ARQUITETURA E A MÃE INGRATA

ARQUITETURA E A MÃE INGRATA

Não gosto nem um pouco de patriotismo, nem de patriotadas. Continuo achando que patriotismo é o último refúgio dos canalhas, como diz a frase impagável de Samuel Johnson, escritor e pensador inglês do século XVIII.

No caso aqui, a relação não é bem da pátria, mas com a mátria, e o problema é com um de seus filhos, onde inversamente à frase lapidar, o canalha é a mãe¹!

Mais especificamente, o tratamento de Campinas para com um dos seus mais ilustres filhos.

O arquiteto Fábio Penteado² , foi e é um dos grandes arquitetos do Brasil, autor de grandes obras³ , de importância incontestável em diversas cidades do Brasil e inclusive aqui em nossa cidade.
Campinas, pouca ou nenhuma atenção dá as obras deste arquiteto e num particular trágico, o Centro de Convivência. Obra dos anos 70 do século XX.

Contando um pouco a história, Fabio havia sido preterido⁴ (ficou em segundo lugar) num concurso, em 1966, para um Teatro de Ópera, que seria instalado no entorno da Lagoa do Taquaral (sobrevive insepulta, uma concha, dita acústica). Entretanto na Quadrienal de Praga de 1967, ele e sua equipe, ganham a medalha de Ouro da exposição (o que é bom para o mundo não é bom para a Campinas)

Há então uma movimentação para trazer o arquiteto para projetar um dos mais icônicos edifícios da cidade, o Centro de Convivência Cultural, que seria estabelecido na região do Cambuí, ao final da avenida Júlio de Mesquita, na praça da imprensa Fluminense, obra do século XIX.

Fabio foi destes arquitetos que valorizam a formação humanística e a preocupação social, vindo de família de posses, não voltou sua enorme capacidade criativa somente a aqueles que mais tem. Produziu obras de relevância, cujo conteúdo social, como raros, conseguiu traduzir em formas arquitetônicas.

A construção de um edifício escultura iria impactar a cidade, tanto positiva como negativamente. Alguns setores nunca se convenceram de que uma praça para o povo poderia ser pensada naquele lugar.

A obra está lá e em condições ESTRUTURAIS DE RISCO. Não há pelo poder público interesse na sua recuperação, e não há um político, entidade de classe, AREA ou organização que busque providencias para as condições alarmantes em que o edifício se encontra.

Já passou da hora, da Cidade, esta mãe ingrata, voltar seus olhos a seu filho talentoso, que produziu exemplos de uma arquitetura inclusiva, como não mais se vê na cidade.

O ministério público tão zeloso dos desmandos de prefeitos, deveria por suas mãos sobre esta questão e definir responsabilidades e deveres com este verdadeiro patrimônio arquitetônico.
Não me custa xingar a mãe, mas vou poupar-lhes!

¹ Antes que algum incauto venha me acusar de algo, aviso de antemão que sou mais campineiro do que muitos que nasceram aqui. Eu escolhi morrer aqui. Não nasci aqui, mas aqui, me formei, criei família e filhas. Meu trabalho está todo em Campinas.

² A ideia deste artigo me surgiu, meses atrás ao passar pelo Centro de Convivência, levando um grupo de estudantes de arquitetura para conhecer a obra do arquiteto. Nos jornais de hoje 27/02/2019 aparece a noticia de uma exposição em Portugal sobre a obra de Fábio Penteado. A cidade de Matosinha, na sua Casa da Arquitetura, faz uma homenagem ao arquiteto. Veja aqui: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/02/museu-portugues-homenageia-obra-do-arquiteto-fabio-penteado.shtml

³ Para estudantes que não sabem quem é: O tênis clube de Campinas, Sociedade Harmonia de Tênis, de 1964, o Hospital Escola da Santa Casa de Misericórdia — atual Fórum Criminal Ministro Mário Guimarães, ambos em São Paulo, e o Monumento de Playa Girón, em Cuba, de 1962. Retirado de Oculum ens. | Campinas | 10(2) | 229-241 | julho-dezembro 2013 A CAMPINAS DE FÁBIO PENTEADO | I.R. Giroto |231 1968

⁴ Para uma versão não sanguinolenta ver aqui: http://periodicos.puc- campinas.edu.br/seer/index.php/oculum/article/viewFile/2142/1788