INUTILIDADES DOMÉSTICAS

INUTILIDADES DOMÉSTICAS


There is nothing so useless as doing efficiently that which should not be done at all
Peter Drucker

O Brasil tem coisas que até Deus, se existisse, duvidaria. Uma é a caixa d’água e a outra é o chuveiro elétrico.

A caixa d’agua é um típico indicador de subdesenvolvimento, pois ele mostra a insuficiência, intermitência ou mesmo a falta de fluxo de água para a moradia. Em países desenvolvidos, as empresas fornecedoras de serviços de água, garantem o fornecimento 24/7. Os casos de interrupção são raros e eventuais.

A água é um recurso escasso, por esta razão, sua guarda e utilização, obedeciam às regras de uso e parcimônia da utilização. Na antiguidade o uso compartilhado era através de cisternas. As primeiras têm sua origem, no Levante, Mesopotâmia. Seu uso estava ligado a utilização humana, animais e agricultura.

A cidade de Constantinopla, atual Istambul, construiu uma cisterna a partir do local de habitação dos construtores da Basílica de Santa Sofia, e como uma proteção para a cidade durante cerco de seus inimigos. Construída em 532, utilizando o mesmo sistema utilizado para a construção da basílica, ou seja, “pré-moldado” 366 colunas oriundas do desmonte de Templos pagãos. Tem capacidade para 30.000.000 de litros d’água, e se constituiu numa importante estratégia de guerra.

Até os anos 50-60 do século XX a água utilizada nas casas era oriunda de poços, riachos e fontes e eram acumuladas em caixas de alvenaria (sujeitas a uma serie enorme de problemas). moringas, filtros e cisternas ajudavam na guarda. A partir dos anos 60 foram implantadas as caixas de amianto. Problemas ambientais e de saúde acabaram por banir o asbesto, matéria prima do amianto, do mundo civilizado. Entretanto no Brasil sua utilização, ainda que restrita, continua em uso. Não em caixas d’água. A tecnologia modificou estas caixas para PVC e fibra de vidro. A preferência ao PVC, ou policloreto de polivinila (ou policloreto de vinil), se deu por seu baixo custo e sua leveza. Mas ele também não é isento de graves problemas.
Assim aquele elemento, aparentemente útil e inócuo colocado sob nossos telhados deveria ter um fim. E os serviços de água e esgoto garantissem o fornecimento contínuo e ininterrupto. É assim nos países desenvolvidos e deveria ser assim aqui.

Os chuveiros elétricos, são desses absurdos que só aqui podem existir. São uma invenção nacional dos anos 30 do século XX. Inicialmente feitos de metal, a partir dos anos 70 são produzidos com carcaça plástica, para maior segurança. Ainda que a indústria nacional tenha conseguido um produto de relativa segurança, informe que seu produto é produzido sob os maiores cuidados, o fato é que misturar eletricidade e água nem sempre é uma boa ideia.

Presentes em praticamente toda América Latina, faz parte da rotina de milhões. Com pouca presença em estatísticas fatais, mais provavelmente defina a falha de reporte, pois as vezes o acidente é anotado apenas como evento envolvendo eletricidade na residência sem especificar a localização.

Independente disto, a falta de mão de obra especializada e a proliferação de pessoas especializadas em bicos, só cresce. Estas pessoas, tem pouca noção dos riscos envolvidos, trabalham sem proteção e com pouca habilitação técnica. Alie-se a isto a falta de projetos específicos, no caso elétrico, para as residências. Os construtores e proprietários, muitas vezes, optam em função de preços por produtos inadequados (bitolas incorretas), que cedo ou tarde apresentarão problemas. Some-se ainda o fato de que a imensa maioria das construções utiliza “um especialista” em implantação da sua rede elétrica. A baixa utilização de DR’s que é um equipamento essencial em qualquer residência, serviria de proteção, em quase a totalidade dos acidentes elétricos nas moradias. Acontece que o equipamento não pode ser instalado se houver gambiarras, junções com fitas isolantes, falta de separação por circuitos (por exemplo, máquina de secar roupas ligadas em conjunto com outros equipamentos, freezer ou geladeiras) excesso de cargas por circuitos e etc.

Um outro problema que aflige a parte elétrica é a falta de aterramento nas residências. É obrigatório, e em parte, nem sempre corretamente, uma barra de ferro pintada de cobre, ou mesmo cobre de baixa qualidade que vai enfiada na terra e nunca mais se olha isto. O aterramento é um elemento fundamental na proteção do individuo dentro de sua residência (é uma das razões da famigerada tomada de três pinos). O pouco caso com a colocação da parte elétrica somente piora a qualidade das instalações. A fiação deve estar entubada e isolada. O aterramento feito junto a estrutura da casa, já é uma garantia de maior proteção.

Numa pesquisa rápida do Google a Inglaterra parece ser o único país da Europa a possuir o chuveiro elétrico. Sua utilização se deve ao fato da tipologia de energia fornecida, por vezes o gás ou de outras fontes é mais caro.

De qualquer forma, num país de características continentais, como o nosso, com pouca especialização, o chuveiro elétrico, continua um impávido colosso de utilização. Em alguns anos, talvez, apresente algum declínio em função da escalada de preços da energia. No Brasil, o gás devera se tornar mais barato a partir das descobertas de imensas reservas de gás natural.

Ainda assim, o chuveiro junto com a caixa d’água ainda se constituirão num exemplo de inutilidade doméstica!

 REFERÊNCIAS


[1] “Não existe nada mais inútil do que fazer eficientemente aquilo que nem deveria ter sido feito.”

[2] Peter Ferdinand Drucker (1909- 2005), austríaco de nascimento, viveu grande parte da vida nos Estados Unidos, é um dos mais importantes pensadores da administração moderna.

[3] Cisterna em português vem do latim “cisterna”, de cista, “caixa”, do grego κίστη kistê, “cesta” é um recipiente para reter líquidos em geral água.

[4] Pré-moldado significa aqui que estes pilares não foram construídos para o específico uso. No caso da Basílica, bem entendido, não havia a noção de pré fabricação na antiguidade, na escala que temos hoje em dia. Os pilares sempre tiveram a função estrutural. No caso de Santa Sofia eles foram usados como estruturas pré-moldadas, semelhantes ao utilizados hoje em dia. Eles foram utilizados em função da montagem de Santa Sofia. Eles foram utilizados em função da montagem de Santa Sofia. O médico Isidoro de Mileto e o matemático Antêmio de Trales escolhidos por Justiniano (482-565) como arquitetos da basílica. Para ser possível a construção nos incríveis 5 anos que o imperador queria, eles propuseram o desmonte de templos por todo o império de forma a agilizar sua construção. É possível que mais de 10.000 trabalhadores tenham sido empregados na sua construção. Para abrigar estas pessoas foi construído o abrigo que posteriormente se tornou a cisterna.

[5] Para ver mais aqui, neste importante artigo Avelino José Pereira Neto: http://www.artigos.com/artigos/19357-a-caixa-d-agua

[6] A indústria nacional, é preciso reconhecer avançou, em muito, no quesito segurança, nos últimos anos.
DR é um disjuntor com prevenção a surtos elétricos. DR entende-se como Diferencial Residual, o qual tem como finalidade proteger pessoas e os animais contra os efeitos do choque elétrico seja por contato direto como indireto. O dispositivo ao detectar uma fuga de corrente na instalação, ele desliga o circuito imediatamente. Aqui vai uma pequena história: a vários anos atrás, fiz um projeto para um grande amigo, o obriguei a instalar os DR. Anos depois ele ao vender a casa me disse, você me fez gastar um dinheirão nestes DR’s e nunca aconteceu nada, ao que eu respondi: e gostaria que tivesse acontecido? Uma segunda história, fizemos um terminal de ônibus, e no projeto pedi proteção máxima para os circuitos elétricos e aterramentos. O construtor me ligou perguntado se poderia substituir o equipamento, por um convencional, que não era o DR. Eu lhe respondi que sim. Mas o preveni, entretanto, que se no dia da inauguração, caísse um raio e fulminasse o prefeito e outras pessoas presente, quando viessem me prender, por irresponsabilidade e atuação criminosa, eu também trocaria meu nome pelo dele. Ele colocou o DR.

[7] Segundo o prof. Antônio Panicali, um especialista em proteção atmosférica, o aterramento, este feito com a barra de ‘cobre” pode ser substituído de maneira mais eficiente se aterrado a estrutura da residência, desde que obedecidas as normas, ele costuma exemplificar que o aterramento é algo que devemos entender com o devido cuidado, ele conta em suas palestras que os aviões, que são estruturas que recebem proporcionalmente uma quantidade grande de descargas elétricas, para se proteger, soltam um fiozinho, ao decolar, que garante o aterramento. Muita gente exclama-Verdade????. Não, claro que não, a proteção está em conectar todos os elementos a carcaça do avião e assim garantir proteção aos equipamentos e as pessoas. Panicali, com larga experiencia e referência internacional, tem alertado sobre problemas de igual gravidade, para a proteção atmosférica e interferências eletromagnéticas (volto a esta questão em outro post).

[8] Vale pena uma visita ao site do fabricante de chuveiros elétricos da Inglaterra. https://www.mirashowers.co.uk/blog/trends/revealed-what-brits-are-really-getting-up-to-in-the-bathroom-1/