MUROS E PAISAGISMO


“Even paradise could become a prison if one had enough time to take notice of the walls.1
Morgan Rhodes

Confesso que não sou muito apegado a nenhum dos dois. Apesar de ser arquiteto e de trabalhar num escritório que dividimos, com paisagistas de primeira, e somos amigos de grandes nomes do paisagismo da cidade (são na verdade, de nível internacional) não sou apaixonado por jardins privados (dão um trabalho danado para cuidar, e não sou chegado a este tipo de trabalho), mas reconheço sua importância fundamental na arquitetura.

Também não sou chegado a muros! Morei vários anos numa casa que não possuía muros e cuja porta para a rua ficava aberta a noite toda. A expressão do filosofo Thomas Hobbes 2, inglês do século XVII, vem bem a calhar: a trava na porta já foi um erro! Significando que a segurança deixou de ser função do estado, e passou a ser uma atitude de guerra e de desconfiança, a guerra de todos contra todos. Os muros representam uma separação incomoda entre o público e o privado, mas não é necessário um objeto físico para estabelecer esta relação.

Na recente viagem que fiz, a Portland 3 EUA, fiquei impressionado em ver uma cidade, que além de não ter muros, parece ser formada de jardineiros.
Todas as casas, com raríssimas exceções, possuem jardins muito bem cuidados e de uma beleza capaz de chamar a atenção de qualquer um, mesmo quem não goste de jardins. É a cidade mais arborizada dos Estados Unidos. E a função não é somente a beleza, mas fundamentalmente contribui para o silencio da cidade. Diferentemente da balburdia das nossas cidades, Portland se destaca pelo seu silencio incomum, ao menos para uma cidade de suas dimensões (ver post sobre o som do silêncio).

A palavra jardim, tem seu significado etimológico, de lugar cercado e guardado, muito provavelmente se refere a um local de plantas e legumes, separado para evitar acesso de animais ou pessoas. Assim jardins e muros, mantém uma irmandade semântica. Mas diferentemente dos jardins cercados que temos por aqui, em Portland eles chamam atenção por serem sem cercas. Nas ruas e avenidas se encontram casas sem muro algum, as vezes lateral, mais para demarcação e cerca de animais.

Em Campinas o primeiro condomínio 4 fechado data de final dos anos 60, feitos a partir das ideias do empreendedor Brás Soares, que lançou vários outros. Tendo recebido um folheto, numa viagem ao exterior, achou que seria uma boa ideia para Campinas. O primeiro foi aprovado em 1974, possuía apenas 74 lotes mas muito provavelmente seu projeto data de final dos anos 60. Ele se juntou a um grupo de médicos e empresários e lançou o Sítios de Recreio Gramado(conhecido mais como Chácaras Gramado) e posteriormente Alto da Nova Campinas entre outros. A ideia inicialmente do Chácaras Gramados era um local sem muros, a ideia funcionou durante os anos iniciais e acabou por se perder, hoje praticamente todo o condomínio é resguardado pelos muros que o cercam as residências e guardam seu jardim com um portentoso e por vezes intransponível muro.

O Brasil não é um país em que a tarefa de jardinagem seja ocupada pelo proprietário. Em geral, face a disponibilidade de mão de obra barata (nem tão barata assim, o trabalho de jardinagem de um terreno de 350 m², incluindo a residência, pode custar até 300 R$ por dia), o trabalho fica a cargo de jardineiros, cujo desconhecimento, em muitas das vezes, se resumem a cortar a grama e aparar as folhagem.

Diferentemente de Portland parece que a cidade inteira é constituída por habilidosos jardineiros, ciente e conhecedores de cada planta e arbusto. A ausência do muro possibilita ao compartilhamento de cada jardim, contribuindo para a sensação de beleza da cidade.

residência Juliana e James Peterman

A ideia de muro, ou de demarcação de propriedade data da introdução da agricultura, 10.000 anos atrás, e visava a demarcação de propriedade e áreas de cultivo e pastoreio. É a instituição da propriedade privada. Nos estados Unidos é fácil encontrar a placa “Não transpasse, propriedade privada”, com a anuência da lei violações desta regra permitem ao proprietário atirar em quem ultrapasse. Um infeliz presidente parece crer nisto e tenta transplantar esta nefasta ideia.
Os muros impedem a visão dos jardins, assim a beleza destes não é vista. Existem estudos que comprovam que casas com muros são mais sujeitas a assalto do que as que não tem contrariando o senso comum. Inclusive há um estudo 6 indicando que locais onde o porte de arma é livre, há uma chance maior de roubos:

“Owning one or more firearms may make you feel secure against a burglary threat, but the reality is very different.
A study published by the National Bureau of Economic Research has shown that burglary rates tend to increase when more homeowners in a particular community own guns.”7

Assim como alerta vale lembrar que armas não garantem um segurança maior. Bom, a bem da verdade nem muros nem condomínios fechados. Nos últimos anos vimos uma serie de assaltos, contrariando a pretensa segurança. Isso somente fez uma indústria de segurança ganhar mais, sem que seus resultados sejam uma garantia de uma vida melhor. Em princípio, condomínios deveriam ser locais mais calmos para se viver. A busca não seria só por segurança, mas uma maior tranquilidade e a possibilidade das crianças voltarem as ruas.

Em Portland é interessante ver um grande número de condomínios e existem até com muros, mais na sua grande maioria estão abertos junto ao estacionamento. Projetos semelhantes aos de Pequenas Vilas, aqui em Campinas, vê-se aos montes. Diferentes formatos de habitação são encontrados, como estúdios, 1, 2 e dormitórios em configurações um pouco diferentes da nossa, que em geral estão em um mesmo edifício. E não segregados como os nossos, onde cada edifício possuiu quase que sempre uma mesma configuração.

É provável que a partir de agora possamos ver estas novas configurações 8 em edifícios que estejam surgindo.

Mas é interessante observar que fora dos condomínios nossas residências tenham pouco cuidados ao jardim. Eu mesmo, morei numa casa, onde o proprietário retirou o jardim, e cimentou a área – só dava trabalho. Foi a sua justificativa.

Os jardins sem sombra de dúvida humanizam e embelezam o espaço público e melhoram nossas residências. A retirada dos muros melhoraria a segurança e o convívio com as pessoas.


REFERÊNCIAS

1. “Até o paraíso pode se tornar uma prisão se alguém tiver tempo suficiente para notar os muros.” Morgan Rhodes escritora de livros de fantasia.

2. Thomas Hobbes filosofo inglês autor de “O Leviatã” obra que fala sobre a relação dos cidadãos, seus contratos sociais e o estado.

3. A cidade de Portland, capital do Estado de Oregon, noroeste dos EUA, tem 639.000 habitantes, a zona metropolitana por volta de 2.000.000 de habitantes

4. Ver aqui: http://www.campinas.sp.gov.br/governo/seplama/planos-locais-de-gestao/doc/cadmz8.pdf

5. Sítios de Recreio Gramado, a denominação se deve a dois fatores, o primeiro é que não havia uma legislação específica para condomínios, a segunda é que o parcelamento de solo em áreas de 5.000 metros quadrados era para chácaras.

6. Veja aqui: https://www.creditdonkey.com/why-burglars.html

7. “Possuir uma ou mais armas pode fazer você se sentir mais segura diante as ameaças de roubo, mas a realidade é ao contrário.
Um estudo publicado pelo Escritório Nacional de Pesquisa Econômica mostrou que os índices de roubos tendem a ser mais altos quando proprietários de uma comunidade possuem armas. Ver item 6, razão 19.

8. Posso estar errado, mas creio que o primeiro edifício com diferentes configurações, só surgiu em 2018, com o edifício da MaxHaus, que combina uma planta básica de 70 m² com diversas possibilidades de 1 a 4 dormitórios.