ARQUITETURA AUTORAL, ESSE TROÇO EXISTE?

ARQUITETURA AUTORAL


Good ideas come from everywhere. It’s more important to recognize a good idea than to author it.
Jeanne Gang

Num post publicado em, 16 de junho de 2019, pelo blog do caderno de Imóveis do Jornal Estado de São Paulo, Luíza Leão diz no lead: “Arquitetura autoral é aposta de incorporadoras para se diferenciar na crise”.

Bom, a primeira pergunta que surge: o que é arquitetura autoral? Existe uma arquitetura que não tenha autor ou autores?

Faz parte do jogo do marketing, valorizar alguns em detrimento de outros. Mas parece um exagero chamar de arquitetura autoral, uma arquitetura cuja diferença apenas está na fachada. O “autoral” aqui se refere apenas aos que tem alguma fama? E os outros produzem que tipo de arquitetura?
Todos os empreendimentos, que olhamos diariamente nos jornais, sem exceção, não apresentam nenhuma novidade em termos de planta, apenas reproduzindo o mesmo e enfadonho desenho, seja 1 dormitório ou 4 dormitórios, todos absolutamente iguais. Portanto não é a planta de arquitetura que cria um diferencial autoral. Se não é, o que é?

Playground, área pet, living, rooftop, fitness, coworking, terraço hobby, terraço gourmet, apartamento Garden, suíte master, high lounge, nomes em inglês só reforçam o nosso jequismo. Todos, poderiam ser substituídos, pelo português mais claro, sem que se perdesse a aura. Eles não configuram algo autoral, apenas adornam um bolo sem gosto.

Algumas plantas chegam a apresentar área de serviço maior do que a cozinha, talvez fruto de arquitetos que tenham vivido longe de casa e perdido a sua ligação com a cozinha. Resta sua conexão com a limpeza da roupa.

As ligações entre os espaços da casa são absolutamente e repetidamente entediantes. São as mesmas plantas, sejam de um arquiteto(a) anônimo (seus nomes não aparecem nos anúncios) sejam dos famosos, qualquer um. É a mesma catilinária de quartos, em tamanho reduzido, sem um espaço de estudo e com armários liliputianos. Os banheiros imitam as cozinhas “egípcias” onde é melhor se entrar de lado, como as figuras hieroglífica.

As salas de estar, que são a tradução direta “living”, agora se conectam diretamente ao terraço. Ligadas ao terraço para propiciar um aumento de área, para as exíguas salas, bem entendido. E onde as prefeituras nem sempre estão de acordo. Terraço é terraço e sala é sala, as prefeituras criaram uma legislação, construída letra a letra para a burla, numa destas irracionalidades que as leis costumam ter. o terraço em geral e até uma determinada área, não conta como fator construtivo. A esperteza está em transformar o terraço em um pedaço de sala, pela colocação de um único nível. O fator construtivo deveria levar em conta e simplesmente incorporar ao valor do IPTU. Evitar-se-ia constrangimentos arquitetônicos.

Ainda que seja, um adepto fanático do churrasco, não sou favorável a ideia de que todo terraço deva ter uma. 90% das pessoas não utilizam nem gostam tanto de churrasco.
Essas plantas são para uma família cristalizada no tempo, ou seja, as plantas não evoluem com a família. A família mudou de configuração, os proprietários que arranjem outro. As pessoas não gostam de mudar. Elas têm que se mudar. E aí encontramos famílias que se reduziram ao casal, e que possuem 4 dormitórios, sem que saibam que destino dar a aqueles espaços. Uma planta ampla de 1 dormitório seria a ideia, mas não há no mercado.

Se as plantas são semelhantes não está ai o diferencial autoral!
Ah! E a fachada? Simmmm aí pode estar o desenho autoral que se procura, ou seja, o escritório de arquitetura produz uma roupagem diferente capaz de atrair a atenção das pessoas na rua.

Sem dúvida quando olhamos alguns dos indícios produzidos na cidade de São Paulo podemos notar o arrojo de alguns, a produção de uma arquitetura diferenciada e inclusiva e outras que são absolutamente isolacionistas, produzindo um local para poucos.

A utilização de arquitetos de renome, confere, evidentemente valor ao imóvel, mas isto não significa necessariamente que estejamos diante de uma inovação. O grande nome nem sempre corresponde a uma grande inovação.

Independentemente do que se ache, eles contribuem para a ambiente urbano, criando por vezes ligações e rompendo barreira dos muros, para isto basta ver as propostas da Triptyque, para a Zarvos. Suas fachadas são absolutamente fascinantes e suas propostas de verde melhoram certamente a cidade. Mas ao olhar suas plantas elas não se diferenciam da repetição.

Mas é preciso lembrar que isto não é autoral especificamente, pois qualquer desenho tem um autor ou autora, e a arquitetura em geral, é autoral por filosofia e ofício. A profissão nasce sob a ótica da autoridade sobre o resultado, ou a autoria. Muito se discute lá fora e pouco aqui sobre esta questão, entretanto grandes escritórios, tem departamentos para cuidar deste assunto, e seus colaboradores e funcionários se submetem a contratos de exclusividade.

Quando estamos falando de autoria de projeto, ou melhor de projetos de autoria, não estamos apenas falando de uma discussão contemporânea, mas de uma tradição que tem mais 6 séculos. Leon Battista Alberti, arquiteto do “Quattrocento” italiano, é o primeiro a propor o trabalho autoral, através dos desenhos que eram executados e enviados a obra para sua execução. Bastaria a seus executores construir em escala maior aquilo que o desenho representava. Em contrapartida a Brunelleschi, que trabalha no local da obra, exercendo uma espécie de tirania com os trabalhadores .

Como podemos ver a discussão não é de hoje e não se encerrará amanhã, é só preciso colocar as questões em seu devido lugar. Convido arquitetos e arquitetas a uma reflexão.

REFERÊNCIAS


[1] Boas ideias vêm de qualquer lugar. É mais importante reconhecer uma boa ideia do que o autor dela. A arquiteta americana Jeanne Gang é a fundadora e líder do Studio Gang

 

[2] Veja mais aqui: https://economia.estadao.com.br/blogs/radar-imobiliario/arquitetura-e-aposta-de-incorporadoras-para-se-diferenciar-na-crise/?utm_source=estadao:mail&utm_medium=link

 

[3] Para mais ver aqui: http://reviewsinculture.com/2014/04/01/architectures-struggle-with-authorship/