DESGRAÇADOS

DESGRAÇADOS ¹

 

The tragedy in life doesn’t lie in not reaching your goal. The tragedy lies in having no goal to reach. Benjamin Mays [2]

 

 

A religião católica estabeleceu alguns dogmas que são interessantes para a análise que pretendo fazer. Um dos mais simbólicos deles, é a graça. A graça é algo que obtemos sem merecer. Você a recebe independente de sua vontade. A desgraça é o estado em que se encontram aqueles que perderam a graça por vontade própria, desejo ou ação.[3]

É nesta situação em que se encontram muitas salas de aula que observo quando dou aulas.

Ser professor hoje em dia é enfrentar um mundo em desgraça, movido a falta de educação, tédio e desinformação. Os alunos de hoje, são uma espécie de “ofendidinhos [4]” aos quais não se pode desagradar. São crianças mimadas, que não estão preparados para enfrentar as agruras da vida. Ao saírem enfrentarão desemprego, competição brutal e falta de oportunidades. Em quase sua totalidade são imaturos e o que é o pior, talvez para sempre.

Enquanto pais e professores estamos mal acostumando nossos filhos e alunos, protegendo-os dos males do mundo. Não é assim que a coisa funciona. Os alunos e alunas devem estar submetidos desde o primeiro dia de aula a as dificuldades da profissão, os desafios do conhecimento e a exploração da inovação.

Não que professores estejam isentos. grande parte deles não se atualizam, não investem em novidades e não estão sintonizados com o que acontece no mundo.  Parte deles sequer atuam como arquitetos, o que não é necessariamente um mal. Mas a experiencia do dia a dia de profissionais que atuam, é fundamental para o estabelecimento de uma harmonia entre teoria e prática.

Poucos trabalham em escritórios e já se sentem arquitetos ou arquitetas.

Tenho defendido o certificado de “inconclusão” aos alunos em vez de diploma, para que a noção de aprendizado continuado se estabeleça. Nunca, nunca estaremos totalmente formados. O arquiteto ou arquiteta que achar que sabe tudo, está morto e não sabe!

Os métodos, na universidade e escolas, sabidamente, estão ultrapassados, e novas metodologias de ensino estão sendo desenvolvidas de forma a captar a atenção e participação dos alunos.

No seio destas novas formas, está a produção de conhecimento, onde não há uma distinção entre professores e alunos, e em conjunto produzem o saber que é necessário ao aprendizado dos alunos.

Entretanto, esta novidade (não é tão nova assim) não chegou à faculdade de arquitetura, onde uma parte de professores, ainda precisam proferir uma aula. A razão disto? Conhecimentos básicos e fundamentais não foram absorvidos pelos alunos, nos estágios anteriores da educação.

A função precípua da universidade é formar pessoas aptas a desenvolver sua profissão. Outras funções são acessórias a isto, formar cidadão, mão de obra e técnicos, além de possibilitar um contingente de pessoas com saberes para fazer avançar o país. Gerar riquezas pessoais (sim é disto que se trata também a formação) e gerar também as riquezas do país, pois são elas que farão avançar as condições intelectuais, materiais e tecnológicas de toda uma geração.

O quadro de salas de aula é desanimador, ao se dar uma aula 95% (sim noventa é cindo por cento, dos alunos estão olhando celulares, notebooks ou conversando. É desanimador olhar de pé, o que eles fazem sentados. Eles não têm repertório capaz de possibilitar um discurso sobre o trabalho que tem a profissão que terão que exercer.

Num mundo terceirizado, o Balconismo e a Uberização das profissões, serão o destino de 99% deles ou delas, o que é lamentável de qualquer ponto de vista que se olhe.

Do ponto de vista pessoal, 12 semestres perdidos, a um custo altíssimo (como não existe almoço grátis, também não existe escola gratuita, todas as escolas são pagas de uma forma ou de outra). O custo de um aluno numa escola privada custa em torno de 160.000 R$, fora os custos de manutenção, alimentação e vestimenta.

As aulas noturnas são um teste a resistência dos alunos, que após uma jornada diária tem que enfrentar aulas num período que vai do começo da noite até as 22 horas. Para jovens pode não ser a atividade mais interessante a se fazer. Mas é um sacrifício que tem que realizar a fim de obter o tão almejado diploma.

Há uma culpa enorme de todo o sistema educacional, que precisa ser reformado (não pelo imbecil de plantão!!!) da raiz para seus galhos mais altos. tudo, literalmente tudo precisa ser alterado, para que haja uma real modificação do sistema de aprendizado no Brasil.

A academia não tem se esforçado muito, e as direções colocadas em muitas escolas estão ultrapassadas. A luta, fraticida ,pelo poder entre acadêmicos inviabiliza uma visão de longo prazo, dificulta o planejamento, e não atende as demandas por inovações que temos adiante.

Estamos em pleno século XXI, a 4ª Revolução Industria em curso e não há nas faculdades de arquiteturas, uma mínima visão dos impactos que esta revolução pode trazer para a profissão. tenho dito que o Brasil precisa de 3 revoluções: educação, educação e educação.

Sem isto o que nos reserva o futuro não é bom!

 

 

 

REFERÊNCIA:

[1] Não se deve extrair desta expressão aquilo que ela não contém. O termo é utilizado na sua acepção religiosa!

 

[2] A tragédia na vida não repousa em não alcançar o seu objetivo, mas em não ter objetivo para alcançar. Benjamin Elijah Mays era um ministro batista americano e líder de direitos civis que é creditado por lançar as bases intelectuais do Movimento dos Direitos Civis.

 

[3] É uma metáfora, este autor não possui nem religião nem alma para que possa receber graça ou desgraça. O termo aqui é utilizado para reforçar a ideia de que nossa situação decorre de nossas decisões, e não por condições dadas. Devemos sempre nos opor e confrontar as condições para a obtenção daquilo que desejamos ou almejamos.

 

[4] Expressão utilizada pelo filosofo Luiz Filipe Pondé, para designar a juventude cujos pais não preparam os filhos para o enfrentamento das dificuldades da vida.