), o trabalho fica a cargo de jardineiros, cujo desconhecimento, em muitas das vezes, se resumem a cortar a grama e aparar as folhagem.

Diferentemente de Portland parece que a cidade inteira é constituída por habilidosos jardineiros, ciente e conhecedores de cada planta e arbusto. A ausência do muro possibilita ao compartilhamento de cada jardim, contribuindo para a sensação de beleza da cidade.

residência Juliana e James Peterman

A ideia de muro, ou de demarcação de propriedade data da introdução da agricultura, 10.000 anos atrás, e visava a demarcação de propriedade e áreas de cultivo e pastoreio. É a instituição da propriedade privada. Nos estados Unidos é fácil encontrar a placa “Não transpasse, propriedade privada”, com a anuência da lei violações desta regra permitem ao proprietário atirar em quem ultrapasse. Um infeliz presidente parece crer nisto e tenta transplantar esta nefasta ideia.
Os muros impedem a visão dos jardins, assim a beleza destes não é vista. Existem estudos que comprovam que casas com muros são mais sujeitas a assalto do que as que não tem contrariando o senso comum. Inclusive há um estudo 6 indicando que locais onde o porte de arma é livre, há uma chance maior de roubos:

“Owning one or more firearms may make you feel secure against a burglary threat, but the reality is very different.
A study published by the National Bureau of Economic Research has shown that burglary rates tend to increase when more homeowners in a particular community own guns.”7

Assim como alerta vale lembrar que armas não garantem um segurança maior. Bom, a bem da verdade nem muros nem condomínios fechados. Nos últimos anos vimos uma serie de assaltos, contrariando a pretensa segurança. Isso somente fez uma indústria de segurança ganhar mais, sem que seus resultados sejam uma garantia de uma vida melhor. Em princípio, condomínios deveriam ser locais mais calmos para se viver. A busca não seria só por segurança, mas uma maior tranquilidade e a possibilidade das crianças voltarem as ruas.

Em Portland é interessante ver um grande número de condomínios e existem até com muros, mais na sua grande maioria estão abertos junto ao estacionamento. Projetos semelhantes aos de Pequenas Vilas, aqui em Campinas, vê-se aos montes. Diferentes formatos de habitação são encontrados, como estúdios, 1, 2 e dormitórios em configurações um pouco diferentes da nossa, que em geral estão em um mesmo edifício. E não segregados como os nossos, onde cada edifício possuiu quase que sempre uma mesma configuração.

É provável que a partir de agora possamos ver estas novas configurações 8 em edifícios que estejam surgindo.

Mas é interessante observar que fora dos condomínios nossas residências tenham pouco cuidados ao jardim. Eu mesmo, morei numa casa, onde o proprietário retirou o jardim, e cimentou a área – só dava trabalho. Foi a sua justificativa.

Os jardins sem sombra de dúvida humanizam e embelezam o espaço público e melhoram nossas residências. A retirada dos muros melhoraria a segurança e o convívio com as pessoas.


REFERÊNCIAS

1. “Até o paraíso pode se tornar uma prisão se alguém tiver tempo suficiente para notar os muros.” Morgan Rhodes escritora de livros de fantasia.

2. Thomas Hobbes filosofo inglês autor de “O Leviatã” obra que fala sobre a relação dos cidadãos, seus contratos sociais e o estado.

3. A cidade de Portland, capital do Estado de Oregon, noroeste dos EUA, tem 639.000 habitantes, a zona metropolitana por volta de 2.000.000 de habitantes

4. Ver aqui: http://www.campinas.sp.gov.br/governo/seplama/planos-locais-de-gestao/doc/cadmz8.pdf

5. Sítios de Recreio Gramado, a denominação se deve a dois fatores, o primeiro é que não havia uma legislação específica para condomínios, a segunda é que o parcelamento de solo em áreas de 5.000 metros quadrados era para chácaras.

6. Veja aqui: https://www.creditdonkey.com/why-burglars.html

7. “Possuir uma ou mais armas pode fazer você se sentir mais segura diante as ameaças de roubo, mas a realidade é ao contrário.
Um estudo publicado pelo Escritório Nacional de Pesquisa Econômica mostrou que os índices de roubos tendem a ser mais altos quando proprietários de uma comunidade possuem armas. Ver item 6, razão 19.

8. Posso estar errado, mas creio que o primeiro edifício com diferentes configurações, só surgiu em 2018, com o edifício da MaxHaus, que combina uma planta básica de 70 m² com diversas possibilidades de 1 a 4 dormitórios.


SOM DO SILÊNCIO

O SOM DO SILÊNCIO


“When I pronounce the word Future,

the first syllable already belongs to the past.

When I pronounce the word Silence,

I destroy it.”1

Wisława Szymborska

Uma coisa fácil de se notar e que vivemos numa sociedade extremamente barulhenta; carros, cães, ônibus, vento, chuva, pessoas falando e ruídos de fundo. Tudo isto faz da cidade um inferno sonoro.

Mas em primeiro lugar uma coisa precisa ficar clara, não existe silencio!

Nossa condição humana não permite que fiquemos sem ouvir sons (excluindo os casos de surdez). Nossa constituição mantem a audição sempre em alerta. Se você entrar numa câmara anecoica , você começará ouvir seus ruídos, coração, pulsação, movimentos peristálticos enfim todos os ruídos que fazemos, mas nosso seletivo ouvido não retém.

Em geral consideramos que o nível de 40-50 decibéis como silencioso, mas efetivamente não e, ouve-se sussurros e baixos ruídos. Isso se deve a uma labilidade moderna, considerando que não podemos viver sem um nível de barulho.

Sussurro 20 dB
Conversa normal 50 dB
Liquidificador 85 dB
Ipod 115 dB
Avião durante a decolagem ou um trio elétrico 130-140 dB
Importante: O limiar da dor está em 120 decibéis.

Nosso ouvido ouve dentro de um limite de 20 a 20.000 Hz. Que é uma faixa pequena se compararmos com os cães, que em geral ouvem até os 40.000 Hz. Ouvem o que nós não podemos ouvir. Aqueles apitos silenciosos que treinadores usam, por exemplo.

Mas as arquitetas(os) dão pouco valor ao silencio!
O uso de proteção adequada nas casas, ambientes de trabalho e principalmente em bares e restaurantes e quase inexistente. Não é raro o proprietário de um bar ou restaurante gastar um milhão na feitura de bar e se recusar a gastar 10 ou 20 mil na proteção acústica.

Níveis de ruído acima do indicado, reduzem a capacidade de trabalho a razão de 20%, por hora!!! Ou seja, 5 horas de exposição ao ruído a produtividade tende a cair a zero! Como os departamentos de recursos humanos tratam isso ou não e se tratam não se sabe.

Estudos mostram que pessoas sujeitas a exposição de ruídos altos e contínuos e perda de audição tem mais chances de sofrer ataques cardíacos do que as outras pessoas. Nos ambientes de trabalho os efeitos são mais dramáticos pois nem sempre a solução está ao alcance. Ar condicionado, impressoras, pessoas falando, ruídos externos e de fundo e soluções inadequadas de acústica pioram em muito as condições de produtividade. Mas o ruído muitas das vezes e visto como uma coisa natural advinda da neutralidade do edifício. O ambiente nunca é neutro e sempre há consequências para as pessoas. Nós arquitetas(os) deveríamos dar uma atenção muito maior a fim de garantir um ambiente menos ruidoso e mais saudável.

Nossas casas e apartamentos não possuem proteção adequada ao avanço dos ruídos, cada vez maiores nas nossas cidades. Enquanto na Europa e EUA, se utilizam isoladores e vidros até quádruplos no Brasil nenhum investidor ou construtor está muito preocupado com isto. Nossas residências e nossa qualidade de vida ganhariam muito e numa situação em que projetássemos com maior rigor estas questões.

Uma das prováveis razoes para a rejeição ao dry-wall pode estar na falha de não termos paredes que sejam acusticamente eficientes. Isto não se deve a defeitos de material, mas sim a nossa incompetência em providenciar as devidas proteções. Som é como água penetra por todos locais possíveis. Quando olhamos o que é feito no exterior podemos ver que todos os fechamentos estão vedados, portanto, o som não escapa. No caso do Brasil se deve a desconhecimento e uma certa laxidão com os detalhes.

Uma coisa notável, nos EUA, pelo menos aqui em Portland, onde estou em visita, é o silencio nos locais públicos e no trânsito. Ao entrar num restaurante, grandes lojas em shopping uma coisa chama a atenção é a falta de barulho. Você caminha entre as diferentes áreas do supermercado, mesmo com música ambiente, o ambiente e silencioso.

Eventualmente o de ser também um aspecto cultural, sempre que você ouve pessoas falando um pouco mais alto são ou brasileiros ou latinos (mexicanos, colombianos, equatorianos etc.). Nós falamos mais alto e somos mais agitados.
Nas ruas e outro aspecto digno de nota, o quão silencioso é. Não se ouvem buzinas, brecadas ou arrancadas. Raro alguém brigar no trânsito, mas acima de tudo chama a atenção o silencio. Carros silenciosos, caminhões que deslizam sem o menos ruído, motos de grande potência que passam ronronando ao seu lado, e capaz de chamar a atenção de qualquer.

Uma coisa que deveríamos ter no asfalto(voltaremos a este assunto num post futuro) e a adição de borracha de pneus, o que representaria uma solução para montanha de pneus descartados a cada ano e ainda diminuiriam em muito o ruído da estrada, seja para os motoristas seja para quem vive nas cercanias das autoestradas. Em reportagem no site G1 informa que no “sistema Anchieta-Imigrantes, 88 km já estão cobertos com o asfalto borracha, e 360 mil pneus velhos foram reaproveitados desse jeito. O asfalto borracha é 30% mais caro que o comum, mas as vantagens compensam”. A viagem se torna mais silenciosa, mais segura, uma vez que o spray de água dos pneus e reduzido. Isto produziria não só uma rodovia mais silenciosa, mas uma cidade mais silenciosa.


REFERÊNCIAS

1 Brincadeira com a placa, colocou um adesivo no local de perigo e a leitura ficou assim:Não buzine, a não ser com raiva.

2 Uma câmara anecoica (sem eco) é uma sala projetada para conter reflexões, tanto de ondas sonoras quanto eletromagnéticas. Elas também são isoladas de fontes externas de ruído.


BAÚS, ARMÁRIOS, CLOSETS E QUARTOS

BAÚS, ARMÁRIOS, CLOSETS E QUARTOS

Se você dorme num quarto, razoavelmente confortável, você tem uma dívida com a senhorinha acima, Catherine de Vivone de Savelli, uma marquesa do século XVII, que por razões especificas, inventou e criou aquilo que chamamos de quarto. Essa história do quarto vale a pena ser contada.

Aparentemente os quatro elementos, da chamada, têm pouco a ver um com o outro.

Ainda que estejam ligados pelo uso, mas ao analisarmos, com um pouco maior de profundidade, veremos uma linha evolutiva entre eles, e em certa medida os baús e armários são os avós do quarto.

Baús e armários servem para a guarda de roupas, louças e armas. E eles tiveram uma importância grande na antiguidade. Eles eram os bens móveis, ou seja, os que podiam ser movidos conforme a necessidade. No caso dos nobres eram transportados de casa para casa. Não havia roupas sobressalentes. Closet deriva do francês antigo e significa local fechado, em geral para estudo ou prece, pode ter tido origem em “cubiculum”, local de reclusão. Ele é atestado a partir do século XVII, exatamente quando surge o quarto de dormir, separado de outros cômodos.

Armários acabaram por se tornar também guarda-roupas, substituindo com vantagens o baú que guardava a roupa e as de cama também, quando estes acessórios se tornaram mais baratos e acessíveis.

A introdução de tecidos de algodão, a partir do século XVII, de origem indiana, trouxeram um conforto maior, barateamento de preços e consequentemente permitiu um acesso maior ao bem. A corte francesa em parte foi responsável pelo processo ao introduzir seu uso, a despeito do rígido ritual das vestimentas e da proibição real. Seu uso foi de roupas a estofamento, passando pelo revestimento de paredes dos quartos.

O armário era o móvel mais importante na casa burguesa, século XVII, conforme descreve o arquiteto Witold Rybczynski, em seu livro sobre a casa.

O armário servia não somente como acessório de guarda, mas também como uma exibição publica de poder e riqueza. A guarda de porcelana e sua mostra identificava a opulência de seu proprietário.

O que nós chamamos de closet eram os garde-roube, ou guarda roupa. Na França os nobres eram obrigados a um rígido cerimonial, que envolvia a utilização de roupas especificas diante do rei. Era necessário um espaço para a guarda destas vestimentas. Hoje em certa medida temos um problema desta natureza, a quantidade de roupas que possuímos extrapola em muito a capacidade dos armários que temos em casas e apartamentos. Poucos, talvez, se lembrem como eram os armários nos quartos, não faz muito tempo, como da Fig.1.

Fig.1 Antigo Guarda Roupa. Foto do autor.

A noção moderna de um quarto privado e distinto de outras partes da casa é um conceito bastante recente na história da arquitetura, algo como 370 anos, somente a partir do século XVII é que a separação compartimentada da moradia surgiu. Começou nos palácios e casa de nobres e depois se espalhou, levando lentamente a outros segmentos da população. A casa simples não possuía compartimentos era um ambiente único. E mesmo, os mais ricos os quartos eram ligados uns aos outros, assim para se atingir um determinado cômodo deveria se passar por todos outros.

Fig.2. Abraham Bosse 1633. O casamento na cidade: A visita à criança

Olhando a fig.2 podemos considerar como um quarto perfeitamente normal aos nossos olhos: mulheres visitando sua amiga com as crianças. O quarto nos parece comum com luxo evidentemente, a lareira no quarto, uma grande cama, o ambiente bem decorado, cadeiras para todas (não era comum, a não ser em casas de pessoas de posse). Mas o que vemos aí, não era comum, são as primeiras imagens de quartos que começaram a surgir a partir do século XVII, não é possível saber ali, dado o ponto de vista da perspectiva, se o quarto se abre a outros espaços, a porta entreaberta parece indicar a um corredor ou galeria, as dimensões do quarto parecem ser reduzidas, face ao que era usual nas grandes casas.

O quarto era até o século XVII um ambiente público, não tinha a característica privada que possui hoje. Era local de visitação, conversa e refeições (a sala de jantar não estava ainda estabelecida claramente). Em 1630 uma mulher chamada Catherine de Vivone de Savelli, a Marquesa de Rambouillet, que sofrendo as agruras de um frio congelante na sua “chambre”, enorme e mal aquecida, transformou seu “garde-roube” (um closet, em termos modernos) num quarto privado, o que era incomum. Portanto aí se encontra a origem do nosso quarto de dormir e de outros pequenos afazeres.

 

REFERÊNCIAS:

[1] A etimologia pode nos levar a lugares errados, entretanto a base de armário, contém arma e é um derivado correto, podendo ser local de guarda de armas ou de roupas de guerra. Sua utilização se consolidou como guarda de louça e roupas.

 

[2] A filha de Luís XIV, Louise-Françoise de Bourbon, mais conhecida como Madame la Duchesse era uma apaixonada pela modernidade e a despeito da proibição de seu pai, ao algodão, utilizou e divulgou este tecido pela corte francesa.

 

[3] A expressão robe de chambre, em português roupão e que seria simplesmente roupa para se usar no quarto, passou a ser utilizando em todos os ambientes quando o algodão se tornou acessível. Os vestidos e roupas de algodão, eram usadas inicialmente somente no ambiente íntimo.

 

[4] Para um aprofundamento: DEJEAN, Joan. O século do Conforto quando os franceses descobriram o casual e criam o lar moderno. Civilização Brasileira. Rio de Janeiro. 2012.

 

[5] No filme Vatel: Um banquete para o Rei, de Ronald Jeffé. É possível ver como eram esses cômodos, antes da introdução das galerias que permitiam o acesso a quartos específicos sem se passar por todos os outros. É uma criação francesa e a palavra “galeria” como local de exposição de arte, é muito pertinente, pois seu criador o fez com duplo intuito expor sua grande coleção e possibilitar a circulação em separado.

 

[6] RYBCZYNSKI Witold. Pronuncia-se “Vitold Rubchesqui”. Arquiteto e escritor inglês. Escreveu inúmeras obras importantes, destacando-se “Casa: História de uma pequena ideia”, obra essencial a quem se interessa pela história da arquitetura e deveria ser obrigatória nas faculdades de Arquitetura.

 

[7] A porcelana até o século XVIII era importada da china e tinha altíssimos valores. A partir do trabalho de Johann Frederick Böttger, que descobriu o processo de fabricação foi possível sua fabricação na Europa, para mais ver o livro: GLEESON, Janet. O Arcano. Rocco Editora. Rio de Janeiro. 2012.

 

[8] É possível que este frio já fosse um sinal da pequena idade do gelo que atingiu a Europa no século XVII.


JANELA PARTE 1

JANELA PARTE 1

Janela, janelinha, porta,
campainha, trimmmmmmmm!!!

Por que falar de janelas?
Dou aula numa faculdade de arquitetura. E poucos tem noção da importância das janelas, nas residência e nos ambientes de trabalho. Alunos¹ durante 5 ou 6 anos decerto não aprenderão a sua história e relevância na arquitetura. Este artigo é dedicado a eles.
A singela brincadeira, em epígrafe, utilizada por pais e avós nos rostos das crianças, apertando ao final, o nariz, revela um pouco de como a arquitetura está ligada à nossa percepção, sem que tenhamos notado. A casa como um corpo e o corpo como uma casa.
A janela são os olhos, que permitem uma dupla interpretação, vêem fora e nos deixam ver dentro. É uma passagem.
A etimológica da palavra janela tem origem na palavra latina “ianuella² ”, diminutivo de “ianuas”, porta passagem, acesso³ . Ou seja, a janela é uma pequena porta, mais precisamente meia porta, pois ela se refere a parte superior da porta que era dividida, permitindo a entrada de iluminação e ventilação e impedia, na parte de baixo, a entrada de animais.
Existe uma palavra em latim e português, ‘fenestra’ que significa janela e é pouco usada em português, apesar de existir. Usamos mais um derivado que é defenestrar, que significa jogar pela janela. Essa palavra pode ter sido originada do grego “φαίνεω “(faíneo, eu olho).
A palavra window, em inglês, tem origem no Nórdico antigo ‘vindauga’, de’vindr – vento’ e ‘auga – olho’, i.e., olho de vento4 . se refere a um buraco por onde passa o vento, ou seja a ventilação. E é também um olho que vê,
A aproximação com janeiro, não é por acaso, a imagem de “Ianus’ o deus bifronte, que guardava o interior das casas e espantava os espíritos malignos estava em geral acima das portas. Janeiro é o mês que fecha o ano anterior e se abre ao novo. Extamente como faz uma janela.
A ligação entre porta e janelas, é evidente, não só etimologicamente como fisicamente. A janela deriva da porta (da porta falaremos num outro post).
O avanço no conhecimento construtivo e arquitetônico possibilitou através da colocação de vergas estruturais a existência inicial das portas e posteriormente das janelas. Ver figuras abaixo.

 

Fig.1 Fachada sem janela

Fig.2 Fachada com janela

 

 

 

 

 

 

 

 

A exemplo de outras inovações que a casa moderna possui, a janela é uma aquisição recente. Praticamente todas as casas tem uma coleção delas. São aberturas que permitem a ventilação e iluminação dos cômodos.
A maioria do tempo as casas não possuíam as aberturas, seja por dificuldades técnicas, a abertura de vãos requer paredes mais robusta e estruturadas de forma a permitir a instalação das janelas. Em geral a única abertura que possuíam era no teto para a ventilação, iluminação e saída de fumaça. A janela representou um passo importante na arquitetura.
É um detalhe que por vezes passa despercebido, tal é a presença das janelas na vida contemporânea. Nos arquitetos e decoradores, não damos, creio eu, a devida importância a esse aspecto da arquitetura, seja enquanto um aspecto importante na história da arquitetura, seja quanto sua importância técnica.
Uma viagem no tempo, serve não só para trazer a importância deste elemento da moradia, bem como mostrar a nova geração de profissionais, como olhar com mais atenção a este elemento arquitetônico.
Cada elemento da casa conta uma história importante na evolução da moradia, este blog tem a pretensão de levantar estes detalhes aqui e contar coisas a respeito destes elementos e se for possível dar direções as inovações ocorridas na atualidade. Tanto a janela quanto a porta guardam referencias importantes, que nós, ao abrirmos uma janela ou passarmos não nos damos conta.Desconhecemos o fato de que as portas foram personagem importantes em tragédias como a do terremoto de 1755 em Portugal. Não sabemos que janelas pagavam altos impostos até o século XIX. Tudo isto serve de repertório aos arquitetos e decoradores que queiram buscar algo além das fotos nos jornais e revistas. Somente as casas dos mais ricos e poderosos no período greco-romano possuíam janelas. Algumas até com vidros, como mostra a fig. 3

Fig.3 Pedaço de vidro romano.

Os romanos, foram os primeiros, ao que se saiba, a utilizar a tecnologia que eles desenvolveram a partir dos egípcios. Mas demorou muito para que se consegui obter vidros com transparência como temos hoje.
Se pudéssemos espiar uma casa na idade média, nosso nariz sofreria bastante, acostumados a uma higienização constante. Mas nossos olhos se surpreenderiam mais, ao não encontrarmos luz facilmente. Não havia para a maioria das pessoas, uma janela que pudesse iluminar o ambiente (no mais das vezes era até melhor!!!) para que pudessem enxergar e se movimentar.
As janelas no século XIII, se resumiam, na verdade a um buraco no teto e a metade da porta que poderia se abrir.
Quando existiam janelas, não haviam vidros. Papel encerado, tecido, pele de animais, ou chifres (sim, osso raspado até se obter uma pequena placa) ou mesmo madeira eram utilizados para dar alguma transparência e proteger um pouco contra as intempéries.
Antes de avançarmos, seria interessante cria um diferencial para as janelas. Uma classificação. Genericamente, poderíamos classificar as janelas em 3 categorias. Obstrutiva, Eurônotas e Iluminantes.
Obstrutivas são aquelas que vedam tanto ventilação quanto a iluminação e provavelmente pertenceram as primeiras gerações de janelas e aberturas. Podiam ser abertas ou fechadas, mas ao serem fechadas obstruíam a visão e o arreamento do cômodo. A implantação das primeiras janelas, se deu a um único cômodo, uma vez que a subdivisão das habitações, a exceção dos castelos, aconteceu de maneira generalizada a partir do século XVII.
Eurônotas são aquelas que permitem a ventilação e permitem ou reduzem a iluminação. Seu nome deriva do grego, ευνότιο, “Eûros” ventos do este e “νότιο,nótos” ventos do Sul e da chuva. Para os gregos e romanos se referiam os ventos predominantes do Sudeste. Assim as janelas que incorporam inovações importantes como a venezianas e treliças(muxarabi).
Iluminantes, como a própria palavras diz são aquelas que permitem ampla iluminação, através da incorporação de papel oleado, pele, madeira ou vidros.
Continua Parte 2…

REFERÊNCIAS

¹ Na verdade, não só alunos, os profissionais da área, em geral também desconhecem.

 

² A pronúncia de “ianuella” é “januella”, é ajustado ao português com a letra “J”, entretanto, o latim não possuía o jota que foi uma criação francesa do século XVI, uma adaptação para diferenciar novos sons do francês.

 

³ Para um olhar mais aprofundado ver JORGE, Luís Antônio. O Desenho da Janela. São Paulo. AnnaBlume.1995.

 

4 Para mais detalhes visitar: https://en.wikipedia.org/wiki/Window


ARQUITETURA DE M*RDA PARTE 2

ARQUITETURA DE M*RDA PARTE 2

As cidades medievais eram imundas, sujas e fedorentas, e segundo a expressão de São Bernardo: onde todo mundo fede, ninguém cheira mal.

Toda espécie de imundices estava jogada nas ruas e vielas. Mesmo dentro das casas na sua maioria, não haviam pisos, portanto, escarros, cuspe e restos de comida, quando não o número 1 ficavam espalhados pelos cantos.
Lembrando aqui que os utensílios domésticos eram móveis, portanto camas e banheiros eram transportados nas viagens de reis e nobres.

Quando surge o quarto, por volta de 1660, ou seja, em pleno século XVII, um espaço privado (chamado de petit appartment) e o quarto de banho aparecem, como necessidade e intenção de restringir uma atividade que em geral era pública. É bom lembrar que Versalhes com seus 700 quartos não contava com um só banheiro, no sentido moderno (ressalte-se que havia salle de bain, mas não possuíam privadas nem esgoto).

Por volta do século XVII, surgem, para a alta classe e monarcas as primeiras privadas portáteis. Luís XIV possuía várias e sua utilização era pública e sinal de prestígios para aqueles que assistiam o rei fazer suas necessidades. Seu uso iria se multiplicar com os nobres e burgueses querendo este moderno equipamento.

Começa surgir na sociedade uma noção mais clara entre o público e o privado, fazendo com que certas atividades, antes públicas, passem a serem realizados no privado. No excepcional filme Vatel – Um Banquete para o Rei tem uma cena onde o rei é acompanhado por um séquito, fazendo suas necessidades.

O número 1 era feito em qualquer lugar, pelos cantos do palácio. O número 2 era feito em pinicos e jogados ao jardim. Por que vocês acham que Versalhes tinha e tem jardim fantásticos????

O avanço da ciência e novas descobertas eliminaram o conceito de miasma (de que as doenças vinham pelo ar) e se passou a enxergar de maneira cientifica e metodológica os problemas de higiene.
Os sanitários e banheiros ficavam normalmente separados, até hoje é possível ver esta separação em apartamentos franceses e americanos. No caso brasileiro, no início estavam separados, mas na sua inserção no interior das residências já se fez a unificação.

O século XIX verá surgir as novas atitudes higienistas, vindas a partir da Alemanha irá se estender por toda Europa e o mundo. A Inglaterra irá iniciar a instalação de esgotos em Londres depois do terrível ano 1858, quando a sessão do parlamento teve que se fechado, por conta do cheiro fétido do esgoto jogado no rio Tamisa.

Esta onda higienista fará diversos países investirem em redes de esgotos de grandes capacidades. Londres, Munique, Paris e Rio de Janeiro passam a contar com uma rede de escoamento de esgoto, o que rapidamente trará os sanitários para dar maior conforto, próximo ou mesmo dentro de casa.
Uma revolução sanitária coloca o mundo na trilha correta e milhões de mortes são evitadas, embora ainda que hoje, por falta de saneamento, continue a trazer a tragédia a diferentes países.

No século XXI, mudanças de grandes dimensões começam a ocorrer nos banheiros, é depois da cozinha a área da casa a receber maiores impactos tecnológicos e inovações.

O conceito meramente sanitário se expandiu e a noção de bem-estar é cada vez mais presente. O banheiro passa a ser um “spa” doméstico.
A palavra SPA, um topônimo, vem da cidade de Spa, próxima a Liége, Bélgica. É uma cidade conhecida desde a antiguidade por suas águas termais e curativas. Aquae Spadanae, denominação possivelmente relacionada com “spargere” (em latim, ‘lançar aqui e ali, espalhar’ (gotículas)Existe uma falsa etimologia, que sugere que Spa significaria Sanitas per Aquam, não existe fundamento etimológico para isto.
Existe na Inglaterra uma cidade com o nome de Bath, uma antiga dominação romana, famosa por suas construções de banhos públicos e águas termais também.

A vida moderna com suas inúmeras interações pede que haja um momento de repouso no retorno ao lar. Já há alguns anos que a casa vem se modificando e se fundindo. A cozinha se fundiu com a sala, desapareceu a sala de visitas, e o quarto, uma invenção recente (1660) se mesclou com o banheiro. O cômodo que até pouco ficava fora da casa, está ao lado da área de repouso.

Bacias com capacidade de análise médicas e com conexão com a internet lançam informações sob o estado de saúde seus usuários. Os chuveiros vêm dotados de diferentes pressões e chegam a ter iluminação de led para as terapias de cromoterapia. Sistemas de aquecimento, seja solar ou promovido por células fotovoltaicas (para a eletrificação, bombas pressurizadoras e sistemas computacionais) elevam a qualidade do banho a níveis nunca vistos. A introdução em breve de pisos, com capacidade de armazenamento de dados, como peso, controle de temperatura e muito mais, estarão em breve no mercado. Utilização de banheiras, a partir da utilização de resinas, modificou as antigas e pesadas banheiras de ferro. Mecanismos de pressão e jatos d’água transformam a simples limpeza do corpo, num verdadeiro tratamento de saúde.

Vale a pena conhecer algumas das novidades que estarão presentes nos banheiros em breve:


https://nebia.com/pages/nebia-products
https://evadrop.com
https://skarptechnologies.com/https://www.us.kohler.com/us/Kohler-Introduces-Voice-Command-Technology-Into-The-Bathroom,-Announces-New-Smart-Home-Products-With-%E2%80%98KOHLER-Konnect%E2%80%99/content/CNT131200001.htm

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UMA ARQUITETURA DE M*RDA PARTE I

UMA ARQUITETURA DE M*RDA

O conforto para nossas necessidades fisiológicas só encontrou lugar muito recentemente, nos nossos banheiros modernos.
O banheiro tem uma longa história, mas grande parte dele fora de casa.
No caso brasileiro principalmente o banheiro entrou muito recentemente em nossas casas. Foi somente a partir do século XX, que este espaço passou a fazer parte do corpo da residência.

Quando nos abandonamos a caça e coleta a 12.000 anos atrás a necessidade de se segregar esta atividade surgiu. Mas não a palavra!
Caçadores-coletores caminham em média 12km por dia, suas necessidades são feitas ao longo do caminho e não há necessidade de um espaço físico para isso. Nem a palavra também.
A fixação dos humanos em determinados locais, fruto da agricultura, não trouxe, ao contrário do que se pensa, vantagens iniciais, para aqueles que a adotaram. A proximidade dos dejetos contaminou a água e trouxe doenças. Ao cabo de alguns milênios os primeiros agricultores chegaram a diminuir 10 centímetros em sua estatura. Fruto da monocultura e do déficit alimentar e de doenças dizimantes.

A primeira coisa a ressaltar o tabu linguístico que envolve a palavra. Tabu linguístico é quando evitamos pronunciar uma palavra, seja por conta da moral, proibições, medos e superstições, e a substituímos por outra, número 1 e número 2 por exemplo.
No caso do banheiro, local para tomar banho, evita-se dizer as outras atividades ali desempenhadas por mero recato de se explicitar o que acontece lá dentro.

Etimologicamente banheiro é o local do banho. Em praticamente todas as línguas o tabu se repete. Water closet, restroom, salle de bain, hammam, Badezimmer, sempre se referem ao banho.

As palavras em português retrete e mesmo latrina se referem a um espaço restrito, mas não diretamente a função de evacuar (um dos sentidos de lav- latino é escoadouro). A razão para não haver ou haver referência, é que o banheiro não era conhecido na antiguidade como nós os utilizamos agora.
Quando analisamos o período greco-romano não encontramos o banheiro inserido dentro das habitações, simplesmente não havia um local como nossos banheiros. A exemplo dos tigres1 brasileiros existiam os επιστάτες κοπρώνων (epistátes koprónon, os cuidadores de excrementos). Provavelmente recebiam dinheiro para retirar os dejetos das casas e o revendiam para fazendeiros para a produção de fertilizantes.
Palácios e residências dos poderosos podiam contar com sistemas de esgoto e drenagem, mas isto era inacessível a maioria da população. Existem referências de 3000 AEC2 em Knossos, Creta de sistemas de descargas com água em fluxo.

Os gregos não possuíam uma palavra específica para banheiro, aliás nem havia na casa um local exato para isto. A palavra τουαλέτα (toualéta) é um empréstimo do francês.

No período romano, foi desenvolvido um amplo sistema de fornecimento de água, através dos aquedutos e a construção de locais para o despejo de dejetos humanos, a Cloaca Máxima. Os romanos possuíam os banhos públicos, que forneciam local para o asseio do corpo, conversas e privadas. A figura abaixo mostra a razão da conversa ter entrado no meio da história. Os romanos levaram aos mais distantes rincões do império suas técnicas, ciência e conhecimentos com a água.

Os romanos não tinham em casa, banheiros. Eles em geral iam aos banhos públicos. Era uma atividade além de higiênica, social. Se conversava enquanto de desempenhavam as atividades, digamos primarias.

 

PRIVADAS PÚBLICAS ROMANAS

 

Um outro fato curioso entre os romanos, é que havia coleta e compra de urina. Utilizada na limpeza das roupas!!!(por conta das qualidades da ureia) e sua utilização no tingimento e fixação de cor nos tecidos.

O judaísmo, tem uma forma de utilização dos banhos como forma de purificação: mikveh. A imersão em água seja para a conversão, rituais de purificação. O banho é um aspecto ritualístico da religião.

Na religião católica não há um rito sobre o banho, a não ser o batismo. A religião não desenvolveu um processo ritualístico que envolvesse o banho ou que tivesse outros aspectos ligados a higiene.

Os árabes irão receber esta influência e junto com os ensinamentos do islã iram estabelecer regras restritas de limpeza. A prece, um dos pilares do islamismo, obriga seus praticantes a se lavarem antes das 5 preces diárias. A partir das cruzadas eles influenciaram o ocidente com o retorno dos banhos públicos que haviam desaparecido após a queda do Império Romano.

Eles seguem rigorosos preceitos do Wudu, que indica como e que partes devem ser lavadas antes das preces. Isto envolve não so as partes visíveis do corpo, bem como as íntimas.

(continua…)

1. Escravos que no Brasil, transportavam toneis de excrementos para serem jogados no rio ou mar.

2. AEC e EC Antes da Era Comum e Era Comum, é utilizado pela comunidade cientifica e é mais inclusivo do que AC e DC.


A ARQUITETURA DO LIXO

A ARQUITETURA DO LIXO

 

Nós somos produtores de uma quantidade enorme de lixo. Em média 383 quilos por pessoa por ano. Ou aproximadamente 1 quilo por dia. Para uma cidade como Campinas é uma montanha de lixo todos o santo dia!

O lixo sempre representou um problema mal resolvido pela civilização. Os romanos, em 200 EC já havia um serviço que se assemelhava ao que hoje temos como os lixeiros. A nossa palavra lixo é de origem etimológica controversa e obscura, teria se originado através da palavra lixívia, um produto desinfetante, na antiguidade produzido a partir das cinzas e soda cáustica, hoje aqui conhecido como águia sanitária.

O lixo é uma forma de descarte de material que sempre foi problemática nos agrupamentos humanos. A imagem de inferno como um local com fogo e cheirando a enxofre se deve ao lixão de Jerusalém, mais conhecido Geh Ben-Hinom ou literalmente “Vale do Filho de Hinom” que  é um vale em torno da Cidade Antiga de Jerusalém, e que veio a tornar-se um depósito onde o lixo, animais mortos e os corpos de crucificados(sim, ele pode ter sido jogado lá!) eram incinerados. O enxofre alimentava um fogo perpétuo no local.

O lixo até o século XIX era jogado diretamente nas ruas e calçadas. A expressão de alerta: água vai! Era o único aviso de que mijo estava sendo jogado, quando não coisa pior.

Somente a partir de 1875 se tornou público o serviço de coleta de lixo, na Inglaterra.

No Brasil durante muitos anos, um serviço infame, era conhecido como “tigres”, escravos que carregavam tonéis cheios de estrume humano, estes vazavam e manchavam os corpos, daí o apelido. Mas o lixo como restos de alimentos e descartes eram jogados nas ruas.

Em 1876 poder-se-ia dizer a data da implantação do serviço de limpeza pública no Brasil, através da contratação de uma empresa privada para a execução do serviço, a empresa de Aleixo Gary (sim, a palavra gari é derivada do nome dele), isto no Rio de Janeiro.

Se olharmos o outro lado do mundo, veremos o Japão, como uma outra forma de encarar o lixo. Lá a responsabilidade pelo lixo é total para os moradores. Ou seja, você deve dar cabo de seu lixo, e colocá-los corretamente nas latas de lixo correta, ou corre o risco de ver seu lixo devolvido. O caminhão de lixo, pode passar semanalmente, quinzenalmente, mensalmente ou até anualmente, de acordo com o tipo de lixo disposto. Todo cidadão tem um manual de lixo. O manual tem só 42 páginas!

A partir das preocupações higienistas do século XIX este panorama vem se alterando lentamente. E somente a partir das preocupações ecológicos, já nos anos 60 do século XX, é que o lixo começa a ser encarado nas suas verdadeiras dimensões.

A arquitetura ainda não enfrentou este problema de cara. Não possuímos uma solução adequada dentro de casa para a eliminação e descarte da enorme quantidade de lixo que geramos. A separação de tipologia de lixo, o reaproveitamento e reciclagem são extremamente baixos.

É evidente que um trabalho de mudança de hábitos e educação ambiental é fundamental, mas este não é um problema específico para a arquitetura.

As soluções que surgem em geral são exógenas, ou seja, vem de fora da residência, aí seria interessante criar um novo espaço “usina de lixo” ou “área de lixo” fazendo um paralelo com a área de serviço[1]. Uma área destinada ao tratamento do lixo que produzimos. Este espaço poderia separar de maneira eficiente o lixo, reciclar, produzir compostagem enfim processar o lixo de maneira mais eficiente.

Fig.1 Triturador da Insinkerator (produto disponível no Brasil)

Hoje existem equipamentos que podem auxiliar de forma eficiente o tratamento do lixo em casa. O primeiro são os trituradores, que moem parte do lixo orgânico e facilitam e diminuem os trabalhos de limpeza do esgoto. Seu uso massivo traria enormes benefícios aos serviços de tratamento de efluentes e esgotos.  Eles são 70% água e seu consumo é baixo. Diminuem a produção de metano, evitando que grande parte do lixo orgânico chegue aos lixões. Deveriam ser obrigatórios nas residências a partir de um certo porte, e subvencionadas a aqueles que não podem pagar. O financiamento viria dos recursos economizados com os serviços de lixo.

A compostagem caseira, é de fácil construção, um balde furado e pedrisco areia e folhas. Uma sofisticação desse equipamento pode ser vista na fig2. É um produto[2] que os americanos desenvolveram e seu uso tem crescido nos últimos anos. Diversas inovações tem surgido com a crescente preocupação com o lixo.

Fig.2 The FoodCycler FC-30

fig.3 Zera, máquina de compostagem, da Whirlpool

Os produtos são desenvolvidos por grandes corporações e por pequenas e inventivas. Com a utilização de ingredientes ou não. Os arquitetos deverão em breve prever estes equipamentos nas cozinhas. As cozinhas são o espaço da casa que mais tecnologia tem recebido. E pouca atenção tem sido dada, uma vez que tudo é eletrificado, os arquitetos tem poucas preocupações com pontos de energia e dados nas cozinhas. A colocação de roteadores sobre as portas de cozinhas se tornara mandatório em pouco tempo.

 

 

 

 

 

 

[1] A área de serviço guarda este nome em função não ao serviço, mas a serviçal que executava ali seus trabalhos. A verdadeira área de serviço é a casa toda, que demanda trabalhos de limpeza e manutenção.

[2] Para ver mais aqui https://www.youtube.com/watch?v=DdJSBZn3ehU e aqui: https://www.youtube.com/watch?v=1MpM8fq73G8 e aqui: www.insinkerator.com