"POBREMA"

“POBREMA”

“O tempo para reparar o telhado é quando o sol está brilhando.”
John f. Kennedy

Quem começa assim, tem no mínimo dois. Em arquitetura também é assim, raramente temos “um” problema, em geral ele é a decorrência de tantos outros. Como a queda de avião, ele não cai por um erro, mas por uma sequência deles.

A frase do finado presidente americano, apesar da obviedade é exemplar no sentido da prevenção. Algo que não temos e nem fazemos, principalmente em relação aos telhados!

Goteiras são exatamente este caso. Aparentemente é” um” único problema do telhado. Olhado mais de perto veremos que é na verdade a soma de falhas que produzem o evento.
Temos em primeiro lugar o telhado, cujo aprendizado tem sido negligenciado pelas escolas de arquitetura. Em geral só se vê telhados planos, que são o convite ao problema.

O arquiteto1 tem se esquecido de que sua profissão significa, a palavra arquiteto ou arquiteta, é simplesmente o mestre de obra, derivado do grego. Mas não passa disso, alguém que conhece e domina a obra. Os estudantes têm pouquíssimo ou nenhum contato com a construção, não conhecendo os meandros da obra, não consegue antecipar problemas, através da recursividade2, que é uma das etapas do projeto.

O telhado tem como principal função a proteção das intempéries e as variações do tempo e do clima. Ele deve obedecer a inclinações especificas, que não devem ser as mesmas para todas as regiões climáticas do país. Locais com índices pluviométricos maiores devem ter inclinações maiores. Regiões sujeitas a ventos mais fortes devem ter inclinações e amarrações adequadas.

Vale registrar que os índices pluviométricos têm tido uma alteração, não propriamente na sua quantidade mensal, mas uma variação na intensidade. Assim o mês de junho, em Campinas, onde normalmente chove, em média 40 mm, pode chover num dia o total para um mês. Quando isto ocorre os problemas aparecem! O primeiro deles são as evitáveis goteiras, uma vez que são previsíveis e que ocorram, dado aos defeitos de nascença dos telhados.

As calhas representam aqui um outro aspecto. Dimensionadas a coletar a média de água por mês, são incapazes de dar vazão quando se ultrapassa a média e dai para o forro é um pulo. Normalmente solicitamos um aumento nas dimensões das calhas e invariavelmente ouvimos dos senhores calheiros: Doutor não precisa, é muito. Olha que eu faço isso a 40 anos! Pois é, pode ser que estejam fazendo errado a 40 anos. Temos quase que dobrado as dimensões tanto de calhas quanto de dutos.

As variações de temperatura durante o dia também não facilitam a proteção. É possível que as 6:00 h da manhã tenhamos uma temperatura de 10° graus e as 15:00 h(em geral o pico de temperatura) 34°~38° graus. Como diz o matuto da obra: aí não tem tatu que aguente!

Essas variações em larga escala produzem variações nos materiais do telhado facilitando a abertura de fendas e falhas por onde a água penetra.

O emboçamento do telhado sempre recomendado poucas vezes executado. Reduziria em muito a ação deletéria dos ventos e águas pluviais.

Os telhados planos que aparecem de forma quase totalitária nos estudantes de arquitetura tampouco representam uma solução adequada. Meu amigo, o arquiteto Otto Felix, um exímio executor de telhados plano, decerto vai me contradizer. Mas não tenho muitas esperanças que seja uma solução. Evidentemente que em alguns casos ele (o telhado) surge como a solução mais adequada e bela. Mas a minha dúvida recai sobre os impermeabilizantes. O Brasil, como já se disse, não é para amadores, as variações de temperatura aliada a altíssimos índices de UV (ultravioleta) reduzem a vida útil e tornam os impermeabilizantes quebradiços e ,portanto, sujeitos a falhas.

Todas estas patologias têm suas descrições e soluções descritas por diversos institutos3, o ruim é que acabamos por transferir o problema  aos proprietários , que passados alguns anos sem ter como resolver buscam as soluções mais a mão, o especialista em goteiras!!!

REFERÊNCIAS:


 

[1] Do grego   ἀρχι- (arkhi-, “chefe”) +‎ τέκτων (téktōn, “construtor”), na acepção correta seria o marceneiro, uma vez que grande parte da obra envolvia o domínio das estruturas em madeira. Nos dias de hoje o mestre de obra.

 

[2] Capacidade da mente humana de prever, antever e desenhar soluções mentais para o problema.

 

[3] Ver este interessante documento: http://repositorio.roca.utfpr.edu.br/jspui/bitstream/1/1873/1/CM_COECI_2012_2_03.pdf