RUIM, OHTAKE!!!

Ó RAÇA!

Casseta e Planeta

 

O grupo Casseta e Planeta, tinha um quadro humorístico, onde eles criticavam, diversos grupos por suas ideias, formas de pensar e agir, de associação e ou preconceitos. Sempre terminavam com o bordão: Ó raça!

Significando que no fundo um grupo se defende dos outros, reagindo coletivamente, quando surge uma crítica ou ameaça. O silencio também é uma forma de reação. Arquitetos em geral tem espírito corporativo, não criticando e endeusando, quando não a si próprio, o mito de plantão (não falo dele tá?).

Arquitetas e arquitetos muitas vezes (não todos!) se acham acima de outros profissionais e não raro até das outras pessoas. Em muitos casos, se acham a última bolacha do pacote!

Mas é de se espantar o comportamento de alguns deles. Neste domingo passado, 07/04/2019 a Ilustríssima da Folha de S. Paulo, publica o depoimento de Ruy Ohtake, na coluna Memorabilia[1]. Esta coluna publica dominicalmente personagens da cultura que comentam obras e trabalho que, em certa medida, influenciaram seu trabalho.

Memorabilia, etimologicamente falando, se refere a memória, é um quase eu me lembro. Mas, em geral, se refere ao conjunto de elementos que suscitam a nossa lembrança e que de alguma forma impactam e transformam as nossas ações.

No título do artigo e no começo do texto, Ruy usa um polemista, Nassin Taleb[2] para falar de evolução. O arquiteto usa isto para dizer que a evolução da arquitetura paulista se deu por conta de seus traços, que representariam um avanço no sentido de adaptar a arquitetura a um ambiente que se modificou (é disto que a teoria da evolução trata).

Essa ideia da evolução aos saltos não é dele e sim de um biologista e paleontólogo que criou uma hipótese para a evolução, não como algo lento e gradual, mas que acontece aos saltos. Steve Jay Gould[3], desenvolveu a teoria do Equilíbrio Pontuado. Essa teoria diz que a evolução ocorre de maneira ligeira (aos olhos do processo evolutivo, que é de milhares ou milhões de anos) em um curto período.

O artigo é no fundo a exaltação de um arquiteto a seu próprio trabalho, ele faz referências a Niemeyer e Le Corbusier, o que é natural para um arquiteto. Não se deve considerar os mortos donos de uma santidade que não possuem. São arquitetos estelares, mas cometeram erros, que raramente são analisados ou levados em conta.

As aulas de projeto, na faculdade de arquitetura passavam um semestre inteiro analisando uma obra de Corbusier, sua famosa casa Villa Savoye, Paris, base do movimento modernista. Em momento algum os professores levantaram os problemas que aquela casa apresentou ou foi feita alguma crítica. O arquiteto foi salvo de um rumoroso processo, pelos proprietários da casa, por conta da II Guerra Mundial[4].

Mas o artigo de Ruy Ohtake ataca alguns pontos que são importantes comentar.

Primeiro ele diz que sua obra provocou saltos, no sentido evolutivo e qualitativo, na arquitetura paulista. É pouco provável! Ele tem raríssimos seguidores e sua arquitetura a par de ter um poder visual enorme na pobre paisagem paulista, beira o boco-moko, com suas cores exuberantes e descombinadas. É importante ressaltar que a evolução também faz experimentos teratológicos, que são eliminados posteriormente.

A obra do hotel Unique, esta sim, tem um impacto positivo, de extremo bom gosto e soluções formais impactantes, digna de ser uma referência mundial da arquitetura, o que não é pouco. Mas a falta de humildade do arquiteto, choca ao se comparar, aos dois maiores ídolos da arquitetura nacional.

Ele tem razão, ao apontar a falta de criatividade de arquitetos nas soluções de fachada e de interiores (não estamos falando de decoração). Os projetos neste século XXI, deixam em muitos aspectos a desejar. Mas é quase impossível falar de falta de criatividade quando se fala, por exemplo em Tryptique, o escritório franco-brasileiro de arquitetura, ainda que seus interiores nem sempre reflitam uma modernidade requerida. Suas concepções e fachadas apresentam soluções revolucionarias sim, trazendo impactos na forma de ver e fazer arquitetura. Faltam a muitos arquitetos as noções de como as casas funcionam, qual é a logística interna e entender as violentas modificações implementadas nos últimos anos pelas diferentes tecnologias. Inclusive na forma como as pessoas usam a casa e como são formadas as novas famílias.

No artigo, ele se coloca na vanguarda da arquitetura brasileira, acusando seus pares de não reconhecerem a importância de sua obra, sendo ele então, apenas reconhecido e aplaudido pelo povo, esse ente etéreo que todos citam e poucos representam.

Ruy Ohtake é um daqueles que brigam pela primazia da curva, como se fosse algo patenteável. Oscar, ele e um certo arquiteto aqui da região de Campinas, se arvoram no domínio da curva como elemento vital e fundamental da arquitetura. De fato, o é, mas não na preposição que eles colocam.

O projeto de Heliópolis tem uma das piores salas da arquitetura contemporânea paulista. ¼ de círculo, duas portas e uma abertura para a copa-cozinha. Os quartos tem uma face curva que impede a colocação de móveis na parede. Mas tem um aspecto interessante, suas fachadas, realmente, são bonitas e só. É como bolo de casamento, bom só para ver.

Os arquitetos devem ter noção de sua insignificância. O tempo é implacável, uma maravilha de arquitetura será reverenciada por séculos, as ruins serão esquecidas e reduzidas a pó. Nós arquitetos contemporâneos produzimos obras que com sorte durarão dezenas de anos somente.

A Basílica Santa Sofia, uma antiga catedral de Constantinopla, atual Istanbul, foi erigida no século VI, e pasmem, em apenas 5 anos, de uma beleza arquitetura a toda prova[5] , é visitada por milhares de pessoas que se maravilham com seus pilares, domo e dimensões grandiosas. Quem sabe o nome de seus arquitetos, quem conhece suas histórias? o que ela representa em termos de inovação construtiva?

As obras dos arquitetos, permanecem anônimas para quase a totalidade da população. A história só dará credito a aquilo que importa. Ao resto, ruínas.

A propósito, Santa Sofia não foi feita por arquitetos[6] !

[1] Memorabilia fatos ou coisas dignas de memória, segundo Houaiss.

 

[2] Nassim Nicholas Taleb é um economista libanês que vive nos EUA, autor de livros onde explora eventos fortuitos na economia e na vida, entre seus livros se encontra “A Lógica do Cisne Negro”. Até a descoberta da Austrália no século XVII, imaginava-se que somente existiam cisne brancos, a descoberta acidental dos cisnes negros alterou de maneira repentina a visão que se tinha do pássaro. Taleb usa esta metáfora para falar de eventos que ocorrem de maneira imprevista.

 

[3] Steve Jay Gould biólogo e paleontólogo, é um dos autores da teoria do Equilíbrio Pontuado que explica que a evolução ocorre de maneira acelerado em períodos muito curtos em saltos por conta de eventos cataclísmicos.

 

[4] BUTTON, Alain de. Arquitetura da Felicidade. Editora Rocco

[5] Após a queda de Constantinopla,1453(data que dá início a era moderna, encerrando a idade média) seu conquistador, o sultão Maomé não deixou que fosse destruída e a transformou numa mesquita.

 

[6] O imperador Justiniano escolheu o médico Isidoro de Mileto e o matemático Antêmio de Trales como arquitetos no século VI EC (Era Comum).

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