VIAGENS

VIAGEM


“The real voyage of discovery consists not in seeking new landscapes, but in having new eyes.”1

Marcel Proust

“A verdadeira viagem de descobertas não consiste em buscar novas paisagens, mas em ter novos olhos”. Escritor francês, século início século XX, autor do livro “Em busca do tempo perdido”

Viajar é uma palavra cuja origem do latim significa via, caminho e estrada. É uma coisa da qual só temos uma certeza: quem vai não é o mesmo que volta.

Estes próximos post serão em função da viagem que fiz a Portland, onde vive minha filha Juliana, casada com James, americano.

A ideia é contar a partir da experiencia de olhar esta cidade tão longe da minha cidade, Campinas e comparar (como se fosse possível!) as duas cidades em buscas de não novos lugares, como diz Proust, mas um novo olhar sobre a cidade. Um olhar não de um turista normal, pois vivi como minha filha vive, ou seja, durante 15 dias pude ser um pouco local, e ver com um olhar um pouco mais acurado a cidade em que ela vive e trabalha e ver as diferenças com as quais convivo diariamente.

Não é um trabalho comparativo, não se comparam cidades que vivem sob condições absolutamente diferentes. É mais a tentativa de olhar aquilo que é bom lá, e que poderia acrescentar algo aqui. Se é que isto é possível.

Serão mais coisas de arquiteto(a) do que propriamente turistas, ou melhor de um turista arquiteto, trazendo olhares sobre as coisas que dizem respeito a nossa profissão.

Na foto abaixo podemos ver área central da cidade e ao fundo o monte Hood, que moldura a cidade. Esta área possuiu edifício de grande altura, com até 30 pavimentos, mas não são muitos e estão concentrados aqui. É possível notar o cinturão de verde que cerca o centro e deste local é possível uma vista de praticamente 360º da cidade.


É isto uma das razões que faz de Portland a cidade silenciosa que é. Uma solução simples e agradável, produz o silencio tão importante e ainda faz o sombreamento da cidade tornando-a mais confortável ainda.

Viajar é, portanto, mais que conhecer, é experenciar o lugar e ter novos olhos para o que a cidade, local ou país possam oferecer.

Transformar uma viagem de férias em uma outra viagem é aquilo que Proust parece nos dizer é abrir os olhos para o novo, o diferente e para aquilo que possa se tornar útil.

Espero que este post, agrade aqueles que por aqui passem!


REFERÊNCIAS

1 “A verdadeira viagem de descobertas não consiste em buscar novas paisagens, mas em ter novos olhos”. Escritor francês, século início século XX, autor do livro “Em busca do tempo perdido”


ARQUITETURA E A MÃE INGRATA

ARQUITETURA E A MÃE INGRATA

Não gosto nem um pouco de patriotismo, nem de patriotadas. Continuo achando que patriotismo é o último refúgio dos canalhas, como diz a frase impagável de Samuel Johnson, escritor e pensador inglês do século XVIII.

No caso aqui, a relação não é bem da pátria, mas com a mátria, e o problema é com um de seus filhos, onde inversamente à frase lapidar, o canalha é a mãe¹!

Mais especificamente, o tratamento de Campinas para com um dos seus mais ilustres filhos.

O arquiteto Fábio Penteado² , foi e é um dos grandes arquitetos do Brasil, autor de grandes obras³ , de importância incontestável em diversas cidades do Brasil e inclusive aqui em nossa cidade.
Campinas, pouca ou nenhuma atenção dá as obras deste arquiteto e num particular trágico, o Centro de Convivência. Obra dos anos 70 do século XX.

Contando um pouco a história, Fabio havia sido preterido⁴ (ficou em segundo lugar) num concurso, em 1966, para um Teatro de Ópera, que seria instalado no entorno da Lagoa do Taquaral (sobrevive insepulta, uma concha, dita acústica). Entretanto na Quadrienal de Praga de 1967, ele e sua equipe, ganham a medalha de Ouro da exposição (o que é bom para o mundo não é bom para a Campinas)

Há então uma movimentação para trazer o arquiteto para projetar um dos mais icônicos edifícios da cidade, o Centro de Convivência Cultural, que seria estabelecido na região do Cambuí, ao final da avenida Júlio de Mesquita, na praça da imprensa Fluminense, obra do século XIX.

Fabio foi destes arquitetos que valorizam a formação humanística e a preocupação social, vindo de família de posses, não voltou sua enorme capacidade criativa somente a aqueles que mais tem. Produziu obras de relevância, cujo conteúdo social, como raros, conseguiu traduzir em formas arquitetônicas.

A construção de um edifício escultura iria impactar a cidade, tanto positiva como negativamente. Alguns setores nunca se convenceram de que uma praça para o povo poderia ser pensada naquele lugar.

A obra está lá e em condições ESTRUTURAIS DE RISCO. Não há pelo poder público interesse na sua recuperação, e não há um político, entidade de classe, AREA ou organização que busque providencias para as condições alarmantes em que o edifício se encontra.

Já passou da hora, da Cidade, esta mãe ingrata, voltar seus olhos a seu filho talentoso, que produziu exemplos de uma arquitetura inclusiva, como não mais se vê na cidade.

O ministério público tão zeloso dos desmandos de prefeitos, deveria por suas mãos sobre esta questão e definir responsabilidades e deveres com este verdadeiro patrimônio arquitetônico.
Não me custa xingar a mãe, mas vou poupar-lhes!

¹ Antes que algum incauto venha me acusar de algo, aviso de antemão que sou mais campineiro do que muitos que nasceram aqui. Eu escolhi morrer aqui. Não nasci aqui, mas aqui, me formei, criei família e filhas. Meu trabalho está todo em Campinas.

² A ideia deste artigo me surgiu, meses atrás ao passar pelo Centro de Convivência, levando um grupo de estudantes de arquitetura para conhecer a obra do arquiteto. Nos jornais de hoje 27/02/2019 aparece a noticia de uma exposição em Portugal sobre a obra de Fábio Penteado. A cidade de Matosinha, na sua Casa da Arquitetura, faz uma homenagem ao arquiteto. Veja aqui: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/02/museu-portugues-homenageia-obra-do-arquiteto-fabio-penteado.shtml

³ Para estudantes que não sabem quem é: O tênis clube de Campinas, Sociedade Harmonia de Tênis, de 1964, o Hospital Escola da Santa Casa de Misericórdia — atual Fórum Criminal Ministro Mário Guimarães, ambos em São Paulo, e o Monumento de Playa Girón, em Cuba, de 1962. Retirado de Oculum ens. | Campinas | 10(2) | 229-241 | julho-dezembro 2013 A CAMPINAS DE FÁBIO PENTEADO | I.R. Giroto |231 1968

⁴ Para uma versão não sanguinolenta ver aqui: http://periodicos.puc- campinas.edu.br/seer/index.php/oculum/article/viewFile/2142/1788