RETROFIT OU BOTOX


Clothes are not Botox. Wearing a miniskirt does not take 10 years off. 
Stacy London1

Na Folha de SP, de 21/06/2019 há um artigo de Thiago Amâncio e Guilherme Seto2 , sobre um edifício, que foi um marco da arquitetura na capital paulista. O curvilíneo edifício foi o primeiro a oferecer um serviço de flat, segundo seus autores. A matéria se refere a uma briga entre a empresa que reformou o edifício a 10 anos atrás e atual administração do condomínio. A arquitetura está no meio do “imbróglio”

Como diria um velho amigo meu, por que puseram Pilatos3 no credo?

O que acontece é que a arquitetura, em função das profundas alterações ocorridas nas últimas décadas, encontrou uma nova ação chamada por seu nome inglês de “retrofit4” . A essência do retrofit é a adaptação das construções antigas, para possibilitar a introdução de novos elementos, tais como tubulações de rede, aumento de carga elétrica, para atender a novas demandas dos equipamentos. Refrigeração e aquecimento dos edifícios, sejam eles, residências ou comerciais. Alteração dos parâmetros da iluminação, com consequente impacto sob a demanda, dos equipamentos de LED. Tipologias de pisos e revestimentos.

Entretanto, nos parece, que a uma pequena confusão entre reforma e retrofit. A reforma visa mais aspectos apenas simples da obra, troca de revestimentos e algumas tubulações. É exercido de forma bastante forte por arquitetos(as)-decorado(a)res e decorado(a)res. Vale dizer que decoradores não tem, por força de lei, possibilidade de alteração das estruturas5 e sequer paredes da obra. Este aspecto está reservado ao exercício legal da profissão de arquitetos e engenheiros

Qual é o problema com este e outros edifícios?

É o mesmo do Botox6 ! Olhem por aí e vejam pessoas que usam sem cuidados e em excesso. Os resultados em muitos casos são assustadores. Nos prédios acontece o mesmo.

As vezes há um excesso, e um descuido total com os itens que são importantes em qualquer construção. É importante notar que a matéria contem uma explicação, que precisa ser detalhada. “A Arcofit é dona de alguns apartamentos e tem sua própria sede no Marian. À Folha, a empresa diz que o Habite-se (aval para que seja ocupado) é de 2010, ou seja, as reformas estão completando quase dez anos. “Temos conhecimento do laudo elaborado pela AJF, mas muitos dos problemas apresentados não são de responsabilidade da construtora, passado o período de garantia da obra.” (grifo nosso).

Esta é talvez o primeiro problema. A alguns anos atrás, o prédio que nosso escritório ocupou, moveu uma ação contra a construtora que construiu o edifício. Por algum motivo, conversei com o engenheiro que fez o laudo do prédio, e ele me deu uma aula sobre esta questão. Há uma diferença na garantia e nos erros que a construtora comete, e o desgaste por uso ou erro. A maioria deles vence após 5 anos. Alguns após 10 anos. Mas os chamados erros de natureza, não caducam nunca. O erro de nascença, as vezes não é possível consertar e a construtora deverá ser responsável por sua manutenção por durante mais dos 10 anos. O edifício que ocupamos, tinha e o pior ainda tem, erros de natureza primária. O primeiro evento, foi a queda de parte do muro de contenção. Isto pode ter afetado a estrutura, não, evidentemente a ponto de queda, mas, houve um erro suplementar, que foi o erro de alinhamento da estrutura, em torno do quarto andar, o que obrigou a ajustes. Esse erro, é permanente e devera provocar ao longo dos anos problemas adicionais. Por mais que a construtora tente adiar a solução, via judicial, muito provavelmente instancias superiores a obrigarão a manutenção em caráter vitalício deste problema, que foi causado por sua inépcia, incúria ou mal administração de obra. O mesmo vale para o edifício em questão no artigo da folha. Mas é sempre bom lembrar que a manutenção em geral é apontada na coluna de despesas e por isto mesmo fica na dependência das disponibilidades financeiras do condomínio, o que nem sempre se revela econômico. O Brasil não tem uma boa tradição de manutenção, elas são executadas na premência e na urgência dos eventos. Edifícios de mais de 60 anos podem possuir tubulações hidráulicas em más condições, diminuição de calibre por ferrugem, vazamentos e insuficiência de pressão e etc. tubulações de ferro duram, em média 20 anos, ou seja, edifícios construídos antes do ano 2000, que utilizaram ferro estão com sua vida útil terminando, podendo começar a apresentar problemas. Os tubos de PVC lançados a partir dos anos 60 do século passado, estão no limite de sua vida útil. Portanto arquitetos e decoradores, tem a responsabilidade de apontar estes fatores, em edificações que estejam trabalhando.

Existe até um nome para isto PATOLOGIA DAS EDIFICAÇÕES7, matéria que deveria ter mais atenção de todos; arquitet(a)os, decoradores, empreendedores e construtoras.

O mesmo acontece com a fiação elétrica, em muitos dos casos, com bitolas antigas, que não suportam o aumento da carga de energia, gerando riscos desnecessários. Estas são responsabilidades do condomínio e não devem ser imputadas a construtoras. Fazem parte do envelhecimento do edifício,
Reformas fazem parte do escopo de trabalho dos arquiteto(a)s, o que tem acontecido é a falta de atenção a determinados itens que são obrigatórios numa obra de adaptação como acontece no retrofit.

O Botox em epígrafe se refere a exatamente isto. Um envelhecimento normal, apresenta as marcas normais da idade. O cuidado e manutenção evita o agravamento das doenças e patologias . Quando vemos por aí senhoras com Botox, que acabam se tornando” jovens” assustadoras, o mesmo acontece com as edificações. Faz-se por fora, somente fachada, cujos resultados são discutíveis e por dentro as coisas são o que são. Em pouco tempo os problemas retornam.

Abaixo algumas sugestões para serem observadas no trabalho de arquitetura e decoração (sim a decoração não deve ser somente cosmética). Ela deve ir a fundo resolvendo problemas abaixo da superfície.

Dicas para refletir e utilizar. Ao fazer uma reforma ou retrofit observe:

• Tubulações hidráulicas
• Tubulações elétricas (ver interferências eletromagnéticas, escolas em especial)
• Iluminações em LED permitem a revisão de carga elétrica.
• Utilização de brises possibilitam menor carga térmica, menos utilização de refrigeração e consequente economia de energia.
• Possibilitar a troca de ar nas proporções adequadas, para melhorar as condições de habitabilidade nos quartos.
• Verificar em ambientes de trabalho, índices de CO², indutores de fadiga e sonolência.
• Dados (se existirem). Colocação acima das portas, pontos de energia e dados para possibilitar o uso de repetidores de wi-fi.
• Ar condicionado (atenção ao pé direito).
• Caixilharia (se possível acústica).
• Pisos e revestimentos.
• Evitar PVC em áreas de escape.
• Colocação de dutos secos sem parcimônia. Na obra é fácil e barato. Na reforma e retrofit são caros.
• Ventilação sem medo para cozinhas.
• Área de serviço com logística correta, próximo a banheiros.
• Criação de áreas de trabalho de lixo e descarte.
• Ventilação para closets e áreas confinadas.

REFERÊNCIAS

[1] Roupas não são Botox, vestir uma minissaia não vai retirar dez anos de você! Stacy London (1969) é uma consultora de moda americana, conhecida principalmente por fazer parte de programas de televisão. Fez graduação em Filosofia e Literatura em alemão. Foi também editora de moda da revista VOGUE. Mais aqui: https://en.wikipedia.org/wiki/Stacy_London

 

[2] https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/06/moradores-de-predio-historico-no-centro-de-sp-veem-danos-apos-retrofit.shtml?loggedpaywall

 

[3] Palavra inglesa que significa refazer, reformar ou equipar (algo, como um computador, avião ou prédio) com peças ou equipamentos novos ou modificados não disponíveis ou considerados necessários no momento da fabricação. Atualizar as edificações no sentido de possibilitar a utilização das novas tecnologias. Iniciou-se durante a Segunda Guerra Mundial, onde a técnicas e inovações avançava a passos tão largos, que armas, aviões e navios ficavam ultrapassados, muitas vezes sem sair sequer do papel. A partir dos anos 70, do século XX, este tipo de obra, se constituiu no me sob o qual a arquitetura e a engenharia, passaram a atuar no sentido de trazer novas possibilidades aos antigos imóveis, com os equipamentos mais modernos e sequer existentes no momento da construção dos imóveis. Veja mais aqui: https://www.merriam-webster.com/dictionary/retrofit

 

[4] As estruturas de pequeno porte podem ser alteradas, salvo engano, por arquiteto(a)s. Em geral, consultam engenheiros quando envolve uma alteração mais substancial.

 

[5] A toxina botulínica é uma neurotoxina, produzida pela bactéria Clostridium botulinum. A Clostridium botulinum é uma bactéria anaeróbia, que em condições apropriadas à sua reprodução, cresce e produz sete sorotipos diferentes de toxina. Dentre esses, o sorotipo A é o mais potente. Alivia rugas e linhas de expressão, principalmente na região da testa e olhos, provoca um estiramento muscular, que com o tempo retorna.

 

[6] A cadeira patologia das edificações deveria ser matéria obrigatória no currículo da arquitetura. Em entrevista o professor Luís Carlos fala de que esta matéria seria essencial na carreira de engenharia. Concordando com ele, achamos que na de arquitetura também. Luís Carlos Pinto da Silva Filho, professor do Departamento de Engenharia Civil da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e ex-presidente da Associação Brasileira de Patologia das Construções. Em entrevista ao AECweb. Veja mais aqui: https://www.aecweb.com.br/cont/m/rev/as-exigencias-da-vida-util-dos-edificios_5219_10_20