CLIENTE: QUE DIABOS É ISTO?

A palavra cliente tem sua origem no latim, cliens-entis, aquele que estava sob a proteção de um patrono.
As coisas mudaram muito desde então. O cliente hoje, é o patrão. Acontece que grande parte de suas demandas, ou não são bem claras ou ele tem uma visão incompleta de suas necessidades, no caso pior o arquiteto não consegue compreender claramente suas necessidades.
O primeiro fato é que não há no curso de arquitetura uma cadeira chamada ‘cliente 1.1” que seria uma forma de entender esta figura e melhor compreender e resolver seus problemas.
O cliente é complexo, difuso e confuso. Me lembro claramente trabalhando com Ricardo Badaró e Roberto Leme de um cliente para qual eles estavam desenvolvendo um projeto, térreo, quando a esposa do cliente pediu uma escada que ela havia visto na novela. Não houve quem a demovesse da escada. O projeto virou um imbróglio tão grande que o projeto não avançou. Num outro caso o cliente queria uma série de portas pois ele não queria que o filho tivesse acesso ao quarto dele. Ele pediu para colocar um terceiro pavimento, para poder colocar, um corredor e novas portas afim de dificultar o acesso.
O arquiteto se depara com estas questões no seu dia a dia e nem sempre estamos preparados para lidar com estes casos de maneira correta. As vezes os casos são mais simples, um problema técnico ou apego a velhas tecnologias. Tivemos um cliente que não queria trocar as lâmpadas da vitrine de sua loja que estava sendo reformada. A substituição por leds, explicamos nós, não tinha somente a função de economia, mas substancialmente a melhoria da visibilidade de seus produtos. É sabido que locais melhores iluminados podem alavancar em até 20% as vendas. Não é só isto.
Locais mal iluminados reduzem a capacidade e desempenho dos funcionários em até 15%, por hora! Junte-se a este ambiente, ruído, pó, temperatura, ventilação e iluminação e você começará a entender a baixa produtividade do trabalhador brasileiro. E tente explicar ao cliente estas consequências em relação as opções ofertadas pelo arquiteto. É raro que ele opte pela melhor. A opção é quase sempre a mais barata.
Uma conta simples, um projeto sem arquiteto pode levar o cliente a executar um programa maior do que ele precisa. Por exemplo, uma casa que poderia ter 200m² ter 220m², esta pequena diferença pode custar R$70.000,00., que é mais que o suficiente para pagar um bom arquiteto e sobrar ainda.
Como tudo nesta vida tem um lado bom e um ruim (menos o disco do Orlando Moraes). Há arquitetos que provocam gastos, desnecessários ao cliente. Mas estes são os maus profissionais.
A arquitetura deve ser clara, transparente e eficiente aos olhos do cliente, não há que se ocultar coisas para o cliente.
É o caso das famigeradas “RT”, reserva técnica. Que corresponde a um determinado valor que vai para o arquiteto que indicar ou comprar o produto numa determinada loja. Já se sabe que este tipo de oferta, além de representar uma falta de ética para com o cliente, representa uma falta grave da profissão passível de punição. A solução a meu ver é simples, aviso na porta, 10% de desconto para o cliente com arquiteto. Não há desconto para cliente sem arquiteto. A relação fica clara e transparente. E não prejudica o cliente. O arquiteto não pode viver às custas de RT, ao aceitar isto, desvaloriza o projeto e rebaixa toda a profissão. Não é um benefício a todos.
O cliente precisa entender que o trabalho custa e não há risco zero. Empresários do setor da construção precisam entender que o arquiteto é um dos seus mais valiosos ativos. Construtoras precisam entender que o arquiteto tem valor igual ou superior ao corretor (não é um julgamento de valor), pois é através de seu projeto que ele movimenta sua obra.
O desprezo pelo trabalho do arquiteto tem levado a uma desvalorização da profissão.
O cliente também é responsável por isto!