RETROFIT OU BOTOX

RETROFIT OU BOTOX


Clothes are not Botox. Wearing a miniskirt does not take 10 years off. 
Stacy London1

Na Folha de SP, de 21/06/2019 há um artigo de Thiago Amâncio e Guilherme Seto2 , sobre um edifício, que foi um marco da arquitetura na capital paulista. O curvilíneo edifício foi o primeiro a oferecer um serviço de flat, segundo seus autores. A matéria se refere a uma briga entre a empresa que reformou o edifício a 10 anos atrás e atual administração do condomínio. A arquitetura está no meio do “imbróglio”

Como diria um velho amigo meu, por que puseram Pilatos3 no credo?

O que acontece é que a arquitetura, em função das profundas alterações ocorridas nas últimas décadas, encontrou uma nova ação chamada por seu nome inglês de “retrofit4” . A essência do retrofit é a adaptação das construções antigas, para possibilitar a introdução de novos elementos, tais como tubulações de rede, aumento de carga elétrica, para atender a novas demandas dos equipamentos. Refrigeração e aquecimento dos edifícios, sejam eles, residências ou comerciais. Alteração dos parâmetros da iluminação, com consequente impacto sob a demanda, dos equipamentos de LED. Tipologias de pisos e revestimentos.

Entretanto, nos parece, que a uma pequena confusão entre reforma e retrofit. A reforma visa mais aspectos apenas simples da obra, troca de revestimentos e algumas tubulações. É exercido de forma bastante forte por arquitetos(as)-decorado(a)res e decorado(a)res. Vale dizer que decoradores não tem, por força de lei, possibilidade de alteração das estruturas5 e sequer paredes da obra. Este aspecto está reservado ao exercício legal da profissão de arquitetos e engenheiros

Qual é o problema com este e outros edifícios?

É o mesmo do Botox6 ! Olhem por aí e vejam pessoas que usam sem cuidados e em excesso. Os resultados em muitos casos são assustadores. Nos prédios acontece o mesmo.

As vezes há um excesso, e um descuido total com os itens que são importantes em qualquer construção. É importante notar que a matéria contem uma explicação, que precisa ser detalhada. “A Arcofit é dona de alguns apartamentos e tem sua própria sede no Marian. À Folha, a empresa diz que o Habite-se (aval para que seja ocupado) é de 2010, ou seja, as reformas estão completando quase dez anos. “Temos conhecimento do laudo elaborado pela AJF, mas muitos dos problemas apresentados não são de responsabilidade da construtora, passado o período de garantia da obra.” (grifo nosso).

Esta é talvez o primeiro problema. A alguns anos atrás, o prédio que nosso escritório ocupou, moveu uma ação contra a construtora que construiu o edifício. Por algum motivo, conversei com o engenheiro que fez o laudo do prédio, e ele me deu uma aula sobre esta questão. Há uma diferença na garantia e nos erros que a construtora comete, e o desgaste por uso ou erro. A maioria deles vence após 5 anos. Alguns após 10 anos. Mas os chamados erros de natureza, não caducam nunca. O erro de nascença, as vezes não é possível consertar e a construtora deverá ser responsável por sua manutenção por durante mais dos 10 anos. O edifício que ocupamos, tinha e o pior ainda tem, erros de natureza primária. O primeiro evento, foi a queda de parte do muro de contenção. Isto pode ter afetado a estrutura, não, evidentemente a ponto de queda, mas, houve um erro suplementar, que foi o erro de alinhamento da estrutura, em torno do quarto andar, o que obrigou a ajustes. Esse erro, é permanente e devera provocar ao longo dos anos problemas adicionais. Por mais que a construtora tente adiar a solução, via judicial, muito provavelmente instancias superiores a obrigarão a manutenção em caráter vitalício deste problema, que foi causado por sua inépcia, incúria ou mal administração de obra. O mesmo vale para o edifício em questão no artigo da folha. Mas é sempre bom lembrar que a manutenção em geral é apontada na coluna de despesas e por isto mesmo fica na dependência das disponibilidades financeiras do condomínio, o que nem sempre se revela econômico. O Brasil não tem uma boa tradição de manutenção, elas são executadas na premência e na urgência dos eventos. Edifícios de mais de 60 anos podem possuir tubulações hidráulicas em más condições, diminuição de calibre por ferrugem, vazamentos e insuficiência de pressão e etc. tubulações de ferro duram, em média 20 anos, ou seja, edifícios construídos antes do ano 2000, que utilizaram ferro estão com sua vida útil terminando, podendo começar a apresentar problemas. Os tubos de PVC lançados a partir dos anos 60 do século passado, estão no limite de sua vida útil. Portanto arquitetos e decoradores, tem a responsabilidade de apontar estes fatores, em edificações que estejam trabalhando.

Existe até um nome para isto PATOLOGIA DAS EDIFICAÇÕES7, matéria que deveria ter mais atenção de todos; arquitet(a)os, decoradores, empreendedores e construtoras.

O mesmo acontece com a fiação elétrica, em muitos dos casos, com bitolas antigas, que não suportam o aumento da carga de energia, gerando riscos desnecessários. Estas são responsabilidades do condomínio e não devem ser imputadas a construtoras. Fazem parte do envelhecimento do edifício,
Reformas fazem parte do escopo de trabalho dos arquiteto(a)s, o que tem acontecido é a falta de atenção a determinados itens que são obrigatórios numa obra de adaptação como acontece no retrofit.

O Botox em epígrafe se refere a exatamente isto. Um envelhecimento normal, apresenta as marcas normais da idade. O cuidado e manutenção evita o agravamento das doenças e patologias . Quando vemos por aí senhoras com Botox, que acabam se tornando” jovens” assustadoras, o mesmo acontece com as edificações. Faz-se por fora, somente fachada, cujos resultados são discutíveis e por dentro as coisas são o que são. Em pouco tempo os problemas retornam.

Abaixo algumas sugestões para serem observadas no trabalho de arquitetura e decoração (sim a decoração não deve ser somente cosmética). Ela deve ir a fundo resolvendo problemas abaixo da superfície.

Dicas para refletir e utilizar. Ao fazer uma reforma ou retrofit observe:

• Tubulações hidráulicas
• Tubulações elétricas (ver interferências eletromagnéticas, escolas em especial)
• Iluminações em LED permitem a revisão de carga elétrica.
• Utilização de brises possibilitam menor carga térmica, menos utilização de refrigeração e consequente economia de energia.
• Possibilitar a troca de ar nas proporções adequadas, para melhorar as condições de habitabilidade nos quartos.
• Verificar em ambientes de trabalho, índices de CO², indutores de fadiga e sonolência.
• Dados (se existirem). Colocação acima das portas, pontos de energia e dados para possibilitar o uso de repetidores de wi-fi.
• Ar condicionado (atenção ao pé direito).
• Caixilharia (se possível acústica).
• Pisos e revestimentos.
• Evitar PVC em áreas de escape.
• Colocação de dutos secos sem parcimônia. Na obra é fácil e barato. Na reforma e retrofit são caros.
• Ventilação sem medo para cozinhas.
• Área de serviço com logística correta, próximo a banheiros.
• Criação de áreas de trabalho de lixo e descarte.
• Ventilação para closets e áreas confinadas.

REFERÊNCIAS

[1] Roupas não são Botox, vestir uma minissaia não vai retirar dez anos de você! Stacy London (1969) é uma consultora de moda americana, conhecida principalmente por fazer parte de programas de televisão. Fez graduação em Filosofia e Literatura em alemão. Foi também editora de moda da revista VOGUE. Mais aqui: https://en.wikipedia.org/wiki/Stacy_London

 

[2] https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/06/moradores-de-predio-historico-no-centro-de-sp-veem-danos-apos-retrofit.shtml?loggedpaywall

 

[3] Palavra inglesa que significa refazer, reformar ou equipar (algo, como um computador, avião ou prédio) com peças ou equipamentos novos ou modificados não disponíveis ou considerados necessários no momento da fabricação. Atualizar as edificações no sentido de possibilitar a utilização das novas tecnologias. Iniciou-se durante a Segunda Guerra Mundial, onde a técnicas e inovações avançava a passos tão largos, que armas, aviões e navios ficavam ultrapassados, muitas vezes sem sair sequer do papel. A partir dos anos 70, do século XX, este tipo de obra, se constituiu no me sob o qual a arquitetura e a engenharia, passaram a atuar no sentido de trazer novas possibilidades aos antigos imóveis, com os equipamentos mais modernos e sequer existentes no momento da construção dos imóveis. Veja mais aqui: https://www.merriam-webster.com/dictionary/retrofit

 

[4] As estruturas de pequeno porte podem ser alteradas, salvo engano, por arquiteto(a)s. Em geral, consultam engenheiros quando envolve uma alteração mais substancial.

 

[5] A toxina botulínica é uma neurotoxina, produzida pela bactéria Clostridium botulinum. A Clostridium botulinum é uma bactéria anaeróbia, que em condições apropriadas à sua reprodução, cresce e produz sete sorotipos diferentes de toxina. Dentre esses, o sorotipo A é o mais potente. Alivia rugas e linhas de expressão, principalmente na região da testa e olhos, provoca um estiramento muscular, que com o tempo retorna.

 

[6] A cadeira patologia das edificações deveria ser matéria obrigatória no currículo da arquitetura. Em entrevista o professor Luís Carlos fala de que esta matéria seria essencial na carreira de engenharia. Concordando com ele, achamos que na de arquitetura também. Luís Carlos Pinto da Silva Filho, professor do Departamento de Engenharia Civil da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e ex-presidente da Associação Brasileira de Patologia das Construções. Em entrevista ao AECweb. Veja mais aqui: https://www.aecweb.com.br/cont/m/rev/as-exigencias-da-vida-util-dos-edificios_5219_10_20


MUROS E PAISAGISMO

MUROS E PAISAGISMO


“Even paradise could become a prison if one had enough time to take notice of the walls.1
Morgan Rhodes

Confesso que não sou muito apegado a nenhum dos dois. Apesar de ser arquiteto e de trabalhar num escritório que dividimos, com paisagistas de primeira, e somos amigos de grandes nomes do paisagismo da cidade (são na verdade, de nível internacional) não sou apaixonado por jardins privados (dão um trabalho danado para cuidar, e não sou chegado a este tipo de trabalho), mas reconheço sua importância fundamental na arquitetura.

Também não sou chegado a muros! Morei vários anos numa casa que não possuía muros e cuja porta para a rua ficava aberta a noite toda. A expressão do filosofo Thomas Hobbes 2, inglês do século XVII, vem bem a calhar: a trava na porta já foi um erro! Significando que a segurança deixou de ser função do estado, e passou a ser uma atitude de guerra e de desconfiança, a guerra de todos contra todos. Os muros representam uma separação incomoda entre o público e o privado, mas não é necessário um objeto físico para estabelecer esta relação.

Na recente viagem que fiz, a Portland 3 EUA, fiquei impressionado em ver uma cidade, que além de não ter muros, parece ser formada de jardineiros.
Todas as casas, com raríssimas exceções, possuem jardins muito bem cuidados e de uma beleza capaz de chamar a atenção de qualquer um, mesmo quem não goste de jardins. É a cidade mais arborizada dos Estados Unidos. E a função não é somente a beleza, mas fundamentalmente contribui para o silencio da cidade. Diferentemente da balburdia das nossas cidades, Portland se destaca pelo seu silencio incomum, ao menos para uma cidade de suas dimensões (ver post sobre o som do silêncio).

A palavra jardim, tem seu significado etimológico, de lugar cercado e guardado, muito provavelmente se refere a um local de plantas e legumes, separado para evitar acesso de animais ou pessoas. Assim jardins e muros, mantém uma irmandade semântica. Mas diferentemente dos jardins cercados que temos por aqui, em Portland eles chamam atenção por serem sem cercas. Nas ruas e avenidas se encontram casas sem muro algum, as vezes lateral, mais para demarcação e cerca de animais.

Em Campinas o primeiro condomínio 4 fechado data de final dos anos 60, feitos a partir das ideias do empreendedor Brás Soares, que lançou vários outros. Tendo recebido um folheto, numa viagem ao exterior, achou que seria uma boa ideia para Campinas. O primeiro foi aprovado em 1974, possuía apenas 74 lotes mas muito provavelmente seu projeto data de final dos anos 60. Ele se juntou a um grupo de médicos e empresários e lançou o Sítios de Recreio Gramado(conhecido mais como Chácaras Gramado) e posteriormente Alto da Nova Campinas entre outros. A ideia inicialmente do Chácaras Gramados era um local sem muros, a ideia funcionou durante os anos iniciais e acabou por se perder, hoje praticamente todo o condomínio é resguardado pelos muros que o cercam as residências e guardam seu jardim com um portentoso e por vezes intransponível muro.

O Brasil não é um país em que a tarefa de jardinagem seja ocupada pelo proprietário. Em geral, face a disponibilidade de mão de obra barata (nem tão barata assim, o trabalho de jardinagem de um terreno de 350 m², incluindo a residência, pode custar até 300 R$ por dia), o trabalho fica a cargo de jardineiros, cujo desconhecimento, em muitas das vezes, se resumem a cortar a grama e aparar as folhagem.

Diferentemente de Portland parece que a cidade inteira é constituída por habilidosos jardineiros, ciente e conhecedores de cada planta e arbusto. A ausência do muro possibilita ao compartilhamento de cada jardim, contribuindo para a sensação de beleza da cidade.

residência Juliana e James Peterman

A ideia de muro, ou de demarcação de propriedade data da introdução da agricultura, 10.000 anos atrás, e visava a demarcação de propriedade e áreas de cultivo e pastoreio. É a instituição da propriedade privada. Nos estados Unidos é fácil encontrar a placa “Não transpasse, propriedade privada”, com a anuência da lei violações desta regra permitem ao proprietário atirar em quem ultrapasse. Um infeliz presidente parece crer nisto e tenta transplantar esta nefasta ideia.
Os muros impedem a visão dos jardins, assim a beleza destes não é vista. Existem estudos que comprovam que casas com muros são mais sujeitas a assalto do que as que não tem contrariando o senso comum. Inclusive há um estudo 6 indicando que locais onde o porte de arma é livre, há uma chance maior de roubos:

“Owning one or more firearms may make you feel secure against a burglary threat, but the reality is very different.
A study published by the National Bureau of Economic Research has shown that burglary rates tend to increase when more homeowners in a particular community own guns.”7

Assim como alerta vale lembrar que armas não garantem um segurança maior. Bom, a bem da verdade nem muros nem condomínios fechados. Nos últimos anos vimos uma serie de assaltos, contrariando a pretensa segurança. Isso somente fez uma indústria de segurança ganhar mais, sem que seus resultados sejam uma garantia de uma vida melhor. Em princípio, condomínios deveriam ser locais mais calmos para se viver. A busca não seria só por segurança, mas uma maior tranquilidade e a possibilidade das crianças voltarem as ruas.

Em Portland é interessante ver um grande número de condomínios e existem até com muros, mais na sua grande maioria estão abertos junto ao estacionamento. Projetos semelhantes aos de Pequenas Vilas, aqui em Campinas, vê-se aos montes. Diferentes formatos de habitação são encontrados, como estúdios, 1, 2 e dormitórios em configurações um pouco diferentes da nossa, que em geral estão em um mesmo edifício. E não segregados como os nossos, onde cada edifício possuiu quase que sempre uma mesma configuração.

É provável que a partir de agora possamos ver estas novas configurações 8 em edifícios que estejam surgindo.

Mas é interessante observar que fora dos condomínios nossas residências tenham pouco cuidados ao jardim. Eu mesmo, morei numa casa, onde o proprietário retirou o jardim, e cimentou a área – só dava trabalho. Foi a sua justificativa.

Os jardins sem sombra de dúvida humanizam e embelezam o espaço público e melhoram nossas residências. A retirada dos muros melhoraria a segurança e o convívio com as pessoas.


REFERÊNCIAS

1. “Até o paraíso pode se tornar uma prisão se alguém tiver tempo suficiente para notar os muros.” Morgan Rhodes escritora de livros de fantasia.

2. Thomas Hobbes filosofo inglês autor de “O Leviatã” obra que fala sobre a relação dos cidadãos, seus contratos sociais e o estado.

3. A cidade de Portland, capital do Estado de Oregon, noroeste dos EUA, tem 639.000 habitantes, a zona metropolitana por volta de 2.000.000 de habitantes

4. Ver aqui: http://www.campinas.sp.gov.br/governo/seplama/planos-locais-de-gestao/doc/cadmz8.pdf

5. Sítios de Recreio Gramado, a denominação se deve a dois fatores, o primeiro é que não havia uma legislação específica para condomínios, a segunda é que o parcelamento de solo em áreas de 5.000 metros quadrados era para chácaras.

6. Veja aqui: https://www.creditdonkey.com/why-burglars.html

7. “Possuir uma ou mais armas pode fazer você se sentir mais segura diante as ameaças de roubo, mas a realidade é ao contrário.
Um estudo publicado pelo Escritório Nacional de Pesquisa Econômica mostrou que os índices de roubos tendem a ser mais altos quando proprietários de uma comunidade possuem armas. Ver item 6, razão 19.

8. Posso estar errado, mas creio que o primeiro edifício com diferentes configurações, só surgiu em 2018, com o edifício da MaxHaus, que combina uma planta básica de 70 m² com diversas possibilidades de 1 a 4 dormitórios.


SOM DO SILÊNCIO

O SOM DO SILÊNCIO


“When I pronounce the word Future,

the first syllable already belongs to the past.

When I pronounce the word Silence,

I destroy it.”1

Wisława Szymborska

Uma coisa fácil de se notar e que vivemos numa sociedade extremamente barulhenta; carros, cães, ônibus, vento, chuva, pessoas falando e ruídos de fundo. Tudo isto faz da cidade um inferno sonoro.

Mas em primeiro lugar uma coisa precisa ficar clara, não existe silencio!

Nossa condição humana não permite que fiquemos sem ouvir sons (excluindo os casos de surdez). Nossa constituição mantem a audição sempre em alerta. Se você entrar numa câmara anecoica , você começará ouvir seus ruídos, coração, pulsação, movimentos peristálticos enfim todos os ruídos que fazemos, mas nosso seletivo ouvido não retém.

Em geral consideramos que o nível de 40-50 decibéis como silencioso, mas efetivamente não e, ouve-se sussurros e baixos ruídos. Isso se deve a uma labilidade moderna, considerando que não podemos viver sem um nível de barulho.

Sussurro 20 dB
Conversa normal 50 dB
Liquidificador 85 dB
Ipod 115 dB
Avião durante a decolagem ou um trio elétrico 130-140 dB
Importante: O limiar da dor está em 120 decibéis.

Nosso ouvido ouve dentro de um limite de 20 a 20.000 Hz. Que é uma faixa pequena se compararmos com os cães, que em geral ouvem até os 40.000 Hz. Ouvem o que nós não podemos ouvir. Aqueles apitos silenciosos que treinadores usam, por exemplo.

Mas as arquitetas(os) dão pouco valor ao silencio!
O uso de proteção adequada nas casas, ambientes de trabalho e principalmente em bares e restaurantes e quase inexistente. Não é raro o proprietário de um bar ou restaurante gastar um milhão na feitura de bar e se recusar a gastar 10 ou 20 mil na proteção acústica.

Níveis de ruído acima do indicado, reduzem a capacidade de trabalho a razão de 20%, por hora!!! Ou seja, 5 horas de exposição ao ruído a produtividade tende a cair a zero! Como os departamentos de recursos humanos tratam isso ou não e se tratam não se sabe.

Estudos mostram que pessoas sujeitas a exposição de ruídos altos e contínuos e perda de audição tem mais chances de sofrer ataques cardíacos do que as outras pessoas. Nos ambientes de trabalho os efeitos são mais dramáticos pois nem sempre a solução está ao alcance. Ar condicionado, impressoras, pessoas falando, ruídos externos e de fundo e soluções inadequadas de acústica pioram em muito as condições de produtividade. Mas o ruído muitas das vezes e visto como uma coisa natural advinda da neutralidade do edifício. O ambiente nunca é neutro e sempre há consequências para as pessoas. Nós arquitetas(os) deveríamos dar uma atenção muito maior a fim de garantir um ambiente menos ruidoso e mais saudável.

Nossas casas e apartamentos não possuem proteção adequada ao avanço dos ruídos, cada vez maiores nas nossas cidades. Enquanto na Europa e EUA, se utilizam isoladores e vidros até quádruplos no Brasil nenhum investidor ou construtor está muito preocupado com isto. Nossas residências e nossa qualidade de vida ganhariam muito e numa situação em que projetássemos com maior rigor estas questões.

Uma das prováveis razoes para a rejeição ao dry-wall pode estar na falha de não termos paredes que sejam acusticamente eficientes. Isto não se deve a defeitos de material, mas sim a nossa incompetência em providenciar as devidas proteções. Som é como água penetra por todos locais possíveis. Quando olhamos o que é feito no exterior podemos ver que todos os fechamentos estão vedados, portanto, o som não escapa. No caso do Brasil se deve a desconhecimento e uma certa laxidão com os detalhes.

Uma coisa notável, nos EUA, pelo menos aqui em Portland, onde estou em visita, é o silencio nos locais públicos e no trânsito. Ao entrar num restaurante, grandes lojas em shopping uma coisa chama a atenção é a falta de barulho. Você caminha entre as diferentes áreas do supermercado, mesmo com música ambiente, o ambiente e silencioso.

Eventualmente o de ser também um aspecto cultural, sempre que você ouve pessoas falando um pouco mais alto são ou brasileiros ou latinos (mexicanos, colombianos, equatorianos etc.). Nós falamos mais alto e somos mais agitados.
Nas ruas e outro aspecto digno de nota, o quão silencioso é. Não se ouvem buzinas, brecadas ou arrancadas. Raro alguém brigar no trânsito, mas acima de tudo chama a atenção o silencio. Carros silenciosos, caminhões que deslizam sem o menos ruído, motos de grande potência que passam ronronando ao seu lado, e capaz de chamar a atenção de qualquer.

Uma coisa que deveríamos ter no asfalto(voltaremos a este assunto num post futuro) e a adição de borracha de pneus, o que representaria uma solução para montanha de pneus descartados a cada ano e ainda diminuiriam em muito o ruído da estrada, seja para os motoristas seja para quem vive nas cercanias das autoestradas. Em reportagem no site G1 informa que no “sistema Anchieta-Imigrantes, 88 km já estão cobertos com o asfalto borracha, e 360 mil pneus velhos foram reaproveitados desse jeito. O asfalto borracha é 30% mais caro que o comum, mas as vantagens compensam”. A viagem se torna mais silenciosa, mais segura, uma vez que o spray de água dos pneus e reduzido. Isto produziria não só uma rodovia mais silenciosa, mas uma cidade mais silenciosa.


REFERÊNCIAS

1 Brincadeira com a placa, colocou um adesivo no local de perigo e a leitura ficou assim:Não buzine, a não ser com raiva.

2 Uma câmara anecoica (sem eco) é uma sala projetada para conter reflexões, tanto de ondas sonoras quanto eletromagnéticas. Elas também são isoladas de fontes externas de ruído.


BAÚS, ARMÁRIOS, CLOSETS E QUARTOS

BAÚS, ARMÁRIOS, CLOSETS E QUARTOS

Se você dorme num quarto, razoavelmente confortável, você tem uma dívida com a senhorinha acima, Catherine de Vivone de Savelli, uma marquesa do século XVII, que por razões especificas, inventou e criou aquilo que chamamos de quarto. Essa história do quarto vale a pena ser contada.

Aparentemente os quatro elementos, da chamada, têm pouco a ver um com o outro.

Ainda que estejam ligados pelo uso, mas ao analisarmos, com um pouco maior de profundidade, veremos uma linha evolutiva entre eles, e em certa medida os baús e armários são os avós do quarto.

Baús e armários servem para a guarda de roupas, louças e armas. E eles tiveram uma importância grande na antiguidade. Eles eram os bens móveis, ou seja, os que podiam ser movidos conforme a necessidade. No caso dos nobres eram transportados de casa para casa. Não havia roupas sobressalentes. Closet deriva do francês antigo e significa local fechado, em geral para estudo ou prece, pode ter tido origem em “cubiculum”, local de reclusão. Ele é atestado a partir do século XVII, exatamente quando surge o quarto de dormir, separado de outros cômodos.

Armários acabaram por se tornar também guarda-roupas, substituindo com vantagens o baú que guardava a roupa e as de cama também, quando estes acessórios se tornaram mais baratos e acessíveis.

A introdução de tecidos de algodão, a partir do século XVII, de origem indiana, trouxeram um conforto maior, barateamento de preços e consequentemente permitiu um acesso maior ao bem. A corte francesa em parte foi responsável pelo processo ao introduzir seu uso, a despeito do rígido ritual das vestimentas e da proibição real. Seu uso foi de roupas a estofamento, passando pelo revestimento de paredes dos quartos.

O armário era o móvel mais importante na casa burguesa, século XVII, conforme descreve o arquiteto Witold Rybczynski, em seu livro sobre a casa.

O armário servia não somente como acessório de guarda, mas também como uma exibição publica de poder e riqueza. A guarda de porcelana e sua mostra identificava a opulência de seu proprietário.

O que nós chamamos de closet eram os garde-roube, ou guarda roupa. Na França os nobres eram obrigados a um rígido cerimonial, que envolvia a utilização de roupas especificas diante do rei. Era necessário um espaço para a guarda destas vestimentas. Hoje em certa medida temos um problema desta natureza, a quantidade de roupas que possuímos extrapola em muito a capacidade dos armários que temos em casas e apartamentos. Poucos, talvez, se lembrem como eram os armários nos quartos, não faz muito tempo, como da Fig.1.

Fig.1 Antigo Guarda Roupa. Foto do autor.

A noção moderna de um quarto privado e distinto de outras partes da casa é um conceito bastante recente na história da arquitetura, algo como 370 anos, somente a partir do século XVII é que a separação compartimentada da moradia surgiu. Começou nos palácios e casa de nobres e depois se espalhou, levando lentamente a outros segmentos da população. A casa simples não possuía compartimentos era um ambiente único. E mesmo, os mais ricos os quartos eram ligados uns aos outros, assim para se atingir um determinado cômodo deveria se passar por todos outros.

Fig.2. Abraham Bosse 1633. O casamento na cidade: A visita à criança

Olhando a fig.2 podemos considerar como um quarto perfeitamente normal aos nossos olhos: mulheres visitando sua amiga com as crianças. O quarto nos parece comum com luxo evidentemente, a lareira no quarto, uma grande cama, o ambiente bem decorado, cadeiras para todas (não era comum, a não ser em casas de pessoas de posse). Mas o que vemos aí, não era comum, são as primeiras imagens de quartos que começaram a surgir a partir do século XVII, não é possível saber ali, dado o ponto de vista da perspectiva, se o quarto se abre a outros espaços, a porta entreaberta parece indicar a um corredor ou galeria, as dimensões do quarto parecem ser reduzidas, face ao que era usual nas grandes casas.

O quarto era até o século XVII um ambiente público, não tinha a característica privada que possui hoje. Era local de visitação, conversa e refeições (a sala de jantar não estava ainda estabelecida claramente). Em 1630 uma mulher chamada Catherine de Vivone de Savelli, a Marquesa de Rambouillet, que sofrendo as agruras de um frio congelante na sua “chambre”, enorme e mal aquecida, transformou seu “garde-roube” (um closet, em termos modernos) num quarto privado, o que era incomum. Portanto aí se encontra a origem do nosso quarto de dormir e de outros pequenos afazeres.

 

REFERÊNCIAS:

[1] A etimologia pode nos levar a lugares errados, entretanto a base de armário, contém arma e é um derivado correto, podendo ser local de guarda de armas ou de roupas de guerra. Sua utilização se consolidou como guarda de louça e roupas.

 

[2] A filha de Luís XIV, Louise-Françoise de Bourbon, mais conhecida como Madame la Duchesse era uma apaixonada pela modernidade e a despeito da proibição de seu pai, ao algodão, utilizou e divulgou este tecido pela corte francesa.

 

[3] A expressão robe de chambre, em português roupão e que seria simplesmente roupa para se usar no quarto, passou a ser utilizando em todos os ambientes quando o algodão se tornou acessível. Os vestidos e roupas de algodão, eram usadas inicialmente somente no ambiente íntimo.

 

[4] Para um aprofundamento: DEJEAN, Joan. O século do Conforto quando os franceses descobriram o casual e criam o lar moderno. Civilização Brasileira. Rio de Janeiro. 2012.

 

[5] No filme Vatel: Um banquete para o Rei, de Ronald Jeffé. É possível ver como eram esses cômodos, antes da introdução das galerias que permitiam o acesso a quartos específicos sem se passar por todos os outros. É uma criação francesa e a palavra “galeria” como local de exposição de arte, é muito pertinente, pois seu criador o fez com duplo intuito expor sua grande coleção e possibilitar a circulação em separado.

 

[6] RYBCZYNSKI Witold. Pronuncia-se “Vitold Rubchesqui”. Arquiteto e escritor inglês. Escreveu inúmeras obras importantes, destacando-se “Casa: História de uma pequena ideia”, obra essencial a quem se interessa pela história da arquitetura e deveria ser obrigatória nas faculdades de Arquitetura.

 

[7] A porcelana até o século XVIII era importada da china e tinha altíssimos valores. A partir do trabalho de Johann Frederick Böttger, que descobriu o processo de fabricação foi possível sua fabricação na Europa, para mais ver o livro: GLEESON, Janet. O Arcano. Rocco Editora. Rio de Janeiro. 2012.

 

[8] É possível que este frio já fosse um sinal da pequena idade do gelo que atingiu a Europa no século XVII.


OBITUÁRIO: IEOH MING PEI.

OBITUÁRIO: IEOH MING PEI.

Eu gosto bastante de obituários, principalmente quando é alguém não muito conhecido. Fica-se sabendo detalhes da vida, que somente passamos a saber com a morte.

É o caso do arquiteto chino-americano Ieoh Ming Pei, nascido em Cantão na China, em 1917. Abriu seu próprio escritório em 1955, aos 38 anos, um pouco tardio para os nossos padrões, mas se estabeleceu fazendo projetos inicialmente para William Zeckendorf1, um destemido empreendedor de NY. Em 1983 recebe o prêmio Pritzker2 , o mais importante prêmio da arquitetura mundial.

Em 1989 desenvolve a pirâmide  para o Museu3 Louvre4, o presidente François Mitterrand, que dispensa a licitação, contratando diretamente o arquiteto. Talvez sua obra mais controversa e sobre ela que exatamente quero falar.

DESENHO ORIGINAL DE PEI PARA O LOUVRE

Nos anos 80 ele se destacou em meio aos prédios nos estilo pós-moderno, algo que vemos hoje com um certo desagrado, propondo uma arquitetura de fortes linhas geométricas e acentuando os volumes. Na faculdade não vimos, nem analisamos seus trabalhos. Aliás as faculdades de arquitetura (pelo menos as que eu conheço) se dedicam pouco a analisar a obra de arquitetos, menos ainda de arquitetas (vide Zaha Hadid, Neri Oxman, Momoyo Kaijima ou Norma Merrick Sklarek)

O museu do Louvre é um dos primeiros e mais antigos do mundo, recebe mais de 8 milhões de visitantes por ano e está distribuído em mais de 70.000 ² de área. No século XVII, Luís XIV mudou-se para Versalhes e deixou o palácio do Louvre como um local de Exposições de peças da realeza. A Revolução Francesa o transformou em um museu .

A construção da pirâmide em 1989 foi e é ainda uma polêmica. Realmente à primeira vista parece ser um corpo estranho em meio a uma construção do século XVI.

Mas ao conhecermos um pouco da história da França, em especial Napoleão é que poderemos usufruir da magnifica ideia do arquiteto. Napoleão Bonaparte em 1798, invade o Egito. Além das tropas o invasor leva uma comissão 5 de pesquisadores entre eles desenhistas, escritores, tipógrafos, historiadores, tradutores etc. Fez, com sua comissão de artes um levantamento completo das relíquias e tesouros 6 do país. Traz consigo como espolio de guerra, enormes quantidades de obras de arte, retrata o país através de pintores e desenhistas e permite a partir dai a criação de uma ciência para o estudo do Egito: a egiptologia. Um desses tesouros está no centro de Paris, na praça da Concórdia o obelisco.

Para se ter uma ideia da dimensão da empreitada: foi elaborado uma série de documentos chamados “O Description de l’Égypte” (Descrição do Egito), aparecendo pela primeira vez em 1809 e continuando até o último volume em 1829, que ofereceu uma descrição científica detalhada do antigo e moderno Egito, bem como sua história natural. É o trabalho de colaboração de cerca de 160 estudiosos e cientistas civis, conhecidos popularmente como os sábios 7, que acompanharam Napoleão na Campanha do Egito em 1798-1801, como parte das guerras revolucionárias francesas, bem como cerca de 2.000 artistas e técnicos, incluindo 400 gravadores, que mais tarde criaram uma obra completa”.

O Louvre possuiu um dos mais completos acervos fora do Egito de sua arte e sua história. Há no seu subsolo uma ala enorme dedicada a este país que tanto influenciou o mundo e em particular a França.

A paixão pelo Egito, pelos franceses, é que levou o arquiteto Pey a desenhar esta pirâmide na entrada do Louvre, homenageando com um desenho simples uma geração de conquistadores, o país conquistado e sua importante referência para a França e para o mundo. Somente quando olhamos com maior cuidado é que podemos descobrir as belezas que se escondem sobre um objeto que se relaciona com outro com tamanha historicidade. Poucos notam esta relação, mas o arquiteto com sua sensibilidade soube construir um objeto capaz de contar uma bela história para toda a eternidade.

REFERÊNCIAS:

1.Foi um proeminente investidor imobiliário americano. Através de sua empresa de desenvolvimento Webb e Knapp — para o qual ele começou a trabalhar em 1938 e que ele comprou em 1949 — ele desenvolveu uma parcela significativa da paisagem urbana de Nova York. Arquitetos I. M. Pei e Le Corbusier trabalharam para Zeckendorf em alguns de seus projetos.

2. O Prêmio Pritzker é um prémio internacional de arquitetura. Foi criado em 1979 pela Fundação Hyatt, gerida pela família Pritzker, sendo muitas vezes chamado de “o Nobel da arquitetura. É atribuído anualmente ao arquiteto, ainda em vida, que melhor cumpra os princípios enunciados por Vitrúvio: solidez, beleza e funcionalidade.

3. Originalmente do grego a casa das musas.

4.O Louvre foi uma fortaleza construída no século XII, mas perdeu sua função ao ser rodeada pela cidade de Paris. Francisco I a converte em residência real em 1546.

5. A Comissão das Ciências e das Artes era um corpo de 167 cientistas, técnicos e artistas, formado a 16 de março de 1798. Destes, 154 acompanharam Napoleão ao Egito

6. Um desses tesouros foi a pedra da Roseta, encontrada por um soldado de Napoleão. Esta pedra contendo um texto em três línguas, grego, copta e hieróglifos acabou nas mãos dos ingleses. Através de seus textos, é que Champollion, em 1822 decifrou o texto egípcio e possibilitou ao mundo acessar os segredos guardados por milhares de anos.

7. Para ver mais: https://pt.wikipedia.org/wiki/Description_de_l%27%C3%89gypte


EVOLUA OU PEREÇA!

EVOLUA OU PEREÇA!

“Se não encontrar nas primeiros duzentos, desista.”
Lei de Konopka¹

Confesso que tentei encontrar, e fui além dos duzentos! Busquei projetos de arquitetura, com partidos e programas diferentes, em páginas de jornais, folders e material distribuído nos sinais. Não encontrei nada significativamente diferente. Sejam programas de 2, 3 ou 4 dormitórios, todos parecem seguir a mesma diretriz de projeto.
Arquitetos em geral, mexem com imponderabilidades, os sonhos e o futuro. As duas coisas se resumem a uma só: projeto.

A etimologia da palavra projeto é “projicĕre” onde “pro” é frente, extensão, de se estender. “Jicĕre” lançar, jogar, assim projeto é jogar algo a frente, adiante. Mais precisamente lançar um sonho, algo imaginado, a adiante, no futuro.

Agora um outro aspecto; João e Gustavo, meus netos, tem acesso a 5ª geração dos bisavós (na verdade só das 4 bisavós, os bisavôs, não resistiram) e isto é uma raridade e novidade na história da humanidade. Raramente tínhamos acesso aos avós, cuja idade média pouco passava dos 40 asnos e hoje estamos chegando aos 80-85. Antigamente, e não faz muito tempo, uma geração tinha o conceito de 75 anos, assim que todos que nasciam durante este período pertencia a mesma geração. Mas estas gerações, em função de segmentação mercadológica, se dividiram em partes, e assim surgiram, os TRADICIONALISTAS, que nasceram antes de 1946, os BABY BOOM² , após 1946 até 1964, GERAÇÃO X, de 1965 até 1981, GERAÇÃO Y (esta geração também é conhecida por “Millenials”) geração de 1982 até 2000, e finalmente a GERAÇÃO Z, atualmente em curso. Observem que estas divisões são absolutamente aleatórias e seu significado se prende a interesses, como dito acima, comerciais e de marketing.

Alguém, que teve a paciência de chegar até aqui, poderia perguntar o que tem a ver projeto e gerações?

Bom, vou tentar explicando usando o paradoxo do esquartejador, ou seja, fazendo por partes.
A essência do projeto é trabalhar para o futuro, a moradia não pode, nem deve ser algo estática no tempo. Assim como as gerações mudam, seja por que aspecto for, mudam as concepções do mundo e a forma de morar e trabalhar. Um millenials, não será um jovem eternamente, seu gosto, sua forma de vestir e de agir, mudará com o tempo, e não raro, se aproximará da de seus pais, quando não dos avós. Mas isto não se reflete na arquitetura. Que quer atender aos novatos do mercado. Se esquecendo que não há casa, apartamento ou ambiente de trabalho para os mais velhos ou aqueles não compartilham esta mudança.

A última vez que estive na casa de meus avós, em Alcântara, Rio de Janeiro, foi a 55 anos atrás. Mas consigo, até hoje, desenhar a casa em que eles moraram e onde passei inúmeras férias. Houve um fato, uma vez, que ao voltar, para as férias de janeiro, perguntei ao meu avô, se a casa havia diminuído³ ? Eu estranhei, as dimensões da casa, que me pareceram, mais diminutas que o ano anterior. Mas a casa que possuía,4 quartos (construídos com carinho pelo meu avô para receber os netos) e um único banheiro. Uma intocada sala de visitas, sala de refeições, sala de jantar, e terraços. Ficava no alto de um morro, com uma longa escadaria. Ele construiu esta casa nos anos 40 e 50 do século passado.

residência josé alves coutinho

Em essência ela não é diferente de nenhuma casa atual. É exatamente isto que incomoda. Passados 100 anos do nascimento dos avós e bisavós da minha geração continuamos a fazer a mesma casa, as mesmas divisões e repetindo os mesmos padrões.
Seja o mais moderno escritório de arquitetura, na linha do Tripytique, ou um escritório comum, estão ,no fundo, fazendo a mesma casa sempre?
Onde está o erro?
Num artigo, publicado em julho de 2008, no Estado de S.Paulo, o arquiteto Jorge Wilheim, já nos alertava:

Quando plantas dos apartamentos são publicadas, espanta-me a similitude dos programas e dimensionamentos: parece que há um único protagonista a desenhar com sua “mão escondida” todas as plantas, com iguais dimensões dos quartos, denominações sempre que possível em inglês e a presença inevitável, esta brasileira, da churrasqueira.

E completava:

O que não se pública é o nome do arquiteto autor desses projetos! A “mão escondida” o apagou, seja por não o considerar importante a ponto de figurar ao lado do decorador, do paisagista e dos realizadores do empreendimento; seja porque o próprio arquiteto não se sinta à vontade com o resultado. Se arquiteto existe, como entender, tiradas poucas exceções, o descaso com a estrutura e com a fachada, geralmente um aplique colado, muitas vezes imitando um paupérrimo estilo neoclássico?

O artigo de 11 anos atrás, permanece atualíssimo!
A casa, moradia ou ambiente de trabalho, qualquer que seja o espaço de ação do arquiteto deve levar em conta a evolução. A evolução, esta mesma que Darwin/Wallace desenvolveram e que diz de maneira clara e absoluta: os seres que se modificam, devido às mudanças do ambiente, têm maior chance reprodutiva, portanto deixam mais descendentes 4 . O ambiente da arquitetura deve se modificar com o tempo. Moro na mesma casa desde 1992, minhas filhas já foram embora(infelizmente) só voltam 1 vez por mês ou por ano. A casa é dos anos 30-40, com paredes de 30cm, são “imexíveis” 5 . Normalmente a sugestão é mude-se! Mas, acontece, que apesar dos perigos do local, dificilmente acharia uma casa para acomodar uma biblioteca de 2000. Livros e um ateliê. Teria que construir. Não tenho nem tempo nem vontade para tal.
Nossas casas, quase totalidade dos casos, são refratárias as mudanças do tempo e costumes. Quando as condições do ambiente mudam, nós não nos adaptamos, nós nos mudamos.
A casa não se altera!
As arquitetas(os) em geral, não produzem uma arquitetura que evolua com o tempo. Ao nos unirmos a alguém, formamos um casal, que pode ter inúmeras configurações. Uma é que o casal não tenha filhos. Outras opções implicam em filhos que provocam a necessidade de alteração arquitetônica (construção de outro cômodo, reforma e adaptações). A casa não está preparada para isto. As soluções estão no mercado, há uns poucos trabalhando nestas soluções, que deveriam estar espelhadas nos lançamentos, sejam prediais, individuais ou condomínios.
A moradia deveria poder ser alterada em dias, horas ou semanas. E não em meses e anos.
Nos últimos anos notamos a mudança em alguns dos espaços da casa; a cozinha se fundiu com a sala em muitos casos, o surgimento do terraço gourmet(argghhh!!!!), criamos churrasqueiras para quem nunca faz churrascos, quartos e banheiros estão unidos nas suítes (ainda que sejam muito ruim do ponto de vista arquitetônico). Criamos micro espaços que chamamos de closet, quando não passam de um cubículo, incapaz de fazer frente ao consumo de roupas e sapatos 6 . Eliminamos a sala de visita, praticamente reduzimos a área de serviço a um espaço de tanque e máquinas. A habitação não é pensada para o futuro, nem sequer ao presente, mas voltada a um conceito, seja de modo vida seja de relacionamento, seja de família, que apenas reside no passado, na grande maioria das vezes.
Por que os arquitetos fazem isto? Quem determina que espaços devem ou não ser projetados? No que as empresas se baseiam para pedir aos arquitetos este ou aquele programa?
Existem razão diversas, não são simples e implicam em soluções complexas, que passa pela forma como ensinamos nossos estudantes, como se discutem os movimentos disruptivos que vivemos, a compreensão dos avanços tecnológicos a que estamos sujeitos, e que avançam sobre todos os aspectos onde o ser humano está presente. Chegando ao contratante de nossos projetos, que nem sempre sabem exatamente o que querem. Peça ao seu cliente particular desenhar a casa dos sonhos dele, ela(e) provavelmente desenharão a casa onde moram, um pouco maior.
Quando a construtora entra pela sua porta, está cheia de ideias, sejam dos corretores sejam da agência de publicidade que acha que sabe a quem se destinam os imóveis que você deve projetar. Descem planilhas e pesquisas (em geral malfeitas!7 ) dizendo que o mercado quer isto ou aquilo, tem que ter 3 ou 4 dormitórios senão não vende, viu? Assim nos vemos apartamentos que não se adaptam, mas gente que tem que se adaptar aos apartamentos e casas. Moramos mal e trabalhamos em locais inóspitos. Esse não é o trabalho dos arquitetos!
A casa, o apartamento e o ambiente de trabalho, hoje mais do que no passado sofrem transformações que acontecem num ritmo não mais medido por gerações, mas por semanas e horas.
A informação, o estudo continuado, a pesquisa e leitura, são formas de atualizar e confrontar o conhecimento, alterando nossa forma de fazer e de pensar a arquitetura.
Os ambientes devem ser dotados de capacidade de responder as alterações da vida contemporânea, ou fazemos isto ou o futuro será apenas um amontoado de ruínas e entulhos.

REFERÊNCIAS:

[1] Ronald J. Konopka biólogo geneticista, descobriu um gene ligado ao tempo. Famoso por sua persistência na execução de experimentos. Cunhou a frase, que parece ser sua única lei. Se você não encontrar o que quer nos primeiros duzentos experimentos, desista. Para uma leitura estimulante leia, onde ele é citado: WEINER. Jonathan. Tempo, Amor e Memoria: Um biólogo notável em sua busca das origens do comportamento. Editora Rocco. Rio de Janeiro 2001.

[2] Baby Boomer significa “explosão de bebês”. fruto dos que retornaram da II Guerra (1939-1945) e multiplicaram o número de filhos. Garantidos agora pelos avanços sanitários, médicos e tecnológicos, aumentaram muito a taxa de natalidade. A expressão Geração X(o x se refere a diminuição de filhos nesta geração) foi criada pelo fotógrafo Robert Capa, em torno de 1950 e posteriormente adotado por estudiosos.

[3] Só fui compreender adequadamente, depois que assisti a Amarcord (Eu me lembro, no dialeto da regiã0 do autor, Frederico Felini, onde o mundo é visto pelos olhos de uma criança, no caso ele mesmo. E que vê tudo em tamanho maior. Dos seios ao transatlântico tudo era enorme. Uma visão que a criança ajeita a sua proporção e não ao contrário.

[4] Este é o sentido de evolua ou pereça! Aqueles que não se adaptam, perecem.

[5] Toda obra pode sofrer interferência de qualquer magnitude, poder-se-ia eliminar, deslocar ou criar paredes. A tecnologia nos permite fazer muitas coisas, a questão é custo.

[6] Uma olhada simples nos projetos apresentados nos jornais, parece que são feitos para lutar contra o consumo exagerado, mas é apenas um truque “isperto’ para vender um lugar que não existe, e não cabe pouca coisa mais do que um armário convencional. Não se trata aqui de reforçar o consumo desenfreado, mas a vida moderna implica numa quantidade de roupas e acessórios que não cabem nos espaços destinados.

[7] Pesquisa no Brasil nem sempre é bem-feita. São raras e caras. E tem um agravante, o brasileiro mente! Existe um case famoso, onde o presidente de uma empresa multinacional se instalou no Brasil e fez uma extensa pesquisa de mercado, com pomposidade lançou seu produto no mercado. Foi um fracasso de vendas, a empresa acabou por se retirar do mercado brasileiro. Perguntado por quê? O presidente da empresa respondeu que os brasileiros mentiam na pesquisa. Descobriu-se que no questionário havia uma pergunta que era crucial. A senhora compraria sopa pronta para seu jantar? A resposta invariavelmente era sim. Os pesquisadores descobriram que as donas de casa não gostavam de responder não. Então modificaram os pesos das respostas, quando a resposta era não valia 1 ponto, quando sim, valia 0,7. O que servia para balizar a pesquisa. A diferença era entre compraria e utilizaria. A empresa voltou ao Brasil


JANELA PARTE 1

JANELA PARTE 1

Janela, janelinha, porta,
campainha, trimmmmmmmm!!!

Por que falar de janelas?
Dou aula numa faculdade de arquitetura. E poucos tem noção da importância das janelas, nas residência e nos ambientes de trabalho. Alunos¹ durante 5 ou 6 anos decerto não aprenderão a sua história e relevância na arquitetura. Este artigo é dedicado a eles.
A singela brincadeira, em epígrafe, utilizada por pais e avós nos rostos das crianças, apertando ao final, o nariz, revela um pouco de como a arquitetura está ligada à nossa percepção, sem que tenhamos notado. A casa como um corpo e o corpo como uma casa.
A janela são os olhos, que permitem uma dupla interpretação, vêem fora e nos deixam ver dentro. É uma passagem.
A etimológica da palavra janela tem origem na palavra latina “ianuella² ”, diminutivo de “ianuas”, porta passagem, acesso³ . Ou seja, a janela é uma pequena porta, mais precisamente meia porta, pois ela se refere a parte superior da porta que era dividida, permitindo a entrada de iluminação e ventilação e impedia, na parte de baixo, a entrada de animais.
Existe uma palavra em latim e português, ‘fenestra’ que significa janela e é pouco usada em português, apesar de existir. Usamos mais um derivado que é defenestrar, que significa jogar pela janela. Essa palavra pode ter sido originada do grego “φαίνεω “(faíneo, eu olho).
A palavra window, em inglês, tem origem no Nórdico antigo ‘vindauga’, de’vindr – vento’ e ‘auga – olho’, i.e., olho de vento4 . se refere a um buraco por onde passa o vento, ou seja a ventilação. E é também um olho que vê,
A aproximação com janeiro, não é por acaso, a imagem de “Ianus’ o deus bifronte, que guardava o interior das casas e espantava os espíritos malignos estava em geral acima das portas. Janeiro é o mês que fecha o ano anterior e se abre ao novo. Extamente como faz uma janela.
A ligação entre porta e janelas, é evidente, não só etimologicamente como fisicamente. A janela deriva da porta (da porta falaremos num outro post).
O avanço no conhecimento construtivo e arquitetônico possibilitou através da colocação de vergas estruturais a existência inicial das portas e posteriormente das janelas. Ver figuras abaixo.

 

Fig.1 Fachada sem janela

Fig.2 Fachada com janela

 

 

 

 

 

 

 

 

A exemplo de outras inovações que a casa moderna possui, a janela é uma aquisição recente. Praticamente todas as casas tem uma coleção delas. São aberturas que permitem a ventilação e iluminação dos cômodos.
A maioria do tempo as casas não possuíam as aberturas, seja por dificuldades técnicas, a abertura de vãos requer paredes mais robusta e estruturadas de forma a permitir a instalação das janelas. Em geral a única abertura que possuíam era no teto para a ventilação, iluminação e saída de fumaça. A janela representou um passo importante na arquitetura.
É um detalhe que por vezes passa despercebido, tal é a presença das janelas na vida contemporânea. Nos arquitetos e decoradores, não damos, creio eu, a devida importância a esse aspecto da arquitetura, seja enquanto um aspecto importante na história da arquitetura, seja quanto sua importância técnica.
Uma viagem no tempo, serve não só para trazer a importância deste elemento da moradia, bem como mostrar a nova geração de profissionais, como olhar com mais atenção a este elemento arquitetônico.
Cada elemento da casa conta uma história importante na evolução da moradia, este blog tem a pretensão de levantar estes detalhes aqui e contar coisas a respeito destes elementos e se for possível dar direções as inovações ocorridas na atualidade. Tanto a janela quanto a porta guardam referencias importantes, que nós, ao abrirmos uma janela ou passarmos não nos damos conta.Desconhecemos o fato de que as portas foram personagem importantes em tragédias como a do terremoto de 1755 em Portugal. Não sabemos que janelas pagavam altos impostos até o século XIX. Tudo isto serve de repertório aos arquitetos e decoradores que queiram buscar algo além das fotos nos jornais e revistas. Somente as casas dos mais ricos e poderosos no período greco-romano possuíam janelas. Algumas até com vidros, como mostra a fig. 3

Fig.3 Pedaço de vidro romano.

Os romanos, foram os primeiros, ao que se saiba, a utilizar a tecnologia que eles desenvolveram a partir dos egípcios. Mas demorou muito para que se consegui obter vidros com transparência como temos hoje.
Se pudéssemos espiar uma casa na idade média, nosso nariz sofreria bastante, acostumados a uma higienização constante. Mas nossos olhos se surpreenderiam mais, ao não encontrarmos luz facilmente. Não havia para a maioria das pessoas, uma janela que pudesse iluminar o ambiente (no mais das vezes era até melhor!!!) para que pudessem enxergar e se movimentar.
As janelas no século XIII, se resumiam, na verdade a um buraco no teto e a metade da porta que poderia se abrir.
Quando existiam janelas, não haviam vidros. Papel encerado, tecido, pele de animais, ou chifres (sim, osso raspado até se obter uma pequena placa) ou mesmo madeira eram utilizados para dar alguma transparência e proteger um pouco contra as intempéries.
Antes de avançarmos, seria interessante cria um diferencial para as janelas. Uma classificação. Genericamente, poderíamos classificar as janelas em 3 categorias. Obstrutiva, Eurônotas e Iluminantes.
Obstrutivas são aquelas que vedam tanto ventilação quanto a iluminação e provavelmente pertenceram as primeiras gerações de janelas e aberturas. Podiam ser abertas ou fechadas, mas ao serem fechadas obstruíam a visão e o arreamento do cômodo. A implantação das primeiras janelas, se deu a um único cômodo, uma vez que a subdivisão das habitações, a exceção dos castelos, aconteceu de maneira generalizada a partir do século XVII.
Eurônotas são aquelas que permitem a ventilação e permitem ou reduzem a iluminação. Seu nome deriva do grego, ευνότιο, “Eûros” ventos do este e “νότιο,nótos” ventos do Sul e da chuva. Para os gregos e romanos se referiam os ventos predominantes do Sudeste. Assim as janelas que incorporam inovações importantes como a venezianas e treliças(muxarabi).
Iluminantes, como a própria palavras diz são aquelas que permitem ampla iluminação, através da incorporação de papel oleado, pele, madeira ou vidros.
Continua Parte 2…

REFERÊNCIAS

¹ Na verdade, não só alunos, os profissionais da área, em geral também desconhecem.

 

² A pronúncia de “ianuella” é “januella”, é ajustado ao português com a letra “J”, entretanto, o latim não possuía o jota que foi uma criação francesa do século XVI, uma adaptação para diferenciar novos sons do francês.

 

³ Para um olhar mais aprofundado ver JORGE, Luís Antônio. O Desenho da Janela. São Paulo. AnnaBlume.1995.

 

4 Para mais detalhes visitar: https://en.wikipedia.org/wiki/Window


ARQUITETA(O) ESTE DESCONHECIDO

ARQUITETA(O)¹ ESTE DESCONHECIDO

“A celebridade é uma contradição. Parecendo que dá valor e força às criaturas, apenas as desvaloriza e enfraquece.”
― Fernando Pessoa

Faça um pequeno exercício ao ler os jornais, tente encontrar o autor dos projetos apresentados como maravilhas do século XXI. Somente aqueles estrelados escritórios e profissionais terão gravados seus nomes nos jornais que amanhã embalarão os peixes na feira.
Ao olhar as páginas dos jornais e vendo centenas de anúncios (nos últimos anos tenho feito este exercício. Leio dois jornais por dia), em 99% dos casos estão citados empreendedores, corretores, investidores, construtores as vezes a paisagista(o) e ou a decoradora(o) mais raramente os arquitetos.
Não sou adepto do “celebrismo” que ataca, como praga, arquitetas(os) e decoradoras(es), mas também não vejo com bons olhos, esse desprezo de quem produz um bem importante para a cidade. A busca pelo reconhecimento se dá de forma inadequada e inconsequente.
Quando dou aulas, procuro alertar meus alunos da efemeridade da obra de arquitetura, quase sempre anônima, mas que sempre impõe efeitos (positivos e as vezes negativos) onde está implantada. Procuro dizer que poucos chegarão à fama, e que grande parte do nosso trabalho sequer é notado, ou valorizado.
A partir do renascimento, no século XV, quando a noção de autoria surgiu, arquitetos e artistas procuraram valorizar seu trabalho, impondo seu nome como uma marca de qualidade, distinção (no sentido de ser diferente de outros) e indicativo de que aquele trabalho lhe pertencia.
A autoria passou a ser um aspecto importante da profissão, tanto que existem leis que regem a autoria do projeto e conferem certos poderes aos seus detentores. Essa propriedade do projeto, é exclusiva dos profissionais de arquitetura. Mas nela não está embutida o reconhecimento social do seu trabalho. Indica quem quer. Ainda que, em Campinas e São Paulo, se não me falha a memória, haja uma lei obrigando a identificação dos autores do projeto, nas publicidades de jornal e revistas. Mais uma lei que não pegou!!!
O que acontece hoje, é que o trabalho do arquiteto, em geral, é menosprezado, desvalorizado e rebaixado. São vários os fatores para que isto aconteça, desde os próprios profissionais, que em desespero, se submetem a condições inadequadas e escorchantes, sejam as concorrências desleais, seja através dos construtores que veem nos profissionais apenas um meio para atingir seu objetivo maior, que é a venda. Não é por outra razão que os percentuais sobre a venda de imóveis são absolutamente superiores aos recebidos por arquitetas(os).
Isto tem provocado distorções no mercado imobiliário que consulta corretores² , onde eles passam a opinar sobre o que deve ser construído ou não. Não são as melhores fontes. É o paradoxo do Tostines: Vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais. Com isto temos uma “pasteurização” ou “homogeneização” dos produtos ofertados. Não que necessariamente seja o arquiteto a ser consultado. Na maioria dos casos ele também não vê corretamente a evolução do mercado. É preciso olhar com outros olhos. E isto significa um custo que empreendedores não gostam de pagar.
Investigar, conhecer, prever, antever são ferramentas para perscrutar o mercado. E quem é o mercado? Quem é o cliente? O que eles desejam? Três ou quatro, ou nenhum quarto? Precisa de vaga de garagem? Área de serviço? São perguntas que deveriam ser respondidas por quem estuda o mercado, e não somente por quem trabalha com o mercado.
As transformações tem sido aceleradas, vertiginosas e disruptivas, assim cada vez mais é preciso olhar com atenção a evolução da tecnologia, meios de trabalho as relações sociais e afetivas e como isto impacta a vida de cada um. Só assim será possível produzir melhor e adequadamente. E assim o autor poderá ser reconhecido pelo trabalho que faz.
A arquitetura é um bem social e poucos se dão conta disto. A cidade é em parte fruto do trabalho destes profissionais e de muitos profissionais que merecem o reconhecimento.

¹A questão de gênero tem se imposto de maneira bastante forte, inclusive em questões sérias. Particularmente, preferiria que houvesse o neutro na nossa língua. Mas não há. Normalmente o gênero masculino vem primeiro seguido do feminino. Acho que o correto deveria ser o contrário. As mulheres são exploradas, oprimidas e ganham diferencialmente. Em 1983, portanto a 36 anos, ao fazer o cartão de minha sócia, grafei arquiteta, não era utilizado, e provocou estranhamento. O usual era utilizar o masculino arquiteto para mulheres.

² Não tenho nada contra corretores, fazem parte da minha família. tenho orgulho de meu sogro ter sido um corretor visionário, que introduziu o conceito de condomínios em Campinas e meus cunhados que desempenharam e desempenham importantes atividades na área. Mas uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.


RUIM!? OTAKE

RUIM, OHTAKE!!!

Ó RAÇA!

Casseta e Planeta

 

O grupo Casseta e Planeta, tinha um quadro humorístico, onde eles criticavam, diversos grupos por suas ideias, formas de pensar e agir, de associação e ou preconceitos. Sempre terminavam com o bordão: Ó raça!

Significando que no fundo um grupo se defende dos outros, reagindo coletivamente, quando surge uma crítica ou ameaça. O silencio também é uma forma de reação. Arquitetos em geral tem espírito corporativo, não criticando e endeusando, quando não a si próprio, o mito de plantão (não falo dele tá?).

Arquitetas e arquitetos muitas vezes (não todos!) se acham acima de outros profissionais e não raro até das outras pessoas. Em muitos casos, se acham a última bolacha do pacote!

Mas é de se espantar o comportamento de alguns deles. Neste domingo passado, 07/04/2019 a Ilustríssima da Folha de S. Paulo, publica o depoimento de Ruy Ohtake, na coluna Memorabilia[1]. Esta coluna publica dominicalmente personagens da cultura que comentam obras e trabalho que, em certa medida, influenciaram seu trabalho.

Memorabilia, etimologicamente falando, se refere a memória, é um quase eu me lembro. Mas, em geral, se refere ao conjunto de elementos que suscitam a nossa lembrança e que de alguma forma impactam e transformam as nossas ações.

No título do artigo e no começo do texto, Ruy usa um polemista, Nassin Taleb[2] para falar de evolução. O arquiteto usa isto para dizer que a evolução da arquitetura paulista se deu por conta de seus traços, que representariam um avanço no sentido de adaptar a arquitetura a um ambiente que se modificou (é disto que a teoria da evolução trata).

Essa ideia da evolução aos saltos não é dele e sim de um biologista e paleontólogo que criou uma hipótese para a evolução, não como algo lento e gradual, mas que acontece aos saltos. Steve Jay Gould[3], desenvolveu a teoria do Equilíbrio Pontuado. Essa teoria diz que a evolução ocorre de maneira ligeira (aos olhos do processo evolutivo, que é de milhares ou milhões de anos) em um curto período.

O artigo é no fundo a exaltação de um arquiteto a seu próprio trabalho, ele faz referências a Niemeyer e Le Corbusier, o que é natural para um arquiteto. Não se deve considerar os mortos donos de uma santidade que não possuem. São arquitetos estelares, mas cometeram erros, que raramente são analisados ou levados em conta.

As aulas de projeto, na faculdade de arquitetura passavam um semestre inteiro analisando uma obra de Corbusier, sua famosa casa Villa Savoye, Paris, base do movimento modernista. Em momento algum os professores levantaram os problemas que aquela casa apresentou ou foi feita alguma crítica. O arquiteto foi salvo de um rumoroso processo, pelos proprietários da casa, por conta da II Guerra Mundial[4].

Mas o artigo de Ruy Ohtake ataca alguns pontos que são importantes comentar.

Primeiro ele diz que sua obra provocou saltos, no sentido evolutivo e qualitativo, na arquitetura paulista. É pouco provável! Ele tem raríssimos seguidores e sua arquitetura a par de ter um poder visual enorme na pobre paisagem paulista, beira o boco-moko, com suas cores exuberantes e descombinadas. É importante ressaltar que a evolução também faz experimentos teratológicos, que são eliminados posteriormente.

A obra do hotel Unique, esta sim, tem um impacto positivo, de extremo bom gosto e soluções formais impactantes, digna de ser uma referência mundial da arquitetura, o que não é pouco. Mas a falta de humildade do arquiteto, choca ao se comparar, aos dois maiores ídolos da arquitetura nacional.

Ele tem razão, ao apontar a falta de criatividade de arquitetos nas soluções de fachada e de interiores (não estamos falando de decoração). Os projetos neste século XXI, deixam em muitos aspectos a desejar. Mas é quase impossível falar de falta de criatividade quando se fala, por exemplo em Tryptique, o escritório franco-brasileiro de arquitetura, ainda que seus interiores nem sempre reflitam uma modernidade requerida. Suas concepções e fachadas apresentam soluções revolucionarias sim, trazendo impactos na forma de ver e fazer arquitetura. Faltam a muitos arquitetos as noções de como as casas funcionam, qual é a logística interna e entender as violentas modificações implementadas nos últimos anos pelas diferentes tecnologias. Inclusive na forma como as pessoas usam a casa e como são formadas as novas famílias.

No artigo, ele se coloca na vanguarda da arquitetura brasileira, acusando seus pares de não reconhecerem a importância de sua obra, sendo ele então, apenas reconhecido e aplaudido pelo povo, esse ente etéreo que todos citam e poucos representam.

Ruy Ohtake é um daqueles que brigam pela primazia da curva, como se fosse algo patenteável. Oscar, ele e um certo arquiteto aqui da região de Campinas, se arvoram no domínio da curva como elemento vital e fundamental da arquitetura. De fato, o é, mas não na preposição que eles colocam.

O projeto de Heliópolis tem uma das piores salas da arquitetura contemporânea paulista. ¼ de círculo, duas portas e uma abertura para a copa-cozinha. Os quartos tem uma face curva que impede a colocação de móveis na parede. Mas tem um aspecto interessante, suas fachadas, realmente, são bonitas e só. É como bolo de casamento, bom só para ver.

Os arquitetos devem ter noção de sua insignificância. O tempo é implacável, uma maravilha de arquitetura será reverenciada por séculos, as ruins serão esquecidas e reduzidas a pó. Nós arquitetos contemporâneos produzimos obras que com sorte durarão dezenas de anos somente.

A Basílica Santa Sofia, uma antiga catedral de Constantinopla, atual Istanbul, foi erigida no século VI, e pasmem, em apenas 5 anos, de uma beleza arquitetura a toda prova[5] , é visitada por milhares de pessoas que se maravilham com seus pilares, domo e dimensões grandiosas. Quem sabe o nome de seus arquitetos, quem conhece suas histórias? o que ela representa em termos de inovação construtiva?

As obras dos arquitetos, permanecem anônimas para quase a totalidade da população. A história só dará credito a aquilo que importa. Ao resto, ruínas.

A propósito, Santa Sofia não foi feita por arquitetos[6] !

[1] Memorabilia fatos ou coisas dignas de memória, segundo Houaiss.

 

[2] Nassim Nicholas Taleb é um economista libanês que vive nos EUA, autor de livros onde explora eventos fortuitos na economia e na vida, entre seus livros se encontra “A Lógica do Cisne Negro”. Até a descoberta da Austrália no século XVII, imaginava-se que somente existiam cisne brancos, a descoberta acidental dos cisnes negros alterou de maneira repentina a visão que se tinha do pássaro. Taleb usa esta metáfora para falar de eventos que ocorrem de maneira imprevista.

 

[3] Steve Jay Gould biólogo e paleontólogo, é um dos autores da teoria do Equilíbrio Pontuado que explica que a evolução ocorre de maneira acelerado em períodos muito curtos em saltos por conta de eventos cataclísmicos.

 

[4] BUTTON, Alain de. Arquitetura da Felicidade. Editora Rocco

[5] Após a queda de Constantinopla,1453(data que dá início a era moderna, encerrando a idade média) seu conquistador, o sultão Maomé não deixou que fosse destruída e a transformou numa mesquita.

 

[6] O imperador Justiniano escolheu o médico Isidoro de Mileto e o matemático Antêmio de Trales como arquitetos no século VI EC (Era Comum).

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CLIENTE: QUE DIABOS É ISTO?

CLIENTE: QUE DIABOS É ISTO?

A palavra cliente tem sua origem no latim, cliens-entis, aquele que estava sob a proteção de um patrono.
As coisas mudaram muito desde então. O cliente hoje, é o patrão. Acontece que grande parte de suas demandas, ou não são bem claras ou ele tem uma visão incompleta de suas necessidades, no caso pior o arquiteto não consegue compreender claramente suas necessidades.
O primeiro fato é que não há no curso de arquitetura uma cadeira chamada ‘cliente 1.1” que seria uma forma de entender esta figura e melhor compreender e resolver seus problemas.
O cliente é complexo, difuso e confuso. Me lembro claramente trabalhando com Ricardo Badaró e Roberto Leme de um cliente para qual eles estavam desenvolvendo um projeto, térreo, quando a esposa do cliente pediu uma escada que ela havia visto na novela. Não houve quem a demovesse da escada. O projeto virou um imbróglio tão grande que o projeto não avançou. Num outro caso o cliente queria uma série de portas pois ele não queria que o filho tivesse acesso ao quarto dele. Ele pediu para colocar um terceiro pavimento, para poder colocar, um corredor e novas portas afim de dificultar o acesso.
O arquiteto se depara com estas questões no seu dia a dia e nem sempre estamos preparados para lidar com estes casos de maneira correta. As vezes os casos são mais simples, um problema técnico ou apego a velhas tecnologias. Tivemos um cliente que não queria trocar as lâmpadas da vitrine de sua loja que estava sendo reformada. A substituição por leds, explicamos nós, não tinha somente a função de economia, mas substancialmente a melhoria da visibilidade de seus produtos. É sabido que locais melhores iluminados podem alavancar em até 20% as vendas. Não é só isto.
Locais mal iluminados reduzem a capacidade e desempenho dos funcionários em até 15%, por hora! Junte-se a este ambiente, ruído, pó, temperatura, ventilação e iluminação e você começará a entender a baixa produtividade do trabalhador brasileiro. E tente explicar ao cliente estas consequências em relação as opções ofertadas pelo arquiteto. É raro que ele opte pela melhor. A opção é quase sempre a mais barata.
Uma conta simples, um projeto sem arquiteto pode levar o cliente a executar um programa maior do que ele precisa. Por exemplo, uma casa que poderia ter 200m² ter 220m², esta pequena diferença pode custar R$70.000,00., que é mais que o suficiente para pagar um bom arquiteto e sobrar ainda.
Como tudo nesta vida tem um lado bom e um ruim (menos o disco do Orlando Moraes). Há arquitetos que provocam gastos, desnecessários ao cliente. Mas estes são os maus profissionais.
A arquitetura deve ser clara, transparente e eficiente aos olhos do cliente, não há que se ocultar coisas para o cliente.
É o caso das famigeradas “RT”, reserva técnica. Que corresponde a um determinado valor que vai para o arquiteto que indicar ou comprar o produto numa determinada loja. Já se sabe que este tipo de oferta, além de representar uma falta de ética para com o cliente, representa uma falta grave da profissão passível de punição. A solução a meu ver é simples, aviso na porta, 10% de desconto para o cliente com arquiteto. Não há desconto para cliente sem arquiteto. A relação fica clara e transparente. E não prejudica o cliente. O arquiteto não pode viver às custas de RT, ao aceitar isto, desvaloriza o projeto e rebaixa toda a profissão. Não é um benefício a todos.
O cliente precisa entender que o trabalho custa e não há risco zero. Empresários do setor da construção precisam entender que o arquiteto é um dos seus mais valiosos ativos. Construtoras precisam entender que o arquiteto tem valor igual ou superior ao corretor (não é um julgamento de valor), pois é através de seu projeto que ele movimenta sua obra.
O desprezo pelo trabalho do arquiteto tem levado a uma desvalorização da profissão.
O cliente também é responsável por isto!