ABAIXO O DIPLOMA!!!!

ABAIXO O DIPLOMA!

 

A vida de arquitetos e arquitetas[1] não é fácil. São 4210 horas de ensino e treino, com um período chamado de “integral”. A proposta é de formar profissionais capazes de resolver problemas de ordem espacial.

“O curso de Arquitetura e Urbanismo objetiva a formação de profissionais generalistas(grifo nosso), capazes de compreender e traduzir as necessidades de indivíduos, grupos sociais e comunidades, com relação à concepção, organização e a construção do espaço interior e exterior, abrangendo o urbanismo, a edificação e o paisagismo, bem como a conservação e a valorização do patrimônio construído, a proteção do equilíbrio do ambiente natural e a utilização racional dos recursos disponíveis.”[2]

 

Intenções nem sempre se tornam realizações.

Os cursos de arquitetura, os quais eu tive algum acesso (já fui desconvidado, pelo caráter alarmante e pessimista de minhas aulas sobre a profissão) tem formado raros e poucos bons profissionais[3]. A maioria não tem condições, ao sair, de enfrentar um projeto real. É, em certa medida, que isso seja um pouco natural, pois na verdade na escola os projetos são irreais, sem vínculo efetivo com as condições encontradas na realidade.

A expressão generalista, é uma denominação de muito apreço, para mim. Acho que o generalista tem uma visão mais ampla do que o especialista, tratamos com inúmeros ramos do conhecimento[4], e devemos ter um conhecimento mediano a respeito dos vários assuntos que envolvem não so a arquitetura bem como a vida em geral. É a velha história de que é melhor conhecer o elefante inteiro do que profundamente a unha do elefante.

Não aprendemos a negociar, não aprendemos como estabelecer nosso relacionamento com o mercado e os clientes. Não sabemos e nem sempre fazemos contratos. Temos aversão ao negócio.

Nos Estados Unidos crianças vendem laranjada na frente de casa, é o preparo para a vida de negócios, no futuro. Aqui é exploração infantil!

Eu costumava dar exemplo de dentistas, que ao se formarem, tinham todo equipamento comprado e aptos a abrir seus consultórios. Nós viramos estagiários.

Estagiário, aqui sem nenhum viés denotativo, é uma parte importante do aprendizado, mas são transformados em apenas em um desenhista mais qualificado (?).

São as malditas 4210 horas e mais um apartamento, o custo[5] (põe mais um pouquinho aí) para formar um arquiteto.

Vale?

Considero a última das grandes profissões humanistas que há, cujas preocupações com o outro ainda tem lugar no rol das preocupações dos seus profissionais.

Entretanto é desprezada e desvalorizado por todos, inclusive, por nós mesmos.

Considero uma estupidez, uma construtora, ou um empreendedor, que paga menos de 1% do valor dos custos de obra como remuneração por um projeto.

Não é só mesquinharia, muquiranice e pão-durismo, é sobretudo burrice. Um projeto representa economia, eficiência e melhores condições para um produto habitacional.

Um vendedor ou corretor, recebe até 6% do valor do imóvel em suas negociações, nada contra, mas o arquiteto que possibilitou a existência do objeto que ele comercializa, receber uma quantia ínfima, soa ofensivo.

Não é à toa que o que se vê no mercado, é um aglomerado de porcarias, repetições e variações sobre o mesmo assunto. Se recebe pelo que se paga!

Arquitetos e arquitetas tem, em sua maioria, projetado para famílias que não existem mais, projetos para condições inexistentes, sem visualizar as tremendas alterações que a vida contemporânea tem imposto a todos nos.

Os impactos da modernidade são maltratados por empresários que também são malformados, isto significa que eles não compreendem como um bom projeto pode mudar não só a vida daqueles que moram, mas da cidade como um todo.

Nossas cidades têm se transformado num entulho de entulhos arquitetônicos.

Nos enquanto arquitetos deveríamos receber, ao fim dos 5 anos, um certificado de “INCONCLUSÃO”, uma garantia de que não havíamos nos formados, de que nossa incompletude arquitetônica deveria ser motivo de continuado aprendizado.

Quantos de nós continuam a estudar? Quantos de nós buscam informações a respeito de novas técnicas e tecnologias? quantos de nós estudam as interações de novas mídias e a arquitetura? Quantos de nós buscam novas relações dentro da casa, para propor modificações e avanços?[6]

É isso que chamo de “deformação”, deixamos de nos formar continuadamente para enfrentar os desafios de um mundo em constante transformação.

[1] Em 1986, ou seja, a 33 anos atrás, o cartão de visita de qualquer arquiteta, ostentava a denominação “arquiteto” Fulana de Tal. A arquiteta Heloisa Moretzsohn foi a primeira mulher em Campinas a ter a denominação, arquiteta, em um cartão.

 

[2] Definição dos objetivos do curso, veja mais aqui: https://www.puc-campinas.edu.br/graduacao/arquitetura-e-urbanismo/

 

[3] Será motivo de outro post esses profissionais que dão esperança a profissão.

 

[4] Ao menos 13 atividades estão envolvidas em um processo arquitetônico. Topografia, terraplenagem, fundações, arquitetura, cálculo estrutural, hidráulica e elétrica, ar condicionado, iluminação, conforto, acústica, impermeabilização, interferências eletromagnéticas e decoração.(devem ter outros!)

 

[5] Durante as palestras que eu dava sobre a profissão, costumava exibir uma nota de 100 R$(falsa evidentemente!) e em um certo momento eu rasgava. Dizia aos alunos que era exatamente isto que eles faziam, ao ficar jogando conversa fora na cantina. É o custo/dia para uma família que paga as despesas do aluno (sem contar o custo mensal da faculdade).

 

[6] Temos evidentemente raros e poucos que continuadamente fazem isso, não cito, para não melindrar a “crasse”


"POBREMA"

“POBREMA”

“O tempo para reparar o telhado é quando o sol está brilhando.”
John f. Kennedy

Quem começa assim, tem no mínimo dois. Em arquitetura também é assim, raramente temos “um” problema, em geral ele é a decorrência de tantos outros. Como a queda de avião, ele não cai por um erro, mas por uma sequência deles.

A frase do finado presidente americano, apesar da obviedade é exemplar no sentido da prevenção. Algo que não temos e nem fazemos, principalmente em relação aos telhados!

Goteiras são exatamente este caso. Aparentemente é” um” único problema do telhado. Olhado mais de perto veremos que é na verdade a soma de falhas que produzem o evento.
Temos em primeiro lugar o telhado, cujo aprendizado tem sido negligenciado pelas escolas de arquitetura. Em geral só se vê telhados planos, que são o convite ao problema.

O arquiteto1 tem se esquecido de que sua profissão significa, a palavra arquiteto ou arquiteta, é simplesmente o mestre de obra, derivado do grego. Mas não passa disso, alguém que conhece e domina a obra. Os estudantes têm pouquíssimo ou nenhum contato com a construção, não conhecendo os meandros da obra, não consegue antecipar problemas, através da recursividade2, que é uma das etapas do projeto.

O telhado tem como principal função a proteção das intempéries e as variações do tempo e do clima. Ele deve obedecer a inclinações especificas, que não devem ser as mesmas para todas as regiões climáticas do país. Locais com índices pluviométricos maiores devem ter inclinações maiores. Regiões sujeitas a ventos mais fortes devem ter inclinações e amarrações adequadas.

Vale registrar que os índices pluviométricos têm tido uma alteração, não propriamente na sua quantidade mensal, mas uma variação na intensidade. Assim o mês de junho, em Campinas, onde normalmente chove, em média 40 mm, pode chover num dia o total para um mês. Quando isto ocorre os problemas aparecem! O primeiro deles são as evitáveis goteiras, uma vez que são previsíveis e que ocorram, dado aos defeitos de nascença dos telhados.

As calhas representam aqui um outro aspecto. Dimensionadas a coletar a média de água por mês, são incapazes de dar vazão quando se ultrapassa a média e dai para o forro é um pulo. Normalmente solicitamos um aumento nas dimensões das calhas e invariavelmente ouvimos dos senhores calheiros: Doutor não precisa, é muito. Olha que eu faço isso a 40 anos! Pois é, pode ser que estejam fazendo errado a 40 anos. Temos quase que dobrado as dimensões tanto de calhas quanto de dutos.

As variações de temperatura durante o dia também não facilitam a proteção. É possível que as 6:00 h da manhã tenhamos uma temperatura de 10° graus e as 15:00 h(em geral o pico de temperatura) 34°~38° graus. Como diz o matuto da obra: aí não tem tatu que aguente!

Essas variações em larga escala produzem variações nos materiais do telhado facilitando a abertura de fendas e falhas por onde a água penetra.

O emboçamento do telhado sempre recomendado poucas vezes executado. Reduziria em muito a ação deletéria dos ventos e águas pluviais.

Os telhados planos que aparecem de forma quase totalitária nos estudantes de arquitetura tampouco representam uma solução adequada. Meu amigo, o arquiteto Otto Felix, um exímio executor de telhados plano, decerto vai me contradizer. Mas não tenho muitas esperanças que seja uma solução. Evidentemente que em alguns casos ele (o telhado) surge como a solução mais adequada e bela. Mas a minha dúvida recai sobre os impermeabilizantes. O Brasil, como já se disse, não é para amadores, as variações de temperatura aliada a altíssimos índices de UV (ultravioleta) reduzem a vida útil e tornam os impermeabilizantes quebradiços e ,portanto, sujeitos a falhas.

Todas estas patologias têm suas descrições e soluções descritas por diversos institutos3, o ruim é que acabamos por transferir o problema  aos proprietários , que passados alguns anos sem ter como resolver buscam as soluções mais a mão, o especialista em goteiras!!!

REFERÊNCIAS:


 

[1] Do grego   ἀρχι- (arkhi-, “chefe”) +‎ τέκτων (téktōn, “construtor”), na acepção correta seria o marceneiro, uma vez que grande parte da obra envolvia o domínio das estruturas em madeira. Nos dias de hoje o mestre de obra.

 

[2] Capacidade da mente humana de prever, antever e desenhar soluções mentais para o problema.

 

[3] Ver este interessante documento: http://repositorio.roca.utfpr.edu.br/jspui/bitstream/1/1873/1/CM_COECI_2012_2_03.pdf


ARQUITETA(O) ESTE DESCONHECIDO

ARQUITETA(O)¹ ESTE DESCONHECIDO

“A celebridade é uma contradição. Parecendo que dá valor e força às criaturas, apenas as desvaloriza e enfraquece.”
― Fernando Pessoa

Faça um pequeno exercício ao ler os jornais, tente encontrar o autor dos projetos apresentados como maravilhas do século XXI. Somente aqueles estrelados escritórios e profissionais terão gravados seus nomes nos jornais que amanhã embalarão os peixes na feira.
Ao olhar as páginas dos jornais e vendo centenas de anúncios (nos últimos anos tenho feito este exercício. Leio dois jornais por dia), em 99% dos casos estão citados empreendedores, corretores, investidores, construtores as vezes a paisagista(o) e ou a decoradora(o) mais raramente os arquitetos.
Não sou adepto do “celebrismo” que ataca, como praga, arquitetas(os) e decoradoras(es), mas também não vejo com bons olhos, esse desprezo de quem produz um bem importante para a cidade. A busca pelo reconhecimento se dá de forma inadequada e inconsequente.
Quando dou aulas, procuro alertar meus alunos da efemeridade da obra de arquitetura, quase sempre anônima, mas que sempre impõe efeitos (positivos e as vezes negativos) onde está implantada. Procuro dizer que poucos chegarão à fama, e que grande parte do nosso trabalho sequer é notado, ou valorizado.
A partir do renascimento, no século XV, quando a noção de autoria surgiu, arquitetos e artistas procuraram valorizar seu trabalho, impondo seu nome como uma marca de qualidade, distinção (no sentido de ser diferente de outros) e indicativo de que aquele trabalho lhe pertencia.
A autoria passou a ser um aspecto importante da profissão, tanto que existem leis que regem a autoria do projeto e conferem certos poderes aos seus detentores. Essa propriedade do projeto, é exclusiva dos profissionais de arquitetura. Mas nela não está embutida o reconhecimento social do seu trabalho. Indica quem quer. Ainda que, em Campinas e São Paulo, se não me falha a memória, haja uma lei obrigando a identificação dos autores do projeto, nas publicidades de jornal e revistas. Mais uma lei que não pegou!!!
O que acontece hoje, é que o trabalho do arquiteto, em geral, é menosprezado, desvalorizado e rebaixado. São vários os fatores para que isto aconteça, desde os próprios profissionais, que em desespero, se submetem a condições inadequadas e escorchantes, sejam as concorrências desleais, seja através dos construtores que veem nos profissionais apenas um meio para atingir seu objetivo maior, que é a venda. Não é por outra razão que os percentuais sobre a venda de imóveis são absolutamente superiores aos recebidos por arquitetas(os).
Isto tem provocado distorções no mercado imobiliário que consulta corretores² , onde eles passam a opinar sobre o que deve ser construído ou não. Não são as melhores fontes. É o paradoxo do Tostines: Vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais. Com isto temos uma “pasteurização” ou “homogeneização” dos produtos ofertados. Não que necessariamente seja o arquiteto a ser consultado. Na maioria dos casos ele também não vê corretamente a evolução do mercado. É preciso olhar com outros olhos. E isto significa um custo que empreendedores não gostam de pagar.
Investigar, conhecer, prever, antever são ferramentas para perscrutar o mercado. E quem é o mercado? Quem é o cliente? O que eles desejam? Três ou quatro, ou nenhum quarto? Precisa de vaga de garagem? Área de serviço? São perguntas que deveriam ser respondidas por quem estuda o mercado, e não somente por quem trabalha com o mercado.
As transformações tem sido aceleradas, vertiginosas e disruptivas, assim cada vez mais é preciso olhar com atenção a evolução da tecnologia, meios de trabalho as relações sociais e afetivas e como isto impacta a vida de cada um. Só assim será possível produzir melhor e adequadamente. E assim o autor poderá ser reconhecido pelo trabalho que faz.
A arquitetura é um bem social e poucos se dão conta disto. A cidade é em parte fruto do trabalho destes profissionais e de muitos profissionais que merecem o reconhecimento.

¹A questão de gênero tem se imposto de maneira bastante forte, inclusive em questões sérias. Particularmente, preferiria que houvesse o neutro na nossa língua. Mas não há. Normalmente o gênero masculino vem primeiro seguido do feminino. Acho que o correto deveria ser o contrário. As mulheres são exploradas, oprimidas e ganham diferencialmente. Em 1983, portanto a 36 anos, ao fazer o cartão de minha sócia, grafei arquiteta, não era utilizado, e provocou estranhamento. O usual era utilizar o masculino arquiteto para mulheres.

² Não tenho nada contra corretores, fazem parte da minha família. tenho orgulho de meu sogro ter sido um corretor visionário, que introduziu o conceito de condomínios em Campinas e meus cunhados que desempenharam e desempenham importantes atividades na área. Mas uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.