ARQUITETURA AUTORAL, ESSE TROÇO EXISTE?

ARQUITETURA AUTORAL


Good ideas come from everywhere. It’s more important to recognize a good idea than to author it.
Jeanne Gang

Num post publicado em, 16 de junho de 2019, pelo blog do caderno de Imóveis do Jornal Estado de São Paulo, Luíza Leão diz no lead: “Arquitetura autoral é aposta de incorporadoras para se diferenciar na crise”.

Bom, a primeira pergunta que surge: o que é arquitetura autoral? Existe uma arquitetura que não tenha autor ou autores?

Faz parte do jogo do marketing, valorizar alguns em detrimento de outros. Mas parece um exagero chamar de arquitetura autoral, uma arquitetura cuja diferença apenas está na fachada. O “autoral” aqui se refere apenas aos que tem alguma fama? E os outros produzem que tipo de arquitetura?
Todos os empreendimentos, que olhamos diariamente nos jornais, sem exceção, não apresentam nenhuma novidade em termos de planta, apenas reproduzindo o mesmo e enfadonho desenho, seja 1 dormitório ou 4 dormitórios, todos absolutamente iguais. Portanto não é a planta de arquitetura que cria um diferencial autoral. Se não é, o que é?

Playground, área pet, living, rooftop, fitness, coworking, terraço hobby, terraço gourmet, apartamento Garden, suíte master, high lounge, nomes em inglês só reforçam o nosso jequismo. Todos, poderiam ser substituídos, pelo português mais claro, sem que se perdesse a aura. Eles não configuram algo autoral, apenas adornam um bolo sem gosto.

Algumas plantas chegam a apresentar área de serviço maior do que a cozinha, talvez fruto de arquitetos que tenham vivido longe de casa e perdido a sua ligação com a cozinha. Resta sua conexão com a limpeza da roupa.

As ligações entre os espaços da casa são absolutamente e repetidamente entediantes. São as mesmas plantas, sejam de um arquiteto(a) anônimo (seus nomes não aparecem nos anúncios) sejam dos famosos, qualquer um. É a mesma catilinária de quartos, em tamanho reduzido, sem um espaço de estudo e com armários liliputianos. Os banheiros imitam as cozinhas “egípcias” onde é melhor se entrar de lado, como as figuras hieroglífica.

As salas de estar, que são a tradução direta “living”, agora se conectam diretamente ao terraço. Ligadas ao terraço para propiciar um aumento de área, para as exíguas salas, bem entendido. E onde as prefeituras nem sempre estão de acordo. Terraço é terraço e sala é sala, as prefeituras criaram uma legislação, construída letra a letra para a burla, numa destas irracionalidades que as leis costumam ter. o terraço em geral e até uma determinada área, não conta como fator construtivo. A esperteza está em transformar o terraço em um pedaço de sala, pela colocação de um único nível. O fator construtivo deveria levar em conta e simplesmente incorporar ao valor do IPTU. Evitar-se-ia constrangimentos arquitetônicos.

Ainda que seja, um adepto fanático do churrasco, não sou favorável a ideia de que todo terraço deva ter uma. 90% das pessoas não utilizam nem gostam tanto de churrasco.
Essas plantas são para uma família cristalizada no tempo, ou seja, as plantas não evoluem com a família. A família mudou de configuração, os proprietários que arranjem outro. As pessoas não gostam de mudar. Elas têm que se mudar. E aí encontramos famílias que se reduziram ao casal, e que possuem 4 dormitórios, sem que saibam que destino dar a aqueles espaços. Uma planta ampla de 1 dormitório seria a ideia, mas não há no mercado.

Se as plantas são semelhantes não está ai o diferencial autoral!
Ah! E a fachada? Simmmm aí pode estar o desenho autoral que se procura, ou seja, o escritório de arquitetura produz uma roupagem diferente capaz de atrair a atenção das pessoas na rua.

Sem dúvida quando olhamos alguns dos indícios produzidos na cidade de São Paulo podemos notar o arrojo de alguns, a produção de uma arquitetura diferenciada e inclusiva e outras que são absolutamente isolacionistas, produzindo um local para poucos.

A utilização de arquitetos de renome, confere, evidentemente valor ao imóvel, mas isto não significa necessariamente que estejamos diante de uma inovação. O grande nome nem sempre corresponde a uma grande inovação.

Independentemente do que se ache, eles contribuem para a ambiente urbano, criando por vezes ligações e rompendo barreira dos muros, para isto basta ver as propostas da Triptyque, para a Zarvos. Suas fachadas são absolutamente fascinantes e suas propostas de verde melhoram certamente a cidade. Mas ao olhar suas plantas elas não se diferenciam da repetição.

Mas é preciso lembrar que isto não é autoral especificamente, pois qualquer desenho tem um autor ou autora, e a arquitetura em geral, é autoral por filosofia e ofício. A profissão nasce sob a ótica da autoridade sobre o resultado, ou a autoria. Muito se discute lá fora e pouco aqui sobre esta questão, entretanto grandes escritórios, tem departamentos para cuidar deste assunto, e seus colaboradores e funcionários se submetem a contratos de exclusividade.

Quando estamos falando de autoria de projeto, ou melhor de projetos de autoria, não estamos apenas falando de uma discussão contemporânea, mas de uma tradição que tem mais 6 séculos. Leon Battista Alberti, arquiteto do “Quattrocento” italiano, é o primeiro a propor o trabalho autoral, através dos desenhos que eram executados e enviados a obra para sua execução. Bastaria a seus executores construir em escala maior aquilo que o desenho representava. Em contrapartida a Brunelleschi, que trabalha no local da obra, exercendo uma espécie de tirania com os trabalhadores .

Como podemos ver a discussão não é de hoje e não se encerrará amanhã, é só preciso colocar as questões em seu devido lugar. Convido arquitetos e arquitetas a uma reflexão.

REFERÊNCIAS


[1] Boas ideias vêm de qualquer lugar. É mais importante reconhecer uma boa ideia do que o autor dela. A arquiteta americana Jeanne Gang é a fundadora e líder do Studio Gang

 

[2] Veja mais aqui: https://economia.estadao.com.br/blogs/radar-imobiliario/arquitetura-e-aposta-de-incorporadoras-para-se-diferenciar-na-crise/?utm_source=estadao:mail&utm_medium=link

 

[3] Para mais ver aqui: http://reviewsinculture.com/2014/04/01/architectures-struggle-with-authorship/


VIAGENS

VIAGEM


“The real voyage of discovery consists not in seeking new landscapes, but in having new eyes.”1

Marcel Proust

“A verdadeira viagem de descobertas não consiste em buscar novas paisagens, mas em ter novos olhos”. Escritor francês, século início século XX, autor do livro “Em busca do tempo perdido”

Viajar é uma palavra cuja origem do latim significa via, caminho e estrada. É uma coisa da qual só temos uma certeza: quem vai não é o mesmo que volta.

Estes próximos post serão em função da viagem que fiz a Portland, onde vive minha filha Juliana, casada com James, americano.

A ideia é contar a partir da experiencia de olhar esta cidade tão longe da minha cidade, Campinas e comparar (como se fosse possível!) as duas cidades em buscas de não novos lugares, como diz Proust, mas um novo olhar sobre a cidade. Um olhar não de um turista normal, pois vivi como minha filha vive, ou seja, durante 15 dias pude ser um pouco local, e ver com um olhar um pouco mais acurado a cidade em que ela vive e trabalha e ver as diferenças com as quais convivo diariamente.

Não é um trabalho comparativo, não se comparam cidades que vivem sob condições absolutamente diferentes. É mais a tentativa de olhar aquilo que é bom lá, e que poderia acrescentar algo aqui. Se é que isto é possível.

Serão mais coisas de arquiteto(a) do que propriamente turistas, ou melhor de um turista arquiteto, trazendo olhares sobre as coisas que dizem respeito a nossa profissão.

Na foto abaixo podemos ver área central da cidade e ao fundo o monte Hood, que moldura a cidade. Esta área possuiu edifício de grande altura, com até 30 pavimentos, mas não são muitos e estão concentrados aqui. É possível notar o cinturão de verde que cerca o centro e deste local é possível uma vista de praticamente 360º da cidade.


É isto uma das razões que faz de Portland a cidade silenciosa que é. Uma solução simples e agradável, produz o silencio tão importante e ainda faz o sombreamento da cidade tornando-a mais confortável ainda.

Viajar é, portanto, mais que conhecer, é experenciar o lugar e ter novos olhos para o que a cidade, local ou país possam oferecer.

Transformar uma viagem de férias em uma outra viagem é aquilo que Proust parece nos dizer é abrir os olhos para o novo, o diferente e para aquilo que possa se tornar útil.

Espero que este post, agrade aqueles que por aqui passem!


REFERÊNCIAS

1 “A verdadeira viagem de descobertas não consiste em buscar novas paisagens, mas em ter novos olhos”. Escritor francês, século início século XX, autor do livro “Em busca do tempo perdido”


EVOLUA OU PEREÇA!

EVOLUA OU PEREÇA!

“Se não encontrar nas primeiros duzentos, desista.”
Lei de Konopka¹

Confesso que tentei encontrar, e fui além dos duzentos! Busquei projetos de arquitetura, com partidos e programas diferentes, em páginas de jornais, folders e material distribuído nos sinais. Não encontrei nada significativamente diferente. Sejam programas de 2, 3 ou 4 dormitórios, todos parecem seguir a mesma diretriz de projeto.
Arquitetos em geral, mexem com imponderabilidades, os sonhos e o futuro. As duas coisas se resumem a uma só: projeto.

A etimologia da palavra projeto é “projicĕre” onde “pro” é frente, extensão, de se estender. “Jicĕre” lançar, jogar, assim projeto é jogar algo a frente, adiante. Mais precisamente lançar um sonho, algo imaginado, a adiante, no futuro.

Agora um outro aspecto; João e Gustavo, meus netos, tem acesso a 5ª geração dos bisavós (na verdade só das 4 bisavós, os bisavôs, não resistiram) e isto é uma raridade e novidade na história da humanidade. Raramente tínhamos acesso aos avós, cuja idade média pouco passava dos 40 asnos e hoje estamos chegando aos 80-85. Antigamente, e não faz muito tempo, uma geração tinha o conceito de 75 anos, assim que todos que nasciam durante este período pertencia a mesma geração. Mas estas gerações, em função de segmentação mercadológica, se dividiram em partes, e assim surgiram, os TRADICIONALISTAS, que nasceram antes de 1946, os BABY BOOM² , após 1946 até 1964, GERAÇÃO X, de 1965 até 1981, GERAÇÃO Y (esta geração também é conhecida por “Millenials”) geração de 1982 até 2000, e finalmente a GERAÇÃO Z, atualmente em curso. Observem que estas divisões são absolutamente aleatórias e seu significado se prende a interesses, como dito acima, comerciais e de marketing.

Alguém, que teve a paciência de chegar até aqui, poderia perguntar o que tem a ver projeto e gerações?

Bom, vou tentar explicando usando o paradoxo do esquartejador, ou seja, fazendo por partes.
A essência do projeto é trabalhar para o futuro, a moradia não pode, nem deve ser algo estática no tempo. Assim como as gerações mudam, seja por que aspecto for, mudam as concepções do mundo e a forma de morar e trabalhar. Um millenials, não será um jovem eternamente, seu gosto, sua forma de vestir e de agir, mudará com o tempo, e não raro, se aproximará da de seus pais, quando não dos avós. Mas isto não se reflete na arquitetura. Que quer atender aos novatos do mercado. Se esquecendo que não há casa, apartamento ou ambiente de trabalho para os mais velhos ou aqueles não compartilham esta mudança.

A última vez que estive na casa de meus avós, em Alcântara, Rio de Janeiro, foi a 55 anos atrás. Mas consigo, até hoje, desenhar a casa em que eles moraram e onde passei inúmeras férias. Houve um fato, uma vez, que ao voltar, para as férias de janeiro, perguntei ao meu avô, se a casa havia diminuído³ ? Eu estranhei, as dimensões da casa, que me pareceram, mais diminutas que o ano anterior. Mas a casa que possuía,4 quartos (construídos com carinho pelo meu avô para receber os netos) e um único banheiro. Uma intocada sala de visitas, sala de refeições, sala de jantar, e terraços. Ficava no alto de um morro, com uma longa escadaria. Ele construiu esta casa nos anos 40 e 50 do século passado.

residência josé alves coutinho

Em essência ela não é diferente de nenhuma casa atual. É exatamente isto que incomoda. Passados 100 anos do nascimento dos avós e bisavós da minha geração continuamos a fazer a mesma casa, as mesmas divisões e repetindo os mesmos padrões.
Seja o mais moderno escritório de arquitetura, na linha do Tripytique, ou um escritório comum, estão ,no fundo, fazendo a mesma casa sempre?
Onde está o erro?
Num artigo, publicado em julho de 2008, no Estado de S.Paulo, o arquiteto Jorge Wilheim, já nos alertava:

Quando plantas dos apartamentos são publicadas, espanta-me a similitude dos programas e dimensionamentos: parece que há um único protagonista a desenhar com sua “mão escondida” todas as plantas, com iguais dimensões dos quartos, denominações sempre que possível em inglês e a presença inevitável, esta brasileira, da churrasqueira.

E completava:

O que não se pública é o nome do arquiteto autor desses projetos! A “mão escondida” o apagou, seja por não o considerar importante a ponto de figurar ao lado do decorador, do paisagista e dos realizadores do empreendimento; seja porque o próprio arquiteto não se sinta à vontade com o resultado. Se arquiteto existe, como entender, tiradas poucas exceções, o descaso com a estrutura e com a fachada, geralmente um aplique colado, muitas vezes imitando um paupérrimo estilo neoclássico?

O artigo de 11 anos atrás, permanece atualíssimo!
A casa, moradia ou ambiente de trabalho, qualquer que seja o espaço de ação do arquiteto deve levar em conta a evolução. A evolução, esta mesma que Darwin/Wallace desenvolveram e que diz de maneira clara e absoluta: os seres que se modificam, devido às mudanças do ambiente, têm maior chance reprodutiva, portanto deixam mais descendentes 4 . O ambiente da arquitetura deve se modificar com o tempo. Moro na mesma casa desde 1992, minhas filhas já foram embora(infelizmente) só voltam 1 vez por mês ou por ano. A casa é dos anos 30-40, com paredes de 30cm, são “imexíveis” 5 . Normalmente a sugestão é mude-se! Mas, acontece, que apesar dos perigos do local, dificilmente acharia uma casa para acomodar uma biblioteca de 2000. Livros e um ateliê. Teria que construir. Não tenho nem tempo nem vontade para tal.
Nossas casas, quase totalidade dos casos, são refratárias as mudanças do tempo e costumes. Quando as condições do ambiente mudam, nós não nos adaptamos, nós nos mudamos.
A casa não se altera!
As arquitetas(os) em geral, não produzem uma arquitetura que evolua com o tempo. Ao nos unirmos a alguém, formamos um casal, que pode ter inúmeras configurações. Uma é que o casal não tenha filhos. Outras opções implicam em filhos que provocam a necessidade de alteração arquitetônica (construção de outro cômodo, reforma e adaptações). A casa não está preparada para isto. As soluções estão no mercado, há uns poucos trabalhando nestas soluções, que deveriam estar espelhadas nos lançamentos, sejam prediais, individuais ou condomínios.
A moradia deveria poder ser alterada em dias, horas ou semanas. E não em meses e anos.
Nos últimos anos notamos a mudança em alguns dos espaços da casa; a cozinha se fundiu com a sala em muitos casos, o surgimento do terraço gourmet(argghhh!!!!), criamos churrasqueiras para quem nunca faz churrascos, quartos e banheiros estão unidos nas suítes (ainda que sejam muito ruim do ponto de vista arquitetônico). Criamos micro espaços que chamamos de closet, quando não passam de um cubículo, incapaz de fazer frente ao consumo de roupas e sapatos 6 . Eliminamos a sala de visita, praticamente reduzimos a área de serviço a um espaço de tanque e máquinas. A habitação não é pensada para o futuro, nem sequer ao presente, mas voltada a um conceito, seja de modo vida seja de relacionamento, seja de família, que apenas reside no passado, na grande maioria das vezes.
Por que os arquitetos fazem isto? Quem determina que espaços devem ou não ser projetados? No que as empresas se baseiam para pedir aos arquitetos este ou aquele programa?
Existem razão diversas, não são simples e implicam em soluções complexas, que passa pela forma como ensinamos nossos estudantes, como se discutem os movimentos disruptivos que vivemos, a compreensão dos avanços tecnológicos a que estamos sujeitos, e que avançam sobre todos os aspectos onde o ser humano está presente. Chegando ao contratante de nossos projetos, que nem sempre sabem exatamente o que querem. Peça ao seu cliente particular desenhar a casa dos sonhos dele, ela(e) provavelmente desenharão a casa onde moram, um pouco maior.
Quando a construtora entra pela sua porta, está cheia de ideias, sejam dos corretores sejam da agência de publicidade que acha que sabe a quem se destinam os imóveis que você deve projetar. Descem planilhas e pesquisas (em geral malfeitas!7 ) dizendo que o mercado quer isto ou aquilo, tem que ter 3 ou 4 dormitórios senão não vende, viu? Assim nos vemos apartamentos que não se adaptam, mas gente que tem que se adaptar aos apartamentos e casas. Moramos mal e trabalhamos em locais inóspitos. Esse não é o trabalho dos arquitetos!
A casa, o apartamento e o ambiente de trabalho, hoje mais do que no passado sofrem transformações que acontecem num ritmo não mais medido por gerações, mas por semanas e horas.
A informação, o estudo continuado, a pesquisa e leitura, são formas de atualizar e confrontar o conhecimento, alterando nossa forma de fazer e de pensar a arquitetura.
Os ambientes devem ser dotados de capacidade de responder as alterações da vida contemporânea, ou fazemos isto ou o futuro será apenas um amontoado de ruínas e entulhos.

REFERÊNCIAS:

[1] Ronald J. Konopka biólogo geneticista, descobriu um gene ligado ao tempo. Famoso por sua persistência na execução de experimentos. Cunhou a frase, que parece ser sua única lei. Se você não encontrar o que quer nos primeiros duzentos experimentos, desista. Para uma leitura estimulante leia, onde ele é citado: WEINER. Jonathan. Tempo, Amor e Memoria: Um biólogo notável em sua busca das origens do comportamento. Editora Rocco. Rio de Janeiro 2001.

[2] Baby Boomer significa “explosão de bebês”. fruto dos que retornaram da II Guerra (1939-1945) e multiplicaram o número de filhos. Garantidos agora pelos avanços sanitários, médicos e tecnológicos, aumentaram muito a taxa de natalidade. A expressão Geração X(o x se refere a diminuição de filhos nesta geração) foi criada pelo fotógrafo Robert Capa, em torno de 1950 e posteriormente adotado por estudiosos.

[3] Só fui compreender adequadamente, depois que assisti a Amarcord (Eu me lembro, no dialeto da regiã0 do autor, Frederico Felini, onde o mundo é visto pelos olhos de uma criança, no caso ele mesmo. E que vê tudo em tamanho maior. Dos seios ao transatlântico tudo era enorme. Uma visão que a criança ajeita a sua proporção e não ao contrário.

[4] Este é o sentido de evolua ou pereça! Aqueles que não se adaptam, perecem.

[5] Toda obra pode sofrer interferência de qualquer magnitude, poder-se-ia eliminar, deslocar ou criar paredes. A tecnologia nos permite fazer muitas coisas, a questão é custo.

[6] Uma olhada simples nos projetos apresentados nos jornais, parece que são feitos para lutar contra o consumo exagerado, mas é apenas um truque “isperto’ para vender um lugar que não existe, e não cabe pouca coisa mais do que um armário convencional. Não se trata aqui de reforçar o consumo desenfreado, mas a vida moderna implica numa quantidade de roupas e acessórios que não cabem nos espaços destinados.

[7] Pesquisa no Brasil nem sempre é bem-feita. São raras e caras. E tem um agravante, o brasileiro mente! Existe um case famoso, onde o presidente de uma empresa multinacional se instalou no Brasil e fez uma extensa pesquisa de mercado, com pomposidade lançou seu produto no mercado. Foi um fracasso de vendas, a empresa acabou por se retirar do mercado brasileiro. Perguntado por quê? O presidente da empresa respondeu que os brasileiros mentiam na pesquisa. Descobriu-se que no questionário havia uma pergunta que era crucial. A senhora compraria sopa pronta para seu jantar? A resposta invariavelmente era sim. Os pesquisadores descobriram que as donas de casa não gostavam de responder não. Então modificaram os pesos das respostas, quando a resposta era não valia 1 ponto, quando sim, valia 0,7. O que servia para balizar a pesquisa. A diferença era entre compraria e utilizaria. A empresa voltou ao Brasil


ARQUITETA(O) ESTE DESCONHECIDO

ARQUITETA(O)¹ ESTE DESCONHECIDO

“A celebridade é uma contradição. Parecendo que dá valor e força às criaturas, apenas as desvaloriza e enfraquece.”
― Fernando Pessoa

Faça um pequeno exercício ao ler os jornais, tente encontrar o autor dos projetos apresentados como maravilhas do século XXI. Somente aqueles estrelados escritórios e profissionais terão gravados seus nomes nos jornais que amanhã embalarão os peixes na feira.
Ao olhar as páginas dos jornais e vendo centenas de anúncios (nos últimos anos tenho feito este exercício. Leio dois jornais por dia), em 99% dos casos estão citados empreendedores, corretores, investidores, construtores as vezes a paisagista(o) e ou a decoradora(o) mais raramente os arquitetos.
Não sou adepto do “celebrismo” que ataca, como praga, arquitetas(os) e decoradoras(es), mas também não vejo com bons olhos, esse desprezo de quem produz um bem importante para a cidade. A busca pelo reconhecimento se dá de forma inadequada e inconsequente.
Quando dou aulas, procuro alertar meus alunos da efemeridade da obra de arquitetura, quase sempre anônima, mas que sempre impõe efeitos (positivos e as vezes negativos) onde está implantada. Procuro dizer que poucos chegarão à fama, e que grande parte do nosso trabalho sequer é notado, ou valorizado.
A partir do renascimento, no século XV, quando a noção de autoria surgiu, arquitetos e artistas procuraram valorizar seu trabalho, impondo seu nome como uma marca de qualidade, distinção (no sentido de ser diferente de outros) e indicativo de que aquele trabalho lhe pertencia.
A autoria passou a ser um aspecto importante da profissão, tanto que existem leis que regem a autoria do projeto e conferem certos poderes aos seus detentores. Essa propriedade do projeto, é exclusiva dos profissionais de arquitetura. Mas nela não está embutida o reconhecimento social do seu trabalho. Indica quem quer. Ainda que, em Campinas e São Paulo, se não me falha a memória, haja uma lei obrigando a identificação dos autores do projeto, nas publicidades de jornal e revistas. Mais uma lei que não pegou!!!
O que acontece hoje, é que o trabalho do arquiteto, em geral, é menosprezado, desvalorizado e rebaixado. São vários os fatores para que isto aconteça, desde os próprios profissionais, que em desespero, se submetem a condições inadequadas e escorchantes, sejam as concorrências desleais, seja através dos construtores que veem nos profissionais apenas um meio para atingir seu objetivo maior, que é a venda. Não é por outra razão que os percentuais sobre a venda de imóveis são absolutamente superiores aos recebidos por arquitetas(os).
Isto tem provocado distorções no mercado imobiliário que consulta corretores² , onde eles passam a opinar sobre o que deve ser construído ou não. Não são as melhores fontes. É o paradoxo do Tostines: Vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais. Com isto temos uma “pasteurização” ou “homogeneização” dos produtos ofertados. Não que necessariamente seja o arquiteto a ser consultado. Na maioria dos casos ele também não vê corretamente a evolução do mercado. É preciso olhar com outros olhos. E isto significa um custo que empreendedores não gostam de pagar.
Investigar, conhecer, prever, antever são ferramentas para perscrutar o mercado. E quem é o mercado? Quem é o cliente? O que eles desejam? Três ou quatro, ou nenhum quarto? Precisa de vaga de garagem? Área de serviço? São perguntas que deveriam ser respondidas por quem estuda o mercado, e não somente por quem trabalha com o mercado.
As transformações tem sido aceleradas, vertiginosas e disruptivas, assim cada vez mais é preciso olhar com atenção a evolução da tecnologia, meios de trabalho as relações sociais e afetivas e como isto impacta a vida de cada um. Só assim será possível produzir melhor e adequadamente. E assim o autor poderá ser reconhecido pelo trabalho que faz.
A arquitetura é um bem social e poucos se dão conta disto. A cidade é em parte fruto do trabalho destes profissionais e de muitos profissionais que merecem o reconhecimento.

¹A questão de gênero tem se imposto de maneira bastante forte, inclusive em questões sérias. Particularmente, preferiria que houvesse o neutro na nossa língua. Mas não há. Normalmente o gênero masculino vem primeiro seguido do feminino. Acho que o correto deveria ser o contrário. As mulheres são exploradas, oprimidas e ganham diferencialmente. Em 1983, portanto a 36 anos, ao fazer o cartão de minha sócia, grafei arquiteta, não era utilizado, e provocou estranhamento. O usual era utilizar o masculino arquiteto para mulheres.

² Não tenho nada contra corretores, fazem parte da minha família. tenho orgulho de meu sogro ter sido um corretor visionário, que introduziu o conceito de condomínios em Campinas e meus cunhados que desempenharam e desempenham importantes atividades na área. Mas uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.


ARQUITETURA E A TECNOLOGIA 5G

ARQUITETURA E A 5G

Os arquitetos em geral se gabam de estarem na vanguarda das tecnologias. Não é isto que parece estar acontecendo agora. Estamos no limiar de uma revolução será comparável a invenção da imprensa ou a introdução da eletricidade em nossas casas. Entretanto poucos estão se dando conta dos impactos que as novas tecnologias terão em nossas vidas em pouquíssimos anos.
A pergunta é simples; arquitetos estão preparados para as inovações que estão ocorrendo? Nossas casas estão sendo preparadas para as tecnologias que deverão embarcar todos os aparelhos por nós utilizados?
A resposta é um sonoro NÃO!
Nossas casas e escritórios são mal adaptadas até para a eletricidade (que ao contrário do feng shui é a única energia que passa pela sua moradia). Não é incomum encontrarmos dormitórios com uma ou duas tomadas, somente. Arquitetos e engenheiros elétricos não se deram cota que todo nosso futuro é elétrico. Ou seja, a nossa casa e escritório será cada vez mais dependente da energia elétrica, seja ela fornecida pela concessionaria ou produzida localmente.
A revolução que se avizinha é a 5G, ela tem 100 vezes a velocidade da atual, tem baixa latência¹ e robustez o que significa que inúmeros aparelhos serão conectados sem que isto afete a rede. A habitação, seja ela moradia ou trabalho, deverá estar adaptada a ela. Sabemos que aquilo que está feito é mais difícil de se preparar, mas aquilo que está preparado barateia substancialmente as adaptações necessárias.
A comunicação e conexão será omnipresente, todos os aparelhos serão conectados, na chamada IOT (internet of Things, ou a Internet das Coisas). Para isto nossos habitáculos deverão estar condicionados as diretrizes de redes e comunicações. Isto em principio significa que teremos que revisar todas as instalações elétricas e de redes de nossas casas e escritórios. Até nossa rede hidráulica e de esgotos poderão estar conectadas, poderemos ligar e desligar nosso banho a distância, desligar uma torneira que esquecemos ligadas ou fechar a janela diante da eminência de uma chuva.
Arquiteto trabalha ou deveria trabalhar com o sentido etimológico da palavra projeto. Lançar a diante, prever, precaver para que seu projeto não seja apenas um fóssil arquitetônico.
Esta revolução afetará tudo e a todos e sem o preparo seremos atropelados por ela. Não temos o direito de nos afastarmos destas questões. Volto ao assunto em breve!

¹. Período de latência é o tempo de resposta dos equipamentos. Latência é o tempo que passa do momento em que as informações são enviadas de um dispositivo até que possam ser usadas pelo destinatário. A rigor, você andando, com seu carro, inexistindo outros, por uma avenida que todos os sinais estivessem abertos para você. As conexões passam a ser imediatas.