O CLIENTE, QUE DIABOS É?

A palavra cliente tem uma origem etimológica curiosa: ela deriva de “cliens”, palavra latina que designava alguém que estava sob a proteção de um patrono .
Seu significado mudou muito desde então. E principalmente, para arquitetos . Hoje o cliente é o patrono, mas isto não significa que haja proteção.O cliente é a fonte de seus recursos e procura-se atender aos seus desejos. Mas seus desejos são legítimos do ponto de vista da arquitetura?
A resposta pode ser dúbia. Por um lado, o cliente tem todo o direito de pedir aos arquitetos o que deseja como moradia, ponto comercial ou instalação industrial. O problema é saber se o cliente sabe exatamente o que quer? Do outro lado, os arquitetos, em tese, sabem mais sobre o espaço do que o cliente, exatamente por isso é que o cliente solicita aos arquitetos o desenvolvimento de projetos. Aí é que temos um impasse.
Como cliente, imagine-se dirigindo-se ao médico e dizendo que você pretende fazer uma cirurgia, por exemplo de apêndice, mas como não é o especialista, você gostaria que ele fizesse a operação. Mas você quer que ele faça não pelas vias convencionais, mas sim vindo das costas para a frente, começando perto do pescoço e chegando até a região abdominal. Pode ser que o paciente não se assuste, mas o médico sim.
O mesmo acontece com arquitetos!
Sim as pessoas entram nos escritórios e pedem o que por vezes e não raras coisas que parecem com o exemplo acima. Nos já tivemos cliente querendo a construção de shopping em formato de coliseu! Tentamos nos aproximar de seu desejo, mas em vão. Nas palavras dele: Não foi isso que eu mandei vocês desenharem! A conversa não acabou bem. Seria mais esqueleto na paisagem. Nosso nome seria lembrado, o dele, não.
Assim o cliente tem desejos e sonhos, mas os arquitetos é que ficam com os pesadelos (o contrário também é verdadeiro, e já já falaremos disto), acontece que muitos destes sonhos são irracionais. Já tivemos a chance, de inúmeras vezes, notar que o cliente quando chega com o desenho de uma casa que ele deseja, em geral, é a mesma casa onde ele mora, só que maior. A pergunta que se faz é; precisa? Em geral não.
Meu sogro, sempre dizia que ninguém precisa de uma casa de mais de 200m² (é muita área!) e ele morava numa casa de 800m². Certa vez, próximo ao fim da obra, desta mansão, ele perguntou ao arquiteto, por que estava ficando tão cara a obra. Ele havia acabado de descobrir que a obra tinha 800m². O arquiteto lhe falou que se ele soubesse que era tão grande e cara, ele não a faria. Isto mostra a irresponsabilidade entre os dois. O cliente e o arquiteto. Havia partes da casa que nunca haviam sido utilizadas e a lareira não funcionava.
O cliente, me perdoem, mas na maioria dos casos, não sabem o que querem. É normal que seja assim, vivemos num mundo complexo e de especialistas, não temos acesso a tudo. Ele vive do passado e do presente, só que ele irá morar no futuro. A obra não é instantânea. A casa, o escritório ou a fábrica, nascem, crescem envelhecem e eventualmente morrem.
O cliente não pensa que a casa deva se modificar como ele e sua família, se modificam. Ele é imune a reflexão de que a casa deve evoluir com ele. É nosso papel tentar convence-los de que há algo melhor para ele. Sempre há.
O cliente é a fonte dos recursos, que todo e qualquer escritório ou arquiteto precisa, mas é importante orientar nossos clientes que podem e devem aprender algo novo, como nós, que temos o dever de fazê-lo. Nós trabalhamos com algo chamado projeto , ou seja, algo que está à frente, no futuro.
Mas porque diabos estamos projetando para o passado?
Grandes erros cometem aqueles que depois de formados, param de estudar e pesquisar. Seja porque razões forem. O estudo da arquitetura não termina passado 5 anos (que convenhamos é uma embromação, longa!).
Devemos estar atentos as modificações temporais de nossas demandas por espaços. E isto ocorre em todos os âmbitos. As moradias se tornaram péssimas maquinas de se morar. Os espaços de trabalho idem. Portanto urge que tomemos as rédeas do projeto e que possamos escolher e decidir o que é bom em termos de projetos, como os médicos fazem. Nos somos técnicos especializados no espaço. Que o cliente deve entender e respeitar. Os resultados serão melhores para todos.